A coleção de tolices de Édipo é inesgotável e sempre atual” – Deleuze e Guattari, O Anti-Édipo, p. 226
Hoje nós vamos contar a história da edipianização forçada do pequeno Hans. Na verdade, o título deste caso de Freud, publicado em 1909, é: “A Análise da Fobia de um Garoto de Cinco Anos”. Trata-se de mais um caso onde a vítima serve de exemplo do funcionamento da psicanálise. Freud já escrevera o caso Dora anteriormente para provar a eficácia da interpretação dos sonhos. Mas tudo isso foi feito com pacientes adultos, deitados no divã. O caso Hans, para Freud, era importante, porque permitiria observar diretamente na infância o que havia sido observado em pacientes clínicos adultos.
É muito importante notar que Hans não foi atendido por Freud, e sim por seu pai, médico entusiasta da psicanálise. Uma história que, diz Freud, “apenas a união da autoridade paterna e médica tornariam possível”. Em outras palavras, Freud é o supervisor, o pai é o analista, e a criança, o analisado. Outra observação: Hans encontra-se apenas duas vezes com o Dr. Freud, que faz observações “perspicazes” para o caso.
O CASO
O mais importante, no desenvolvimento psicossexual de Hans, foi o nascimento de uma irmã quando ele tinha três anos e meio. Esse evento intensificou suas relações com os pais e colocou problemas insolúveis para seu pensamento” – Freud, Vol. 8, O Pequeno Hans
Quando a análise começa, Hans é uma criança de 3 anos, alegre, esperta e espontânea, cheia de interesses, principalmente pelos órgãos sexuais, que apelidou de faz-pipi. Por isso, ele pergunta sempre onde está o faz pipi do pai, da mãe, dos animais, das locomotivas, etc. Mas as coisas começam a mudar quando nasce sua irmã, Hanna. Ele fica irritado, frustrado, diz que preferia que ela não tivesse nascido e tem fantasias de que ela se afogasse na banheira. A partir de então, Hans começa a ter medo de sair de casa. Argumenta que lá fora tem cavalos, e que eles podem morder seu dedo.
Freud conclui disso um complexo de castração. Pois Hans gostava de mexer em seu faz-pipi, e a mãe uma vez ameaçara de cortar seu pênis fora. E esse medo retorna ao ver que sua irmã não tem um faz-pipi. Por isso, diz Freud, o medo dos cavalos: eles podem morder seu faz-pipi e arrancá-lo. Quando maior o desejo de mexer nele, maior a angústia. Apesar do perigo não ser real, é extremamente angustiante para a criança. O medo de que sua excitação leve à castração pelo cavalo, que neste momento simboliza a ameaça da mãe.
Pois bem, antes disso, Hans havia viajado de férias para Gmunden, norte da Áustria, com seus pais. Enquanto Hans e sua mãe permanecem lá, o pai é obrigado a deixá-los algumas vezes para trabalhar. Hans gostou bastante deste período de férias, pois pode brincar com outras crianças e passar muito tempo com sua mãe. “Eu gosto quando eu fico sozinho com a minha mãe”. Nesse instante o amor pela mãe se contrapõe ao pai que o impede de ficar com ela. Desde aquele momento já surgem os primeiros sonhos de angústia.
Para Freud, a presença muito próxima da mãe gerou desejos na criança. Esta pode lhe ter dado “carinhos demais”. A fobia é uma tentativa de solução de um problema: qual é o seu lugar entre o pai e a mãe? Hans deseja ardentemente a companhia de sua mãe, atenção que divide com o pai e, posteriormente, com a irmã. Por isso crescem os sentimentos de rivalidade com o pai, que ao mesmo tempo ama e odeia. Para Freud, sua fobia não passa de um conjunto de fantasias para lidar com estas angústias.
