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O corpo sob a pele é uma fábrica superaquecida,
e por fora,
o doente brilha,
reluz,
em todos os seus poros,
estourados

– Antonin Artaud

Somos todos máquinas! Haveria uma maneira mais clara e confusa de inaugurar uma filosofia? Máquinas que funcionam por toda parte! Máquinas que se acoplam e desacoplam, máquinas que cortam o fluxo uma das outras. Máquinas que aquecem, se desarranjam, crescem, criam. Peça por peça. Não é uma metáfora, não é uma maneira de pensar, as máquinas não estão em nossa imaginação, elas são reais. Enfim, a esquizoanálise começa com as máquinas desejantes.

Isso funciona em toda parte: às vezes sem parar, outras vezes descontinuamente. Isso respira, isso aquece, isso come. Isso caga, isso fode. Mas que erro ter dito o isso. Há tão somente máquinas em toda parte, e sem qualquer metáfora: máquinas de máquinas, com seus acoplamentos, suas conexões. Uma máquina-órgão é conectada a uma máquina-fonte: esta emite um fluxo que a outra corta. O seio é uma máquina que produz leite, e a boca, uma máquina acoplada a ela. A boca do anoréxico hesita entre uma máquina de comer, uma máquina anal, uma máquina de falar, uma máquina de respirar (crise de asma). É assim que todos somos “bricoleurs”; cada um com as suas pequenas máquinas. Uma máquina-órgão para uma máquina-energia, sempre fluxos e cortes”

– Deleuze e Guattari, O Anti-Édipo, p. 11

Tudo para Deleuze e Guattari é produção, constante movimento. Nós também fazemos parte deste fluxo material: peças se juntando e se separando, se juntando em partes que se sobrepõe, decompõe, justapõe. O movimento das máquinas é contínuo, se expande, se contrai, se arranja, se desarranja, sempre algo passando por cima de algo, sempre alguma coisa engolindo outra. Caos? Não exatamente… as máquinas desejantes são uma multiplicidade positiva que supera a identidade, talvez por isso identificá-la com clareza. Falar em máquinas nos impede justamente ficar presos nas ideias de identidade e sujeito. A questão aqui é a qualidade dos encontros.

Estas máquinas acoplam-se umas às outras em sistemas binários formando regimes associativos: junto-separado, corte-fluxo, enche-esvazia. Produção de produção. Sempre em movimento, sempre movimentando e sendo movimentadas por máquinas menores e maiores. Produção sem lógica, sem nexo, sem finalidade, sem fim. Mas sempre uma coisa e outra coisa, sempre “e… e… e…”.

O que define precisamente as máquinas desejantes é o seu poder de conexão ao infinito, em todos os sentidos e em todas as direções”

– Deleuze & Guattari, O Anti-Édipo, p. 514

Esta produção é também o que define nosso inconsciente: uma usina, uma metalúrgica operando na máxima capacidade (a natureza não economiza). “O inconsciente produz. Não para de produzir. Funciona como uma fábrica” (Deleuze, Abecedário). As máquinas constituem a vida do inconsciente. Somos fruto dessa produção desenfreada. O desejo se cria, se faz, se expande e nós sentimos isso em nós, zunindo, rangendo. E quando o desejo cresce e transborda, ele cria, e toda criação acontece no real (porque não há nada além da realidade). Não há negatividade na natureza, ela parte sempre de um ponto maior que zero. Por isso não falta nada ao desejo: todo desejo é produção de realidade.

É preciso falar da ação como processo de produção e não como representação! O desejo é produção e não aquisição! Não está na vitrine de um shopping. O inconsciente produtivo se utiliza da matéria para sua criação. Nesta oficina se processa toda a produção inconsciente que nos atravessa, podemos sentir o desejo a fluir por nossos poros e ultrapassar nossa pele. As máquinas são movidas a desejo, sem isso elas param, em excesso, elas desarranjam.

