Nossa vida é permeada de crenças. Mas o capitalismo, em seu estágio mais avançado, nos fez desacreditar de todas elas e se colocou como o único caminho viável. Não há alternativas, ou melhor, todas as outras foram catastróficas. Em face disso, cabe apenas a resignação ao menos pior dos mundos, uma teodicéia às avessas. O conceito de realismo capitalista foi criado pelo pensador britânico Mark Fisher para nomear o fim das meta-narrativas. Este conceito fala da incapacidade de imaginar uma realidade alternativa a esta que se impõe¹.

Passando pelo campo da direita, Mark Fischer fala de uma completa adesão aos valores impostos pelo mundo do (suposto) livre mercado. Sendo assim, os neoliberais são os realistas capitalistas por excelência. “Não há nada novo sob o sol”, dizem eles, “o comunismo perdeu, e a única coisa a se fazer é alinhar-se à guerra econômica de todos contra todos”.

Enquanto isso, no campo da esquerda, o conceito de Fisher fala de uma estranha quebra da capacidade de afetar e ser afetado. Uma força afastada do que pode, diria Nietzsche. É claro que sabemos que as coisas vão bem mal: o aquecimento global só piora, os lobbys de petróleo impedem o desenvolvimento de uma economia verde sustentável, o acúmulo de renda e a precarização do trabalho fazem disparar o endividamento e as doenças psicológicas. Enfim, a lista seria gigantesca, maior do que este texto comporta. Todos sabemos disso, mas não sabemos o que fazer com estas informações. 

A esquerda não soube renovar seu repertório de atuação para o novo século, ateve-se à social-democracia, às ditaduras ou à posição de denúncia. As consequências são profundas. Por mais que as teses de fim da história sejam ridicularizadas pelos intelectuais, parece que, no íntimo, estamos todos de acordo. Contanto que acreditemos que o capitalismo é o mal total, podemos todos continuar participando dele. Basta  falar mal nas redes sociais, ridicularizar os Bolsonaros, execrar os Zuckenbergs, hostilizar os Musks e tudo bem.

A pessoa não precisa acreditar que o capitalismo é bom, isso seria pedir demais, basta fazer com que se submeta pensando que é a única alternativa viável naquele momento. É comum ouvirmos as mais esperançosas, ao sair da faculdade, dizendo anos depois: “pois é, eu também vendi minha alma pro mercado”. Ela acredita em outra coisa, mas na prática, não vive tão diferente do seu chefe admirador de neonazistas. 

A força do capitalismo quebrou a ligação entre pensamento e vida. Nós nos dizemos de esquerda, votamos no partido que representa melhor o interesse dos trabalhadores, das minorias, e, se formos fiéis às terminologias, do proletário. Mas na prática, colocamos nosso dinheiro nos investimentos de maior lucro e pedimos desconto no ordenado da faxineira. Somos coniventes no nível do desejo. Aliás, esta crítica não pode parar aí: afinal, o que nós desejamos? Se o capitalismo age para submeter o campo do desejo aos seus propósitos, o que ele nos faz querer? 

A sedução libidinal do capitalismo nos levou para o consumismo individualista. O que vemos é a contínua desagregação da comunidade. A ansiedade é a tentativa de dar conta da pressão, o burnout vem e a tentativa fracassa. O sindicato foi trocado pelo ansiolítico ou pelo antidepressivo. O círculo de amigos foi trocado pela rede social. Por isso, vivemos numa espécie de hedonismo depressivo, onde a única coisa que resta é a busca por prazer. Mas um prazer que não leva para lugar nenhum, apenas mantém o mundo como é.

Por isso, um dos maiores problemas da sociedade realista é o tédio, nada sai do lugar, tudo é entregue numa embalagem reciclada vinda de outros tempos. O tédio acontece quando a novidade já não é realmente uma novidade, é mais do mesmo. Deste modo, o capitalismo pode apenas nos distrair, como uma série nova cheia de anúncios porque não temos a conta premium. Estamos todos esperando para ver o que vem depois do mundo acabar, mas ele resiste.

– Steve Cutts

Tudo isso acontece enquanto a direita segue de vento em popa. Ela promete mundos e fundos, mas não dá nada, claro. Sua capacidade é a de iludir e desta forma nos manter correndo na rodinha de rato que não sai do lugar. Nada mudou, o objetivo do capitalismo permanece o mesmo: o domínio político, econômico e subjetivo de uma classe exploradora sobre a dos explorados. Não há segredos aqui, a fórmula de Foucault permanece a mesma: o que se quer é uma sociedade produtiva economicamente e submissa politicamente. E para isso é necessário destruir todos os sonhos de mobilização. O capitalismo conseguiu ocupar todo o horizonte do pensável e formou subjetividades à sua imagem e semelhança, onde a única opção que resta é o consumo. 

Como habitar ativamente o fim da história? Neste ponto, Mark Fischer é radical, não cabe a nós olhar para o passado, ele pertence aos conservadores. Não cabe a nós olhar para o presente, ele pertence aos realistas. Só nos resta o futuro! Enquanto a esquerda olhar para seu retrovisor com nostalgia, se perguntando o que deu errado, nada de novo poderá nascer. Precisamos de algo mais pragmático e mais programático, diz Fischer, e para ontem, se possível. 

É preciso competir com o capitalismo em seu nível libidinal. Encontrar novos afetos. Fazer a cidade desabar escavando túneis novos por baixo da terra. Se a confiança e compromisso se perdem no meio da mobilidade e da dinâmica do mercado, que façamos novas alianças. Delírio é pensar que a saída está dentro do próprio capitalismo. A saída está em acelerar seu fim e imaginar realidades paralelas dentro dele. 

Talvez aí esteja a importância de revisitar as utopias. Mas calma, não há a necessidade de imaginar um outro mundo em sua completude. As utopias muitas vezes têm pretensões teológicas de onipotência, onipresença e onisciência. Não precisamos ver e saber tudo para enfim começar. Se o real é insuportável, qualquer realidade que formos capazes de construir terá que ser um tecido de inconsistências. Antes de mais nada, é mais importante consolidar heterotopias, mundos reais à parte desse. As Utopias nos fazem sonhar, as Heterotopias nos permitem viver, e é chegada a hora.

Texto da Série:

Monopolítica


¹Interessante, o conceito de Mark Fischer possui um análogo na análise do comportamento, Desamparo Aprendido, de Murray Sidman. Isso acontece quando um organismo “aprende que não há o que fazer”. Como todo organismo quer economizar energia e tende a uma certa inércia, aprender a não fazer nada é um tipo de aprendizado. Não importa o quanto esteja desconfortável, nada do que fizer o levará a sair da situação, então a melhor saída é ficar parado. 

Referências 

  • Realismo Capitalismo – Mark Fischer
  • Ailton Krenak – Futuro ancestral
  • Nas Ruínas do Neoliberalismo – Wendy Brown
  • A Nova Razão do Mundo – Dardot e Laval
  • Foucault – Ditos e Escritos Vol. VI – Repensar a Política

Como citar

TRINDADE, Rafael. Sociedade Realista. Razão Inadequada, 2025. Disponível em: <https://razaoinadequada.com/2026/08/31/sociedade-realista/>. Acesso em: [inserir dia, mês e ano].
Rafael Trindade

Autor Rafael Trindade

Filósofo, Psicólogo Clínico e Supervisor

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