Combinei com o pai que ele diria ao menino que o problema com os cavalos não passa de uma tolice. A verdade, diria ele, é que Hans gosta muito da mãe e quer que ela o aceite na cama. Ele tem medo dos cavalos porque o faz-pipi dos cavalos o interessou bastante” – Freud, Vol. 8, O Pequeno Hans
Ora, se os cavalos são uma tolice então qual é a verdade? Ele quer que a mãe o aceite em sua cama. Seus carinhos haviam despertado nele alguma coisa que não entende. Mas através dos esclarecimentos, assegura Freud, a fobia irá embora. De volta a Viena, Hans passa a ter medo de cavalos com uma carroça. A interpretação é: houve uma mudança da fantasia, a carroça agora é a mãe e o cavalo é o pai. Hans diz que, em Gmunden, o cocheiro de um cavalo branco disse a ele “não aponte o dedo porque o cavalo pode morder”. O pai responde: “Olhe, acho que você não se refere a um cavalo, mas ao faz-pipi que não se deve pegar”, Hans diz: “Mas um faz-pipi não morde”, o pai replica: “Talvez morda” (?). A criança tenta então provar vivamente que era mesmo um cavalo branco, mas o pai sentencia: “Se você não pegar mais no faz-pipi a bobagem vai diminuir”. Mas não diminui.
Um dia, Hans aparece com um “pensamento”: “Tinha uma girafa grande e uma girafa amassada no meu quarto, e a grande gritou porque eu tirei dela a amassada. Então ela parou de gritar e eu sentei na girafa amassada”. O pai diz: “A girafa grande sou eu, isto é, o pênis grande (o pescoço comprido), a girafa enrugada, sua mãe, isto é, seu membro; o que é, portanto, resultado do esclarecimento”. O pai se lembra das cenas matinais em que grita com a mãe para não deixar o menino deitar-se com eles por alguns instantes. E ao ir embora de casa despede-se dizendo à mãe: “Até mais, girafa”.
O tempo passa, a angústia permanece, eles voltam ao consultório e o pai diz: “Apesar de todos os esclarecimento, não diminui o medo por cavalos, a fobia é resistente e persiste”. Ao que Freud, no alto de seu conhecimento da sexualidade infantil pergunta à criança: “Estes cavalos usam óculos?” O menino obviamente nega. Então o Dr. pergunta se o pai usava óculos, o que a criança também negou, apesar da evidência contrária. Enquanto a criança descreve com detalhes o cavalos, fala de uma focinheira em torno da boca, e o Dr. pergunta: “o preto em torno da boca é um bigode?”, mas já não interessa a resposta de Hans:
Então lhe revelei que ele temia seu pai, justamente porque amava tanto a mãe” – Freud, Vol. 8, O Pequeno Hans
Pronto, novas provas foram encontradas: tudo se reduz ao desejo de deitar-se com a mãe! Hans já podia confessar isso ao pai. Muito antes dele nascer, disse Freud, ele já sabia que a criança se apaixonaria por sua mãe, e a amaria tanto que teria medo do pai por causa disso. O professor inclusive já dissera isso ao pai, por isso Hans não precisava ter medo, apenas admitir…
Diga que é Édipo, senão você leva um tapa” – Deleuze e Guattari, Anti-Édipo, p. 61
Freud argumenta que, antes de mais nada, a fobia é uma defesa que mascara o verdadeiro desejo. Ela aparece no lugar do verdadeiro problema, que havia sido excluído da consciência: Hans tem o desejo de ficar com a mãe, por isso tem medo da castração, e recalca os impulsos hostis contra o pai. A causa da fobia seria esta acumulação de tensão sexual produzida pela abstinência ou pela excitação sexual não consumada, que fica estancada, desligada das representações. O medo é então deslocado para a figura do cavalo, que Hans teme mordê-lo, como repreensão de seus desejos incestuosos. Ou seja, as representações da angústia já estão afastadas de sua representação original. O desejo original do pequeno Hans era de ficar com a mãe, porém, pelo medo da castração, e sendo a relação incestuosa proibida, ele recalca as suas fantasias, bem como os impulsos hostis contra o pai, e isso dá início à formação do sintoma.
