“O capitalismo está passando por uma de suas mais importantes transformações”, pelo menos é isso que diz Yanis Varoufakis. Segundo o autor grego, o capitalismo está morrendo e o assassino seria o próprio capital. Ou seja, as mudanças impostas pelo capitalismo geraram dificuldades maiores que a sua capacidade de adaptação e ele está destruindo a si mesmo. Sim, mas o resultado não é dos melhores – e definitivamente não é o que a esquerda sempre sonhou. Tecnofeudalismo é o nome que o autor escolheu para descrever a emergência deste novo momento histórico. A expressão gerou horror entre os medievalistas, que não encontraram nada de feudal no sistema atual  de exploração senão uma tímida metonímia.

Toda a história começa com os primórdios da internet. Sua evolução modificou globalmente toda a forma de se comunicar. No começo, bem antes do Instagram e do TikTok, a internet era um lugar que escapava da lógica do lucro. Mas quem disse que o capitalismo deixaria ela funcionar por sua própria conta e risco? Deste modo, nos anos 70, começou a financeirização da internet. Foi todo um processo de sobrecodificação (diriam Deleuze e Guattari), onde a livre circulação de bits e bytes esbarrou no desejo de ganhar mais e mais dinheiro.

É esta transformação que foi batizada de tecnofeudalismo por Yanis Varoufakis. O processo de mercantilização da internet, diz o autor, revive a antiga forma de exploração entre  senhores e servos. Se no capitalismo o trabalhador se dirigia ao mercado e oferecia a única coisa que possuía, a sua força de trabalho; hoje o trabalhador – ainda sem posses – pede licença aos donos das terras digitais para produzir conteúdo nelas, quer seja Instagram, Youtube, Spotify, ou qualquer outra plataforma digital. A única condição é que parte de sua produção fique com o senhor feudal, digo, o dono da empresa. Por isso o conceito: tecnofeudalismo, porque os trabalhadores produzem na terra do senhor digital, e dão parte de sua produção a ele.

– Detalhe “A colheita do feno” – Peter Brueguel

Mas será que é simples assim? Quando o autor cria este conceito, ele sugere uma ideia de regressão ao modelo anterior, mas acontece que esta visão simplifica ao analisar tanto o passado quanto o  presente. Pois apresenta, de modo evolucionista, a época feudal como uma regressão à barbárie. Entretanto, a barbárie não está no passado, ela está no presente. Colocar o feudalismo como substituição dos elementos mais agressivos da atual forma de expropriação do capitalismo é no mínimo ingenuidade, para não dizer uma visão fantasiosa e preconceituosa, que os documentos históricos simplesmente não sustentam. Ou seja, trata-se de um preconceito evolucionista-histórico, afinal, os servos nas sociedades feudais viviam muito diferente de nós, tinham bem mais tempo livre, além de direitos de terra que nem de longe nós temos. Este  conceito espalhafatoso nos faz esquecer que o tempo anda apenas para frente, e na história não há regressão. Por isso, o conceito também erra ao analisar o presente, pois não percebe a incrível capacidade de adaptação do capital, criando sempre novas formas de sobreviver e se expandir. Ou seja, o que vemos é um aprofundamento da espoliação do trabalhador, mais uma maneira do neoliberalismo (que não é novo nem liberal) acumular e lucrar ainda mais. 

Tecnofeudalismo é uma forma simples de dizer que o Capital, não contente com seus lucros, deu um passo para além da mais-valia, revivendo em seu próprio continente as formas coloniais de extração e expropriação que sempre estiveram ativas durante o longo capítulo de acumulação primitiva. O lucro ainda existe, claro, porque o trabalhador continua a vender a sua força de trabalho no mercado. A questão é que agora, além disso, apareceram feudos de produção digital. Ou seja, o dinheiro atualizou velhos meios de exploração para se somarem aos atuais. Isso torna a condição do trabalhador pior, muito pior do que antes. Porque se não há uma substituição, então há uma sobreposição. Isso vale para inúmeras atividades: o trabalhador, após sua jornada de oito horas, é convidado a investir seu dinheiro em bancos e fintechs, incitado a postar no instagram para divulgar o seu trabalho, ou seduzido a apostar seu dinheiro em aplicativos de Bets. O tecnofeudalismo significa a universalização da exploração, 24h por dia, 7 dias por semana. Sem férias nem décimo terceiro.

Por isso Varoufakis se lembrou do Feudalismo, porque grandes monopólios empresariais hoje dominam o mercado de produtos: Pepsico, Nestlé, Unilever; mas também sorrateiras fintechs dominam a circulação de dinheiro: Black Rock, Vanguard, State Street; e por fim agora as bigtechs dominam as plataformas de internet: Meta Platforms, Google, X Corp. O tecnofeudalismo afirma que todas as terras estão tomadas, inclusive as digitais, e todos os monopólios favorecem os tecnofeudos, mas isso é absurdamente desproporcional em relação a um pedaço de terra cultivável num recanto da Europa. Comparar a exploração atual com o feudalismo é ignorar a desproporção abissal entre uma coisa e outra. Basta considerar o aumento brutal da concentração de renda para perceber isso. O que vemos hoje são ricos se tornando cada vez mais ricos sem produzir nada. Aliás, isso não deveria ser novidade: os ricos nunca produziram nada. Enfim, a união com o silício, da qual falava Deleuze, se mostrou um desastre completo, mas nem por isso merece um nome novo. 

- Detalhe "A colheita do feno" - Peter Brueguel

– Detalhe “A colheita do feno” – Peter Brueguel

Se a análise da sociedade se mantém, o problema de como resistir também: atualizada as formas de opressão do capitalismo, as formas de resistência ainda se mostram à altura deste momento? Não parece realista apelar para as antigas estratégias de organizar o proletariado em sindicatos, porque o proletariado das nuvens está muito mais disperso e cansado. Outra questão, será que é efetivo reagir com as armas do opressor? Talvez, a tecnologia que nos oprime nunca possa tornar-se uma verdadeira ferramenta de emancipação. Em outras palavras, é possível revoltar-se inserido na lógica de luta do opressor? Enfim, como os vassalos do capitalismo digital podem se unir e enfrentar este novo Leviatã? 

Continuamos a sonhar com o fim da exploração, então a questão é saber qual seria a rota de fuga do capitalismo tecnológico guiado por inteligência artificial. Ora, a nossa alternativa sempre foi e sempre será a de qualquer animal acuado: lutar ou fugir. Lutar para adquirir cada vez mais domínio dos meio de produção; ou fugir, criar ilhas anarquistas capazes de formar um arquipélago – neste imenso mar algorítmico que é o capital – instituindo comunas tecnologicamente avançadas, imperceptíveis, temporárias, invisíveis, ou, em uma palavra, tecnocomunistas.

Texto da Série:

Monopolítica

Referências 

  • Tecnofeudalismo – Yanis Varoufaki
  • Vida longa ao tecnofeudalismo? Nenhum byte de feudal no capitalismo tardio – Paulo Pachá e Eduardo Daflon
  • Os despossuídos: debates sobre a lei referente ao furto de madeira – Karl Marx
  • A Era do Capital Improdutivo – Ladislau Dowbor

Como citar

TRINDADE, Rafael. Sociedade Tecnofeudal?. Razão Inadequada, 2025. Disponível em: <https://razaoinadequada.com/2026/09/28/sociedade-tecnofeudal/>. Acesso em: [inserir dia, mês e ano].
Rafael Trindade

Autor Rafael Trindade

Filósofo, Psicólogo Clínico e Supervisor

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