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Dadas as sínteses do inconsciente, o problema prático é o do seu uso, legítimo ou não, e das condições que definem um uso de síntese como legítimo ou ilegítimo”

– Deleuze e Guattari, Anti-Édipo, p. 95

Vimos que as sínteses maquínicas do inconsciente podem ser legítimas ou ilegítimas. Seu uso legítimo realiza conexões sem fim, mas as coisas nem sempre dão certo, e uma síntese legítima pode tornar-se ilegítima, naufragar no mar de repressão, no peso das imposições sociais. Veremos como isso acontece.

1ª Síntese Ilegítima: Conectiva

O que se opõe aqui são dois usos da síntese conectiva: um uso global e específico; um uso parcial e não-específico”

– Deleuze e Guattari, Anti-Édipo, p. 98

Os objetos parciais, que fazem passar libido de conexão, podem ser cortados de tal maneira que sua linearidade binária se perde em um uso edipiano, global e específico.

Quando acaba? Quando o fluxo infinito acaba? Quando ele é cortado e fica flutuando no vazio, deixa de efetuar sínteses. Este é o uso ilegítimo, quando as conexões chegam a um ponto final: e… e… e… e… e pronto, acabou. Uso global e específico até fechar no universal. A potência de conexão infinita acaba! O socius corta esse desejo.

Mas o socius, o corpo social, luta para que a sínteses conectivas não desfaça sua organização. Ele opera uma inversão da sínteses, fazendo delas um uso transcendente, fechando o rizoma em um objeto global. Os órgãos ficam insensíveis, fechados, trabalhando maquinalmente: E… e… e… se fecham em uma representação estática, total.

O que era parcial torna-se parte. Um funcionamento através de conexões específicas. Objetos buscando a completude no todo. Seu princípio é o da falta primeira. Há sempre uma subjetividade cindida ao meio, como no banquete de Platão. Pierre Clastres nos dá boas pistas para entender este processo. Nas sociedades primitivas, cada membro se insere como uma parte de um grande totem. As partes se fecham em um todo, não há espaço para as sínteses conectivas realizarem novas conexões fora do socius.

Passar sempre de um objeto parcial ao objeto completo, esta é a ideia da Síntese Conectiva Ilegítima. Passar sempre da parte ao todo. Desejamos passar da incompletude à completude, ansiamos por isso. Há sempre paraíso do qual fomos expulsos e queremos retornar. A ideia de falta é o que nos faz buscar sermos completos.

Reparem como o funcionamento ilegítimo das sínteses se encaixa perfeitamente nas metáforas e metonímias – nunca estamos onde queremos. Nunca falamos do que queremos falar, estamos sempre falando de outro lugar, que ainda não chegou, mas quem sabe um dia chegará! O parcial é visto como parte do todo, menor, falta. O desejo edípico busca o global e o específico, ele não se contenta com o parcial, para ele parece pouco, as pulsões como fluxos soltos não fazem sentido.

2ª Síntese Ilegítima: Disjuntiva

Se na síntese conectivas passamos da parte ao todo, na disjuntiva, buscamos a exclusão de fluxos que nos atrapalham nesta empreitada. Se na disjunção inclusa estávamos deslizando, na exclusiva, encontramos uma barreira, um limite. Se a disjunção inclusa é ilimitada, a exclusiva é limitada.

Já chega! Decida-se: ou uma coisa ou outra!”. Antes podia os dois, agora só pode um; antes não tinha problema, agora tem. É aqui que a síntese disjuntiva torna impossível as trocas e submete todas as diferenças à identidade. O fechamento das sínteses conectivas cria uma pessoa, ela se torna limitada e exclusiva, ela é obrigada a escolher entre duas opções. A mãe, por exemplo, vira mãe e apenas mãe, nada mais: não pode ser filha, não pode ser mulher, não pode sair, não pode transar, não pode nada, pois agora é apenas mãe.

É por isso que o adolescente fica tão confuso: ele é e ao mesmo tempo não é criança, ele é e ao mesmo tempo não é adulto… ele chega no momento decisivo das escolhas disjuntivas exclusivas: você será homem ou mulher, heterossexual ou homossexual? Sua profissão será a do papai ou a da mamãe? Você não é mais criança, não faça isso!

Quando Édipo se insinua nas sínteses disjuntivas do registro desejante, impõe-lhes o ideal de um certo uso, limitativo ou exclusivo, que se confunde com a forma da triangulação — ser papai, mamãe ou filho. É o reino do Ou então na função diferenciadora da proibição do incesto: aí é mamãe que começa, aí é papai, e aí é você. Fique no seu lugar”

– Deleuze e Guattari, O Anti-Édipo, p. 104

Enquanto o uso inclusivo nos dava lições anedípicas, parece que Freud tem um gosto pelo desejo compartimentalizado. O papai deita-se com a mamãe, o filho deve permanecer em seu quarto. A síntese disjuntiva exclusiva exige que não se cruze certas linhas de diferenciação com a ameaça de nos perdermos no abismo do indiferenciado. Certas linhas não devem ser seguidas, certas barreiras não devem ser cruzadas.