Ele é realmente um pequeno Édipo, que gostaria de ter o pai ‘longe’, eliminado, a fim de ficar só com a bela mãe, de dormir com ela. Esse desejo originou-se nas férias de verão quando as presenças e ausências alternadas do pai longe revelaram a condições de que dependia a ansiada intimidade com a mãe. Na época ele contentou-se com a versão de que o pai deveria ‘partir para longe’, à qual pode ligar-se depois, diretamente, o medo de ser mordido por um cavalo branco, devido a uma impressão casual na partida de outra pessoa. Depois, provavelmente em Viena, onde ele não podia mais contar com as ausências do pai, o desejo assumiu o conteúdo de que o pai estivesse longe para sempre, estivesse ‘morto’. O medo originário desse desejo de morte em relação ao pai, ou seja, um medo de motivação normal, constituiu o grande obstáculo da análise, até ser eliminado na conversa em meu consultório” – Freud, Vol. 8, O Pequeno Hans
Culpabilização da mãe, que lhe deu carinhos demais? Sim. A partir de então, a fobia se divide em duas: ao mesmo tempo, medo de perder o pai que descobriu seu pequeno segredinho sujo, e hostilidade em relação ao mesmo, por impedi-lo de concretizar seus mais íntimos desejos. Mas depois desta sessão com o Dr. Sabe Tudo, a fobia na verdade piorou! Freud argumenta que agora ela apenas tem “coragem de se mostrar”. O pai diz a Hans que ele tem medo dos cavalos com focinheira porque parecem seus bigodes, Hans diz que não; o pai diz que Hans tem medo dos cavalos porque eles tem um faz-pipi maior, Hans está confuso.
Ele passa a ter medo dos cavalos caírem ao carregarem uma carruagem pesada. Ele disse que viu um cavalo caindo uma vez na rua, depois de ser chicoteado. E se lembrou de seu amigo que brincava de cavalinho em Gmunden, ele também tropeçara e machucara o pé. O pai pergunta: “E quando esse cavalo caiu você pensou no papai?”, “Talvez. Pode ser…”, responde Hans, sem entender.
Foi quando o garoto viu cair um cavalo grande e pesado, e pelo menos uma das interpretações dessa impressão seria aquela enfatizada pelo pai, de que Hans sentiu então o desejo de que o pai também caísse daquele modo – e morresse” – Freud, Vol. 8, O Pequeno Hans
Hans volta com outro “pensamento”: “Olhe o que eu pensei: estava na banheira, aí veio o encanador e desprendeu ela. Então ele pegou uma furadeira grande e encostou na minha barriga”. Hans fala, mas o pai não o escuta, é hora da interpretação: para ele a fantasia representa ele na cama com a mãe e o pai o expulsando. O pai pensa, a banheira também pode ser o ventre da mãe e a furadeira é o pênis dele. Uma fantasia que fala da concepção de Hans… ou de Hanna. Para o pai, as carruagens passam então a a representar a gravidez. Como os pais simplesmente não explicaram como acontecia, Hans estava fantasiando como ela seria possível. O cavalo caindo é o pai moribundo morrendo e a carruagem carregada de malas é a mãe dando a luz.
Certo, tudo que resta agora são confirmar as interpretações através da fala da criança. Tudo já está acertado: atrás do medo manifestado em primeiro lugar, de que o cavalo o morderia, foi descoberto um segredo profundo: o desejo de se deitar com a mãe e de morte do pai. Além do medo de ser retaliado pelo pai.
Não se pode esconder que tudo começa na cabeça do pai: ‘é isso que você quer, matar-me, fazer sexo com sua mãe?’ Isto é, primeiramente, uma ideia de pai: Laio, pai de Édipo. É o pai que faz um alarido infernal e que brande a lei (a mãe é mais complacente: não é preciso fazer tanto caso, é um sonho, uma territorialidade)” – Deleuze e Guattari, O Anti-Édipo, p. 361
Hans volta com outro sonho:
Hans veio a mim dizendo: pensei numa coisa. De início se esquece o que foi, mas depois conta, em meio a consideráveis resistências: ‘Veio o encanador e primeiro me tirou o bumbum com um alicate e então me deu outro e depois o pipi. Ele disse: Deixe eu ver o bumbum e eu tive que me virar, e tirou ele e depois disse: ‘deixe eu ver o pipi’. O pai apreende a natureza da fantasia que envolve um desejo, e em nenhum instante duvida a única interpretação permitida. Pai: Ele lhe deu um faz-pipi maior e um bumbum maior? Hans: sim. Pai: como os do papai, porque você queria ser o papai? Hans: Sim, e um bigode como o seu, que eu também queria ter, e cabelos assim. (indica os cabelos em seu peito)” – Freud, Vol. 8, O Pequeno Hans
Um encanador retira seu pênis com uma ferramenta e coloca outro no lugar. Para Freud e o pai da criança, este sonho representa uma solução para a fobia. O pai lhe dá “suas ferramentas”, não para que se deite com sua mãe, mas para que procure sua própria mulher. Se a fobia dos cavalos inicialmente foi uma maneira de não sair à rua e ficar em casa com a mãe, isso apenas aumentou ainda mais as suas angústias! Mas a solução do encanador está melhor: o filho terá seu próprio faz-pipi-grande, mas tudo no seu tempo. A análise está terminada, a angústia termina. O pequeno tornou-se, segundo Freud, culturalmente capaz e socialmente útil.
