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Nada… é a resposta mais comum que eu escuto. Ou então alguma crítica do tipo “pensa, pensa, pensa e não sai do lugar…”. Bom, gostaria de dar a visão de um filósofo que venho conhecendo há algum tempo: Slavoj Zizek.

Como vivemos num mundo extremamente pragmático, é de se esperar que a primeira pergunta seja “O que a filosofia faz?” ou então “para que serve um filósofo?”. O problema da pergunta está no verbo “fazer”, que hoje exige atitudes plenamente utilitárias, funcionais. O que um engenheiro civil faz? Constrói coisas. O que um médico faz? Cura doentes. O que um advogado faz? Defende seu cliente. Mas o que exatamente um filósofo faz?

Zizek responde que a função da filosofia é diferente das citadas acima, não é sua intenção resolver problemas. A filosofia não pretende resolver problemas e é isso que a torna tão especial, é ai que está sua beleza. A verdadeira função do filósofo é redefinir problemas, repensar a pergunta. Ele não pode responder perguntas, sua verdadeira intenção é fazê-las. Muitas vezes, diz Zizek, o que imaginamos ser o problema não o é absolutamente. Estamos caminhando na direção errada, resolvendo esta situação criaremos outra mais complicada, estraremos num loop sem fim, tornaremos sua solução impossível a longo prazo. É ai que entra a filosofia: dando um passo pra trás e vendo se essa realmente é a pergunta que deve ser feita (talvez por isso achem os
filósofos tão chatos).

Devemos ou não legalizar o aborto? Pergunta simples. Por que a Igreja  Evangélica, baseada na bíblia, luta fervorosamente para que pessoas, mesmo que não seja evangélicas, não façam aborto? Pergunta filosófica. Devemos ou não liberar o uso de determinadas drogas? Pergunta simples. O que leva certos indivíduo em nossa sociedade a necessitar do entorpecimento de sua percepção para dar sentido a suas vidas? Pergunta filosófica.

Nestes casos, o filósofo funciona como um guia, que através de seus questionamentos, diminui a chance de fazermos a pergunta errada, não a resposta. A pergunta errada é falhar antes mesmo de começar.É por isso que, afirma Zizek, quando temos um grande problema, algo de urgência, não chamamos um filósofo para resolvê-lo. Se um meteoro estivesse caindo na terra, chamaríamos os militares/cientistas para jogar uma bomba atômica ou o que quer que seja e salvar a terra. A filosofia não funciona com essa velocidade exigida pelo mundo atual, e o filósofo também não seria louco o bastante para se perguntar se um meteoro aproximando-se da terra é um problema ou não. Ele sabe que é um problema, mas suas capacidades não são apropriadas para a situação.

Neste ponto, vemos a grande importância da filosofia e de seu modo humilde de
agir: a filosofia se permite fazer perguntas diferentes.

Então perguntam ao filósofo: 

– Existe a verdade?

 – Não sei! Mas por que a verdade é tão importante pra você? – ele responderia.

Texto da Série:

O que é Filosofia?

Rafael Trindade

Autor Rafael Trindade

Quero fazer da vida o ofício de esculpir a mim mesmo, traçando um mapa de afetos possíveis.

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Bruno Holmes Chads
Bruno Holmes Chads
3 anos atrás

Prezado Rafael Trindade.

Em primeiro lugar, parabéns pelo texto. Estou fazendo o doutorado e as minhas questões são justamente compreender o procedimento de análise de Zizek e o modo como esse procedimento pode ser utilizado em aulas de filosofia. A minha pergunta, portanto, é: onde, na obra de Zizek, posso encontrar mais elementos a respeito do que vc escreveu, de que “a verdadeira função do filósofo é redefinir problemas, repensar a pergunta. Ele não pode responder perguntas, sua verdadeira intenção é fazê-las. Muitas vezes, diz Zizek, o que imaginamos ser o problema não o é absolutamente.”?

Obrigado,

Bruno H Chads