Onde está o amor? É difícil de saber. Que horas são? Estamos cansados, muito atrasados. O coelho olha no relógio… “é tarde, é muito tarde”. O amor acontece sempre “mal feito, depressa, fazer a barba e partir”. Ele se assusta, foge, se esconde, se perde. Mas se tentamos defini-lo tantas vezes não é para prendê-lo, e sim para que possamos vivê-lo melhor.
Nos ensinaram duas formas de amar. A primeira pode ser comparada com um quadro: existem amores que querem a eternidade. A prudência se torna senhora de toda a dinâmica, nada pode sair do lugar, a tinta seca, o amor fica enquadrado numa moldura pesada. Existem amores que se conservam, param o tempo.
A segunda forma de amor é fogo que arde sem se ver, é a chama que consome a matéria e deixa apenas cinzas. Confunde-se amor com paixão, ele consome a si mesmo, podemos compará-lo com uma canção: um beijo de três minutos, uma noite no motel. Como músicas pasteurizadas que tocam na rádio: introdução, verso, refrão, solo, refrão, fim, acabou, próxima. A fórmula se repete. O mesmo tom, os mesmos acordes, mas o principal é a gravadora por trás que dirige tudo para que no fim termine exatamente igual. Música capturada, passa, mas nada se passa. Tempo como reflexo da eternidade. O amor é a música que toca no rádio, top five, top ten, top thousand songs. É tudo muito rápido, cinco minutos e já vem outra.
Dois modos de amar, mas o mesmo amor sem graça. Convenhamos, é possível amar sem realmente amar alguém. Nosso objetivo? Aprender a desplatonizar amores, encontrar outras formas de amar, para além destas duas. Afinal, um instante de amor não é em vão, é na verdade um vão que se abre no infinito para deixar o ar e a claridade entrarem. O instante é apenas a amostra grátis da eternidade! Podemos fazer uma vida de vários instantes, sem que isso nada signifique, nossa pergunta é como fazer um instante durar?
Primeira tarefa: transformar o quadro em mapa. Aprender a olhar para ele não como um reflexo da eternidade, mas como uma mapa de afetos: para onde vai? Que regiões indica? Onde é perigoso? Onde queremos nos aventurar? Um quadro não é um espelho, não é um reflexo, é um mapa. E nós somos cartógrafos.
Salvar o amor da vida eterna e da cara metade! Não há metade da laranja nem tampa da panela, nosso coração não se encaixa nestas formas gastas. O amor da vida é um amor na vida, a duração é sua única medida. O eterno retorno nos oferece uma trilha poucas vezes trilhadas pelos amantes:
Este amor, como você o está vivendo e já viveu, você terá de viver mais uma vez e por incontáveis vezes; e nada haverá de novo nele, mas cada dor e cada prazer e cada suspiro e pensamento, e tudo o que é inefavelmente grande e pequeno em seu amor, terão de lhe suceder novamente, tudo na mesma sequência e ordem”
Um amor nunca se repete, nunca… por isso de nada vale procurar o mesmo amor em outra pessoa. Mas vale se perguntar: queremos que o amor retorne? Claro! Queremos que a potência de amar retorne! E ela sempre retorna, se se diz sim, se há um amor-fati em cada amor, ele sempre retorna como mais potência de amar. Que o amor retorne eternamente, não o mesmo amor, não a mesma cena, mas o que há de afirmativo em seu ato!
Segunda tarefa: Transformar a música que acaba em ritornelo. As músicas de jazz funcionam assim, elas não têm uma medida exata, duram enquanto durar a potência de afirmação, como uma criança brincando. O chorus pode voltar inúmeras vezes! “É isto o amor?, pois bem, da capo então!“. A repetição serve para dar potência, funciona para recolher novamente as peças e ganhar mais velocidade, mais força, mais altura. O que retorna é sempre a potência. Fazer da conservação uma ferramenta da criação, isto que o jazzistas fazem, isso que os amantes devem fazer!
O amor no tempo não é o reflexo imperfeito de um amor da eternidade. Não se pode imitar a eternidade achando que se escapa do tempo. Quando me apaixono não é porque quero enquadrá-lo, nem para que ele se consuma como fogo na palha. O amor não é eterno, é um eterno retorno, o amor não é uma música que passa, ele é um ritornelo que cresce, ganha corpo e consistência.
O que podemos esperar de um amor? Que o tempo pare ou que o tempo dure? Criar uma maneira de estar entre o instante e a eternidade! Acreditamos que não existem apenas dois modos de amar, mas vários. É necessário então encontrar devires ainda não explorados. Caminhos novos que não morram em um quadro empoeirado de museu nem se queimem rápido como a madeira seca no fogo. Não queremos amar pela metade, nem queremos dividir o amor em dois. Que nos seja permitido fazer o instante durar, enquanto houver intensidade, extensidade, enquanto houver vida. Ir além de si, inaugurar territórios novos, um amor suave, um devir-nuvem. Amar é devir! Ele se faz na convergência entre instante e eternidade.
Complicado? Mas não perceberam ainda que queremos nos complicar? Como dois corpos na cama se dobram e desdobram entre os lençóis, como um sangue que erra de veia e se perde no coração do outro. Somos românticos? Não saberíamos dizer… é romântico falar mais da vida que da morte? Mais do prazer que da dor? Não… não nos propomos a desplatonizar amores à toa… nem realistas, nem românticos, nem idealistas nem surrealistas, talvez sejamos apenas ingênuos. Não sabemos o que somos ainda, nós só queremos amar.