A rigor, nada aprendi de novo com essa análise, nada que já não tenha percebido, com frequência de modo menos nítido e mais indireto, em outros pacientes já adultos. E, como as neuroses desses outros pacientes sempre puderam ser relacionados aos mesmos complexos infantis que se revelaram por trás da fobia de Hans, sou tentado a reivindicar uma significação típica e exemplar para essa neurose infantil, na suposição de que a multiplicidade de fenômenos repressivos neuróticos e a abundância de material patogênico não impedem sua derivação de bem poucos processos ligados aos mesmos complexos de ideias” – Freud, Vol. 8, O Pequeno Hans
A multiplicidade de fenômenos e a abundância de material patogênico não passa de um único e mesmo desejo em uma sala de espelhos no circo. O mesmo Édipo andando e se encontrando deformado em cada espelho por que passa. Édipo com roupas e formatos diferentes.
Como ele brinca novamente com seus filhos imaginários, eu lhe digo: ‘esses filhos ainda estão aí? Você sabe que um menino não pode ter filhos’.
Hans: Eu sei. Antes eu era a mãe, agora sou o pai.
Pai: E quem é a mãe das crianças?
Hans: Bom, a mamãe; e você é o vovô.
Pai: Então você queria ser grande como eu, estar casado com a mamãe, e ela ia ter filhos.
Hans: É, eu quero isso, e a avó de Lainz (mãe paterna) é a vovó.
Tudo termina bem. O pequeno Édipo achou uma solução mais feliz do que a prescrita pelo destino. Em vez de eliminar seu pai, concede-lhe a mesma felicidade que pede para si; torna-o seu avô e casa também com a própria mãe”– Freud, Vol. 8, O Pequeno Hans
Outro pensamento de Hans é que em algum momento o pai se casaria com a avó, deixando a mãe livre para se casar com Hans. Ufa, a doença está curada! O pequeno Édipo reconheceu seu lugar. Freud comemora esta fantasia, nossa pequena criança está devidamente edipianizada e não há mais nada para a psicanálise fazer aqui. A solução de compromisso está selada e assinada no cartório da psicanálise: Hans ficará em casa, mas jamais se deitará com a mãe. Tanto melhor… agora Hans pode viver no melhor do pior dos mundos: a neurose.
DELEUZE E GUATTARI
Pai: ‘Quem é mesmo um cavalo do ônibus? Eu, você ou a mamãe?’/ Hans: ‘Eu, eu sou um cavalinho‘” – Freud, Vol. 8, O Pequeno Hans
Quando dizem que a psicanálise é a alternativa, é preciso rir e dizer, o que falta são as alternativas à psicanálise. Nosso título alternativo para o pequeno Hans será: A edipianização forçada de um garoto de cinco anos. Pois o que nós questionamos é a crueza dos desejos do pequenos garoto contrapostos às interpretações do pai-médico-psicanalista ao longo do caso. Para ser o mais claro possível: o que nós questionamos é a edipianização furiosa em que a psicanálise embarca sem o menor pudor!
Se Édipo é a colonização do desejo então precisamos de um colonizador. Se Édipo é o desejo se fechando sob pressão externa, é necessário encontrar onde estão estas ferramentas que fecham, pregam, selam e soldam o desejo no espaço apertado do ambiente familiar. Se édipo é a colonização do desejo, todos nós somos responsáveis por isso, e o pobre Hans não passou de apenas mais uma vítima.