Heidi Taillefer

O inconsciente produtivo não é um palco onde se interpreta uma peça de teatro grego, não interiorizamos nada porque não há interior, existem apenas fluxos, máquinas dispostas em determinadas ordens. O inconsciente não repete indefinidamente uma peça de teatro porque na verdade é uma usina atômica. Ele explode e podemos ouvir o estrondo nos atravessar e ecoar pelo espaço ao nosso redor. Esta produção desejante é completamente anedipiana, ela resiste ao Édipo (veja aqui).

Portanto, não é por metáfora que falamos de máquina: o homem compõe máquina desde que esse caráter seja comunicado por recorrência ao conjunto de que ele faz parte em condições bem determinadas. O conjunto homem-cavalo-arco forma uma máquina guerreira nômade nas condições da estepe. Os homens formam uma máquina de trabalho nas condições burocráticas dos grandes impérios. O soldado de infantaria grego compõe máquina com suas armas nas condições da falange. O dançarino compõe máquina com a pista nas condições perigosas do amor e da morte… Não foi de um emprego metafórico da palavra máquina que partimos, mas de uma hipótese (confusa) sobre a origem: a maneira como elementos quaisquer são determinados a compor máquinas por recorrência e comunicação; a existência de um ‘phylum maquínico'”

– Deleuze e Guattari, O Anti-Édipo, p. 508

A Máquina Desejante é constantemente atravessada por energia. Isso torna a máquina é desejante e o desejo é maquinado. Um não funciona sem o outro. A segunda energia que nos atravessa, depois da libido conectiva, é o registro: as máquinas se espalham, se distribuem numa determinada configuração. As máquinas podem funcionar de diversas maneiras, ligando-se ora desta maneira, ora de outra. É a síntese disjuntiva, muito importante para Deleuze e Guattari, que se faz com a conjunção: “ou…ou…ou…”. Nela, novos caminhos se abrem para as máquinas, quebrando sua série linear.

Ninguém nos pergunta “quais são suas máquinas desejantes?”, ninguém quer saber como você está organizado, querem logo te encaixar em algum lugar. Nossas máquinas desejantes são organizadas pela máquina social. O padre diz que você é filho de Deus, o psicanalista te convida a se deitar no divã, todos querem te acoplar sem dó nem piedade na máquina social. A fantástica usina fica então reduzida a um funcionamento inofensivo, edípico: papai-mamãe-filhinho. Toda produção desejante é esmagada pelo ‘segredinho sujo’ da psicanálise e de suas interpretações.

O desejo não quer ser interpretado, ele quer criar, quer expandir-se. As máquinas se ligam e se desligam através das sínteses conectivas e disjuntivas, mas o processo se consome na última síntese: conjuntiva. É apenas no fim que o sujeito aparece, uma subjetividade, algo com tom de conclusão: “Então é isso…”. É aqui que o desejo quer abrir-se para novas conexões, ou perde-se definitivamente em si mesmo, abrindo um buraco, fechando-se na caverna para consumir imagens.

Nós somos máquinas desejantes movidas por um inconsciente produtivo, façamos jus à definição! Enquanto formos organizados por máquinas sociais, nossa produção se perderá indefinidamente ou estará diretamente ligada a meios externos que não nos convém. Máquinas gregárias ao invés de máquinas nômades. A primeira tarefa positiva da esquizoanálise: descobrir suas próprias máquinas desejantes. Não interpretar, mas experimentar! Esta é a condição essencial para as produções se transformarem em intensidades. Produção a serviço da improdução (ver Corpo sem Órgãos). Só assim é possível passar de máquinas entorpecidas para máquinas revolucionárias.

Se não se montar uma máquina revolucionária capaz de se fazer cargo do desejo e dos fenômenos de desejo, o desejo continuará sendo manipulado pelas forças de opressão e repressão, ameaçando, mesmo por dentro, as máquinas revolucionárias”

– Deleuze, Conversações.

Texto da Série:

Esquizoanálise

Rafael Trindade

Autor Rafael Trindade

Quero fazer da vida o ofício de esculpir a mim mesmo, traçando um mapa de afetos possíveis.

