Estamos hoje frente a uma classe totalmente escrava, que no entanto não se dá conta disso ou melhor ainda, que não quer enxergar […] a renúncia e a resignação são a fonte de sua desgraça”

– Da Servidão Moderna

- Francesco Bongiorni

– Francesco Bongiorni

Quando dizemos que a servidão é voluntária, não é uma metáfora, muito menos um efeito de retórica: somos realmente escravos de nosso tempo e nossa servidão é literalmente voluntária. “Lutamos por nossa servidão achando que lutamos por nossa liberdade” (Espinosa). Como chegamos a este ponto? Como nos tornamos grandes exaltadores dos valores que nos escravizam? E pior, como não percebemos?

“Renúncia e resignação” é o subtítulo da grande biografia de nossa era. Mergulhados na ignorância seguimos com medo. Estamos perdidos, mas mantemos as aparências, ao menos temos nossa pequena liberdade entre quatro paredes. Construímos um mundo que não nos pertence, no qual nos sentimos inseguros, tristes. Cada centímetro de terra é propriedade de alguém, amamos esta palavra, a sensação de sua aquisição é nosso orgasmo último. Pagamos para sobreviver, sobrevivemos para comprar, pagar aluguel atrasado, o carnê, a prestação, os comerciais de televisão.

Vivemos para ter, temos para ser, somos para mostrar, mostramos para existir, existimos para fotografar e colocar nas redes sociais, o número de curtidas nos diz se ainda estamos vivos. A falsa abundância, a falsa ilusão de escolha. A mentira do excesso, a mentira das possibilidades na prateleira. “Your not your khakis” (Fight Club).  Temos casas e pessoas em situação de rua, temos casacos e pessoas morrendo de frio, temos comida e pessoas morrendo de fome, temos remédios e pessoas morrendo doentes. Temos de sobra mas sentimos que tudo nos falta: livros e analfabetos, braços e solidão, crianças abandonadas e pais em depressão. Se ao menos nossa razão fosse adequada, mas nem isso… não há dúvidas: somos irracionais!

Tudo foi tomado, raptado, não temos escapatória? Compre verde, vende mais, compre orgânico, seja saudável. Seja gay, mas compre, seja negro, mas compre, seja o que quer que seja, tenha filhos, mas não falte no emprego, não pare de produzir e consumir, não saia da linha, a menos que dê lucro. Tenha mais, tenha novo, tenha a última novidade. Não conserte, a obsolescência é planejada. A infelicidade também planejada, você não sabia? Me dê aqui seu celular, ele tem mais de um ano? É antigo… o novo tem curvas sexys e esse novo aplicativo.

E ainda dirão que o trabalho liberta! Nos farão agradecer Deus e o mundo por perdermos 8 horas de nossa preciosa e única vida em uma esteira absurda, um cubículo ridículo, produzindo não sei o quê, não sei por quê, sem saber para quem. Uma embalagem que será descartada tão rápida quanto o processo que a criou. Produzimos em estado mecânico, engrenagem de máquina de indústria que não nos pertence. Chegou um e-mail novo. Nosso desejo está em liquidação. Você não vai responder? Vendemos o corpo, a alma e uma liberdade que sequer imaginávamos existir. Nossa vida está tomada de forma integral! Então vamos construir muros ainda mais altos em torno de nossa subjetividade! Somos escravos em tempo integral, mesmo dormindo, mesmo nos divertindo! Queremos fazer sexo como nos filmes pornôs, andar de carro como o piloto de fórmula 1, cozinhar como o masterchef.

Este é nosso modo de vida, um modo absurdo e cego, desintegrado e estúpido, isolado e impotente, homem unidimensional, homem calculável. Somos a piada sem graça de nosso tempo. A obediência tornou-se nossa primeira natureza. Não se pode nem mais desobedecer, não sabemos mais como, não temos mais imaginação para tal. A desobediência calculada faz parte deste jogo maluco no qual não nos dizem as regras. Não conseguimos nem mesmo imaginar uma outra possibilidade de vida. Jogamos os dados e voltamos duas casas. O dinheiro é o único nome que conhecemos, ele concentra todos os sentidos em uma só palavra. Jogamos os dados, mas o resultado já está decidido.

- John Holcroft

– John Holcroft

A criança é a primeira vítima, damos a elas as mesmas porcarias que consumimos, as mesmas imagens mortas, as mesmas frases forçadas, o mesmo discurso falso e desesperador. Coca-Cola na mamadeira. A vida é assim, bem vinda ao mundo, sorria para o Instagram. Seja campeã, mas o jogo é desleal. O mesmo vale para a mulher, que tantas vezes é colocada como mero objeto entre objetos, o troféu do homem bem sucedido. Tudo está abaixo dos modelos que nos entregam, há apenas um único objetivo, colocar cabresto em todos, controlar tudo que for possível, para que nada escape. Procuramos por simulacros, brinquedos tortos, frases sussurradas. Mas tudo é postado em CAPS LOCK vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana.

Somos mediatizados em tudo! Não vivemos nada! Nossas próprias histórias de amor são contadas por filmes água com açúcar. Siga estes passos para viver o amor eterno. A linguagem nos dominou, sem percebermos, repetimos as frases dos nossos pais. A cultura de dominação fala por nós.  Somos telespectadores de nós mesmos. Onde está o espelho que queremos quebrar? Como repensar-nos se ainda somos escravos das imagens que nos deram? Como pensar se nosso próprio pensamento está viciado? Seguimos as mesmas trilhas neuronais, os mesmo caminhos práticos e existenciais. Procurem um pé de cabra! Entrem pelo cano de esgoto, ou os dutos de ar condicionado. Há quantos anos não vemos o sol nascer?

Como parar de obedecer? Temos alguma chance? Onde está o elo mais fraco da corrente? Talvez precisemos parar de obedecer a nós mesmos, já que nos tornamos cúmplices de nossos senhores! Talvez nós sejamos o elo mais fraco da corrente! Afinal, somos os primeiros a nos trair e denunciamos os poucos que ousam se levantar contra o absurdo que a vida se tornou. As notícias deste tipo não passam nos jornais. E se passam, ora, estamos do lado dos mocinhos, não destes marginais, terroristas, petistas, vagabundos, comunistas, perigosos foras-da-lei! Mesmo as vozes em nós são abafadas. Estamos resignados, a dominação venceu, colonizou todos os campos possíveis. Não há mundo mais desigual, absurdo, triste, que o mundo atual…

Não podemos falar de democracia, com certeza, não vivemos em uma. Ela se tornou sinônimo de produção, venda, consumo e acumulação. Chamamos o sistema totalitário mercantil moderno de democracia representativa e aplaudimos quando privatizam nossos direitos. Mas quem tem direitos tem deveres, dizem. Então precisamos aprender novamente a desobedecer, resistir, rever direitos e deveres! Procuramos por subjetividades novas, diferenças radicais, que construam um campo em comum, mas fora do comum. Novas formas de organização e de luta. “O poder não deve ser conquistado, deve se destruído…”

Rafael Trindade

Autor Rafael Trindade

Filósofo, Psicólogo Clínico e Supervisor

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