Nietzsche antecipa muito bem esta ideia quando na Genealogia da Moral fala da chegada dos Bárbaros que dominam outros povos e impõem cortes e lugares. O Déspota realiza um corte e quadricula o espaço. “Se você é do nordeste, então fique por lá!“. “Imigrantes na Europa? Não!“. Você é da Nobreza, do Clero ou do Povo? Você é pai, mãe ou filho? O capitalismo não suporta a multiplicidade, ele só faz disjunções exclusivas.

A disjunção exclusiva quebras as conexões dos usos conectivos da primeira síntese. Não há mais fluxo, fecha-se tudo numa estrutura, cada um no seu quadrado… ou melhor, cada um na sua ponta do triângulo edípico. 

3ª Síntese Ilegítima: Conjuntiva

A terceira síntese é o ponto final dos fluxos, é a lápide colocada sobre o desejo enterrado. O uso nomádico e plurívoco das sínteses conjuntivas torna-se um uso segregativo e bi-unívoco.

Bi-unívoco porque faz o caminho das imagens da família para a sociedade: “Se meu pai é meu chefe, então minha empresa é uma família”. O uso defeituoso da terceira síntese nos leva a dizer: “Então era isso o tempo todo! Então era do meu pai e da minha mãe que eu estava falando, era isso que eu queria dizer!”

É o fim das conexões de objetos parciais. A linha binária infinita de libido é substituída por conjuntos de pessoas, imagens, papéis sociais. Os objetos parciais perdem suas características de conexão para se tornarem parte de um todo maior. Tudo passa a ser posse de uma pessoa, de alguém, de outra coisa.

É o fim das disjunções inclusas. Nos tornamos resignados: o pai é o pai, pronto, a mãe é a mãe, e ponto final. Todo o resto gira em torno destas figuras. O múltiplo foi reduzido a duas imagens que brilham inabaláveis e inalcançáveis. A libido gira em falso dentro do triângulo edípico: se o coronel é meu pai, então a nação é minha mãe. Se o médico é meu pai, então a enfermeira é minha mãe… e assim por diante.

O que é a psicanálise para Deleuze e Guattari? Exatamente estas sínteses naufragando, empacando, emperrando, entortando. Quando os fluxos se deixam carimbar por Édipo, é porque as sínteses perderam sua potência de conexão, disjunção e conjunção. O parcial se torna uma parte, o inclusivo se torna exclusivo, a abertura para devires se torna fechamento em imagens.

Um inconsciente que se deixa exprimir; sínteses conectivas que se deixam tomar por um uso global e específico; sínteses disjuntivas que se deixam apanhar num uso exclusivo, limitativo; sínteses conjuntivas que se deixam prender num uso pessoal e segregativo… Pois o que significa “então era isso que isto queria dizer”? Esmagamento do “então” por Édipo e pela castração. Suspiro de alívio: veja, o coronel, o instrutor, o professor, o patrão, tudo isto queria dizer isso, Édipo e a castração, “toda a história em uma nova versão”

– Deleuze e Guattari, O Anti-Édipo, p. 94

Ao invés de experimentar o que não se é, o uso transcendente experimenta apenas o que é. Colmata tudo em lembranças burguesas, familiares. O consumo de intensidades puras acaba, pois torna-se estranho às figuras familiares. Nada de diferença, tudo é colonizado e codificado para ser melhor entendido e dominado. Medo de se perder, medo do diferente, medo do encontro. Fora da casinha não há nada, e se há, são monstros perigosos! Fechem as janelas, tranquem a porta e joguem a chave fora! A produção do inconsciente acabou, a máquina emperrou, a fábrica tornou-se inútil e perigosa, por isso agora deve ser fechada e transformada em um inofensivo teatro grego.

Texto da série:

Inconsciente Maquínico

Rafael Trindade

Autor Rafael Trindade

Quero fazer da vida o ofício de esculpir a mim mesmo, traçando um mapa de afetos possíveis.

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Francisco Alexsandro Soares Alves
Francisco Alexsandro Soares Alves
5 meses atrás

Você usa Nietzsche de forma circunstancial e nem sabe o que fala. Quem são realmente os bárbaros na Genealogia da Moral? O que eles significam para o resto do mundo?
Outra, o capitalismo aceita toda a diversidade e multiplicidade. Seus motivos parecem ser apenas um crítica ao sistema. Mas chega. Onde as bobagens de Deleuze e Gatarri podem levar? Ao caminho da loucura mesmo. É falta do que ter o que fazer.

Marcelo Micke Doti
Marcelo Micke Doti
Reply to  Francisco Alexsandro Soares Alves
5 meses atrás

Sim, o capitalismo aceita toda diversidade e multiplicidade… desde que ele diga por meio de suas forças, linhas e símbolos “qual” diversiade e qual multiplicidade. Quer ser bem pragmático, só para exercitar o raciocínio? Fale do MTST tomar um prédio público e verá como a imprensa dominante (a PIG de Paulo Henrique Amorin) os trata. Aqui a xingava-se a Dilma (xingamentos machistas e misóginos) e ninguém da imprensa PIG, mulheres, a defendiam. Kamala Harris, por outro lado, é idolatrada pela Míriam Leitão. Sim, aceita toda diversidade… desde que seja a “minha” diversidade.