Para o menino, o cavalo sempre foi sempre o modelo do prazer no movimento (“eu sou um cavalinho”, diz Hans ao dar pulos), mas, como esse prazer no movimento inclui o impulso para o coito, a neurose o restringe, e eleva o cavalo a símbolo do pavor” – Freud, Vol. 8, O Pequeno Hans
É fácil ver quando a psicanálise vai mal: quando toda afirmação termina em papai e mamãe. A psicanálise naufragou os devires do pequeno Hans, pois pegou todas as suas linhas de desejo e as conduziu de volta para o ambiente familiar. Sim, Hans sente-se sozinho desde o nascimento da irmã, mas o seu desejo de criança não é dormir no quarto com a mãe e expulsar o pai, ou pelo menos não apenas isso, ele almeja outras veredas. Plurais demais para caberem em uma forma geométrica, todo seu desejo investia em um campo social aberto. E, estranho, Freud e o pai sabem disso, apenas não se dão por satisfeitos com esta expansão do desejo.
O inconsciente infantil não é o que a psicanálise faz crer. Como ele funciona? Esta é a pergunta. Ele funciona cartografando as intensidades ao seu redor, circulando pelo mundo com os poros todos desobtruídos. As intensidades se produzem nesse encontro com o heterogêneo: a rua, as carruagens, os cavalos, outras crianças. Uma criança funciona traçando um mapa transbordante de afetos e de devires. O inconsciente maquínico, diferente do representativo, quer apenas conectar-se com o mundo, nada mais. “Onde fica o faz pipi da locomotiva?”, pergunta Hans. Pois é isso mesmo, o pequeno quer saber apenas das máquinas: como elas se conectam? Ele abre linhas no mapa de Viena, vê cavalos chegando e partindo da estação da janela de seu quarto, alguns carregam malas, outros não. Hans quer operar devires, quantas máquinas, “como elas funcionam?”. Desenvolve teorias, possui inúmeros agenciamentos possíveis para isso.
Primeiro, e antes de mais nada: o faz pipi das coisas: das locomotivas, do papai, das girafas, da mamãe, da serviçal, dele mesmo, da ovelha, das vacas que fazem leite pelo faz-pipi. Segundo: as carroças, as estações, as carruagens, as malas, as crianças de rua brincando na estação, os cocheiros estralando seus chicotes, o que faz os cavalos relincharem. Terceiro: o primo mais velho que o visita, a menina na varanda que ele observa apaixonadamente, a garota rica no restaurante que promete visitá-lo mas não aparece, a filha bonita de Freud. Quarto: Fritzl, seu amigo que o abraça carinhosamente e cai brincando de cavalinho, Mariedl, com quem ele quer deixar a casa para dormir com ela.
A criança não para de dizer o que faz ou tentar fazer: explorar os meios, por trajetos dinâmicos, e traçar o mapa correspondente. Os mapas dos trajetos são essenciais à atividade psíquica. O que o pequeno Hans reivindica é sair do apartamento familiar para passar a noite na vizinha e regressar na manhã seguinte: o imóvel como meio. Ou então: sair do imóvel para ir ao restaurante encontrar a menininha rica, passando pelo entreposto de cavalos – a rua como meio” – Deleuze, Crítica e Clínica, p. 83
Sim, sim, Hans quer deitar-se com a mãe e afastar-se do pai, mas é tão pouco dentro da constelação de afetos que ele traça! Mas assim que entra no consultório, Freud conduz tudo, conforme é seu hábito, para papai e mamãe. O Dr. SabeTudo ignora todos os mapas de Hans, todas as suas curiosidades, para perguntar: “este cavalo aí, ele tem um óculos?”. Freud destroi os devires de Hans com suas perguntas maliciosas tentando provar a veracidade da psicanálise. Freud não pergunta se Hans contato com outras crianças ou se sente isolado do mundo. Não, não, não, Hans é acusado de incesto e Freud aconselha o pai a deixá-lo de castigo, fazendo Hans decorar a tabuada de édipo!
Hans é a típica pobre criança rica. Uma pena, porque seu inconsciente não investia apenas em papai e mamãe, ia muito além, nestas linhas de exploração, descoberta, recorte, recuo, avanços. O inconsciente maquínico lida com trajetos e devires, enquanto o psicanalítico lida apenas com pessoas e objetos; um, com mapas, cidades, estados, nações, a deriva dos continentes; enquanto o outro carrega sua caixinha de um lado para o outro, escondendo seu pequeno segredinho sujo, ávido para entrar na tumba onde encontra-se o faraó mumificado. Deve-se explorar o mapa! Há uma diferença enorme entre a concepção cartográfica da esquizoanálise e a concepção arqueológica da psicanálise. É preciso pensar Hans andando pelas ruas, olhando os parques, a estações de trem, as carroças, as carruagens, os cocheiros, os cavalos. Ah, os cavalos! Então é isso! Eles se ligam às carruagens, eles passam pelas estações, eles são chicoteados, eles relincham, eles caem! Como eles são grandes e fortes!