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Viviane de Melo
Viviane de Melo
8 anos atrás

Oi Rafael! Sou estudante de Letras e estou fazendo um TCC sobre a Loucura em Dostoiévski e achei seu site fenomenal. Estou no meio da leitura do livro Anti-Édipo e suas colocações no site foram esclarecedoras e estão me auxiliando bastante. Obrigada!

Viviane de Melo
Viviane de Melo
Reply to  Rafael Trindade
8 anos atrás

Justamente…. Eu e minha parceira de TCC estamos “pirando” para fazer essa leitura do Anti-Édipo!!! Se você puder fazer essa resenha irá nos ajudar muito. Por enquanto estamos em Foulcault e Deleuze, além de Bakhtin. Assim que formos estruturando melhor o trabalho podemos conversar sobre! Obrigada Rafael

Viviane de Melo
Viviane de Melo
Reply to  Viviane de Melo
8 anos atrás

*Foucault

Viviane de Melo
Viviane de Melo
Reply to  Viviane de Melo
8 anos atrás

Também leremos os livros ”Lógica do Sentido” , “FOUCAULT” do Gilles Deleuze e “Microfísica do Poder” do Foucault (dentre outros), pois o primeiro capítulo do nosso TCC será sobre a loucura. Depois iremos identificar como a loucura é construída dentro da obra Os irmãos Karamazov.

Rafael Lauro
Reply to  Viviane de Melo
8 anos atrás

A resenha do Anti-Édipo vai sair em breve …

Gabriela Just de Toledo
Gabriela Just de Toledo
Reply to  Viviane de Melo
1 mês atrás

Eu quero muito ler seu TCC.

Tarcísio
8 anos atrás

Oi Pessoal. O pensamento de Deleuze&Guattari é esta máquina de guerra que movimente: criando paixões ou ressentimentos tamanhos… nunca se sabe como alguém de, fato, irá le-los.
Gostaria de ressaltar algo que me põe a pesar nesta filosofia e não em outra: a relação. A contribuição desses dois muito potencializa o pensar que impossibilita a distinção sujeito-objeto, socio-individuo, constituição de um no outro e outro e outro e…
Talvez mais que vítimas de um sistema qualquer, nós enquanto somos também responsáveis pelo que nos é mais externo.

Klasen Tânia
6 anos atrás

Republicou isso em Tentativa dois.

Michel
Michel
5 anos atrás

Ótimo seu artigo, Rafael! Também estou lendo “O Anti-Édipo” e o seu texto foi muito esclarecedor. Obrigado por postá-lo.

Ana Silva
Ana Silva
4 anos atrás

Excelente texto! Me deixou movediça!

Jacqueline
Jacqueline
2 anos atrás

Ótimo texto, mas fica faltando um Guattari ao lado de todo Deleuze.

Flávio Souza Costa
Flávio Souza Costa
2 anos atrás

Excelente! Mistura de Surrealismo e Filosofia. Dá pra ouvir as marteladas do NIETZSCHE a seis mil pés além do bem e do mal.

Abraço

Parabéns

Deivison
Deivison
2 anos atrás

Deleuze: Máquinas Desejantes ou Deleuze e Guattari: Máquinas Desejantes?

Diná Mendes
Diná Mendes
2 anos atrás

Rafael Trindade, estou trabalhando a construção da identidade das protagonistas bíblicas em minha tese. Proponho um “acender” dessas mulheres, buscando encontrar no texto como a identidade delas foi construida, forjada, a partir da visão de um narrador masculino, entranhado numa cultura patriarcal e como a identidade destas mulheres se sobressaem, a partir de seu enfrentamento de ações e situações que delineiam uma outra indentidade, não de sujeitos apagados e submisso, mas de verdadeiras protagonistas. Essa teoria de máquina desejante, máquina de guerra pode se encaixar aqui? Essas mulheres seriam anômalo ou máquinas de guerra que fissuram o estado partriarcal? Eu… Ler mais >