Define-se uma coisa muito mais por seus afetos que por categorizações. Já dizia Espinosa, um cavalo de corrida é muito diferente de um cavalo de carga. Por quê? Por causa dos afetos singulares de que cada um deles é capaz:
O pequeno Hans define um cavalo traçando uma lista de afectos, ativos e passivos: possuir um grande faz-pipi, arrastar cargas pesadas, ter viseiras, morder, cair, ser chicoteado, fazer charivari com as patas. É essa a distribuição de afectos (onde o faz-pipi desempenham uma função de transformador, de conversor) que constitui um mapa de intensidades. É sempre uma constelação afetiva” – Deleuze, Crítica e Clínica, p. 87
A criança não vê o pai ou a mãe no cavalo, ele entra em devir com o cavalo! O pequeno Hans entra em seu pequeno Devir-Cavalo! Ao entrar na zona de vizinhança do animal, ele se modifica. Uau, então é isso?! Ele corre, troteia, anda, viaja. Quantos afetos são possíveis! Um mapa de intensidades se abre, ele é arrastado por estas linhas. Mas alguma coisa parece dar errado… é como se o desejo tropeçasse em Édipo e começasse um longo processo de queda. A criança resiste, claro, com humor, complacência, até mesmo com tédio, mas não é possível fazer isso eternamente. Em algum momento ocorre o naufrágio de todos os devires.
Todos os caminhos da psicanálise levam ao incesto. O que é a fobia de Hans senão seu processo de fechamento e impedimento das máquinas? Não, você não é um cavalo! Não, você não quer dizer isso! Começa o Édiposplaining: o cavalo é uma bobagem, na verdade você quer a sua mãe. E sabe quem tem a sua mãe? O seu pai! O navio seguia firme no mar dos devires, até encontrar um iceberg chamado psicanalista. A fobia são os devires naufragando! A fobia são seus desejos reconduzidos ao quarto do pai e da mãe: “é lá que ver quer estar, não é? É isso que você quer, eu sei!”.
Pai: Uma coisa lhe aborrece no papai: que a mamãe gosta dele.
Hans: Não.
Pai: Por que você sempre chora quando a mamãe me dá um beijo? Porque você tem ciúme.
Hans: Isso sim.
Pai: O que você faria se fosse o papai?
Hans: E você fosse o Hans – Aí eu ia gostar de levar você para Lainz todo domingo, não, todo dia da semana. Se eu fosse o papai, ia ser muito bom.
Pai: E o que você faria com a mamãe?
Hans: Ia levar também para Lainz.
Pai: E o que mais?
Hans: Mais nada.
Pai: Por que então você tem ciúme?
Hans: Não sei.
Pai: Em Gmunden você tinha ciúme também?
Hans: Em Gmunden não. Em Gmunden eu tinha minhas coisas, tinha um jardim, e também filhos.
[…]
Pai: Em Gmunden você ia muito para a cama da mãe?
Hans: Ia.
Pai: E então você pensou que era o papai?
Hans: Pensei.
Pai: E então tinha medo do papai?
Hans: Você sabe tudo, eu não sabia de nada.
Pai: Quando Fritzl caiu, você pensou: ‘se papai caísse assim’, e, quando o carneiro lhe deu cabeçada: ‘se ele desse cabeçada no papai’ […] Você pensou então que se o papai morresse, você seria o papai.
Hans: Sim.
[…]
Pai: Sabe por que você ia gostar? Porque quer ser o pai.
Hans: Sim… como é?
Pai: Como é o quê?
Hans: Um pai não tem bebê, como é, então, se eu quero ser o pai?
Pai: Você gostaria de ser o pai e estar casado com a mamãe, de ser grande como eu e ter um bigode, e gostaria que a mamãe tivesse um filho.
Hans: Papai, até eu estar casado vou ter só um bebê, se quiser, quando estiver casado com a mamãe, e se eu não quiser um, Deus não vai querer também, quando eu tiver casado.
Pai: Você queria ser casado com a mamãe?
Hans: Ah, sim”– Freud, Vol. 8, O Pequeno Hans
A Esquizoanálise é certeira: tudo começa na cabeça do pai! O que torna o Complexo de Édipo um falso problema. A questão é bem mais simples, na verdade, Hans tem pouco contato com outras crianças, ele é a típica pobre criança rica, que fica em sua sacada observando as outras crianças, a menina do outro lado da rua, os meninos correndo pela estação, e assim por diante. Todos os devires possíveis naufragaram, mesmo sua mãe, sua companheira de brincadeiras agora tem um nova criança para brincar e o deixou de lado. Ele não pode mais circular pela cidade, a não ser com seu pai, que atrapalha todos os seus devires; ele não pode mais perguntar pelo faz-pipi das coisas, ele não pode mais abrir seu mapa de afetos.
As crianças resistem à pressão e à intoxicação psicanalíticas; Hans ou Richard o tomam com todo humor de que são capazes. Porém não conseguem resistir por muito tempo. Têm de guardar seus mapas, sob os quais só restaram fotos amareladas do papai e da mamãe. ‘Sr K. interpretou, interpretou, INTERPRETOU…” – Deleuze, Crítica e Clínica, p. 85
E quando finalmente, por cansaço, a criança admite, o psicanalista-médico-pai diz: “Ahá! Então é isso que você queria, não é? Eu sabia!”. Naufrágio de todos os devires! Você pode falar, mas o pai não vai escutar, ele está paranoico: “Então é a mamãe que você deseja, né? Eu sei! Eu descobri!”. Ela fica confusa, era isso que queria? Fica envergonhada, ora, mas não é possível! Sente-se desmoralizada, então agora não há mais o que fazer? Enquanto a psicanálise argumenta que a fobia é resultado de um desejo incestuoso deslocado para uma representação sublimada, nós sustentamos que a fobia é uma reação a esta força gravitacional edípica que a família exerce sobre todas as representações, é o medo de naufragar em Édipo, de cair em seu abismo.
Ele não pode mais circular pela cidade, porque a irmã nasceu. Ele não vai mais viajar, ele não pode mais abrir seu pequeno mapa de afetos, ele não pode falar de cavalos, ele não pode operar conexões. Mas Freud não quer saber de nada disso: O cavalo é o pai e ponto final. Se ele morde, então só pode morder o pênis do filho, para eliminar de uma vez por todas seu desejo sujo. Todos os caminhos da psicanálise levam ao incesto! A banheira de afetos era inicialmente um Corpo sem Órgãos, um território aberto, repleto de intensidades, onde muita coisa era possível, e o pai, com seu grande pênis realiza milhares de cortes nestes fluxos. Resta a fobia…
Mas eis que o Dr. Freud fala de uma possível objeção ao caso:
Carece de valor objetivo a análise de uma criança através de seu pai, que realiza o trabalho envolto em minhas teorias e acometido de meus preconceitos. Uma criança, dizem, é bastante sugestionável, talvez por ninguém mais do que por seu pai; deixa-se impingir qualquer coisa para agradar ao pai, grata por ele ocupar-se tanto dela; o que ela afirma não tem valor comprovatório e o que produz em termos de ideias, sonhos e fantasias toma naturalmente a direção que lhe foi impressa com todos os meios. Em suma, tudo é, mais uma vez, ‘sugestão’, com a diferença de que é mais fácil desmarcará-la na criança do que no adulto” – Freud, Vol. 8, O Pequeno Hans
Ora, ora… concordamos plenamente com Freud! Não que seja mentira, mas a criança está aprendendo a ser edípica! Afinal, a criança queria masturbar-se ou queria a mãe? Queria a mãe ou ver os faz-pipis? O objeto da masturbação era necessariamente a mãe? Ou era uma máquina produzindo prazer em si mesma? O menino ligava sua máquina mão à máquina faz-pipi ou desejava deitar-se com a mãe e possuí-la?
É certo que durante a análise teve de lhe ser dita muita coisa que ele mesmo não sabia dizer, tiveram de lhe ser apresentados pensamentos dos quais ainda não havia traço nele, sua atenção teve de ser voltada para as direções de que seu pai esperava que viesse algo. Isso debilita a força comprobatória da análise; mas em todo caso procedemos assim. Uma psicanálise não é uma investigação imparcial, científica, mas uma intervenção terapêutica; em si ela nada quer provar, quer apenas mudar algo” – Freud, Vol. 8, O Pequeno Hans
Pois é, e realmente mudou! Parabéns, Dr. Sexualidade Infantil, é exatamente isso, você conseguiu. Hans aprendeu a dizer apenas papai e mamãe. Mas é claro, quando limitamos assim o desejo, e o colocamos em um quarto apertado, é óbvio que ele volta-se contra si mesmo. A fobia é um SOS: “Me escutem, estou sendo edipianizado!”. Nietzsche já dissera: “Todos os instintos que não se descarregam para fora voltam-se para dentro – isto é o que chamo de interiorização do homem”. Morre o devir-cavalo, nasce o menino civilizado.
O desejo da criança tentou escapar, mas o pai a pegou pelo pé e a trouxe de volta! “Venha aqui meu pequeno pervertido! Quem você pensa que é? Escapar do espaço familiar? Nunca! Ultrapassar a si mesmo, fluir? De modo algum!”. Hans, que nem queria ver Freud (só aceita porque o pai lhe diz que o professor tem uma filha bonita), agora caiu na rede da psicanálise, deitou-se no divã-interpretativo. Hans, para quem o faz pipi é era antes de mais nada uma ferramenta, uma máquina, vê seus objetos parciais sendo acoplados a objetos globais. Ele, que quando olhava para a estação, seu medo era de que a carruagem partisse sem ele! Que não o levassem para conhecer outros mapas de devires, outras intensidades, outras possibilidades de afetar e ser afetado! Ele que sempre poderia voltar a casa, porque sabia o número, debate-se na teia das interpretação de carruagens e mães, cavalos e pais. Hans pensava em ter filhos, dele mesmo, mas o pai não pode admitir isso! “Não adianta fingir! Eu sei que você ainda quer a sua mãe”. Um encanador lhe dá o pênis do pai. Passa-se o bastão da psicanálise adiante. Adeus máquinas, adeus conexões, adeus sínteses legítimas! Foi um prazer, mas agora o pequeno Hans precisa entrar no mundo adulto, o mundo edípico, o mundo das sínteses ilegítimas.
Não é o sucesso terapêutico que buscamos em primeiro lugar; queremos, isto sim, pôr o paciente em condição de apreender conscientemente seus desejos inconscientes. E obtemos isso apresentando à sua consciência, com nossas palavras, o complexo inconsciente, a partir dos indícios que ele nos traz e com a ajuda de nossa arte interpretativa” – Freud, Vol. 8, O Pequeno Hans
Gaslight se chama agora arte interpretativa? Ora, se isso fosse um experimento científico seria completamente invalidado pela manipulação das perguntas e das respostas. A terapia infantil precisa passar por uma imposição interpretativa? Isso debilita a própria força comprobatória da psicanálise! Mas Freud não parece preocupado, afinal ele não quer convencer aqueles que o questionariam. O Dr. SabeTudo prega para convertidos, àqueles que já estão convictos de seus pequenos segredinhos inconfessáveis. A psicanálise desenvolveu técnicas de domesticação do desejo, fazendo ele andar em círculos, como cães presos em uma coleira, como o animal andando na roda do prazer, produzindo desejo, mas não para si mesmo. Enquanto a esquizoanálise nos solta desta coleira e faz andar por aí, circular pela selva, abrir mapas amplos, encontrar múltiplas saídas, o labirinto da psicanálise parece ter de tudo, menos saídas…
Porém, todo psicanalista deveria saber que sob Édipo, através de Édipo e atrás de Édipo, é com as máquinas desejantes que ele há de se confrontar”
– Deleuze e Guattari, O Anti-Édipo, p. 79
Deixemos Hans nas grades de sua grande sacada, observando os cavalos e as crianças na estação, afinal, quais são as outras fontes de prazer que Hans tem à sua disposição? O pobre menino rico está condenado de antemão a desejar sua mãe, odiar seu pai e sua irmã. Tudo que lhe resta é sonhar que o mecânico venha substituir seu faz pipi por um maior. Aí então, quem sabe, ele possa voltar a desejar.





