Quem afirma que a hora de dedicar-se à filosofia ainda não chegou, ou que ela já passou, é como se dissesse que ainda não chegou ou já passou a hora de ser feliz” – Epicuro, Carta sobre a felicidade (a Meneceu)

Bosch, detalhe do Jardim das Delícias
Bosch, detalhe do Jardim das Delícias

No século IV de nossa era, Epicuro afirmava que a filosofia provém do corpo. Muito antes de Nietzsche, portanto. Apenas um corpo sadio produz uma autêntica sabedoria. Para ele, a filosofia consiste em “cuidar das coisas que trazem a felicidade”. Esta felicidade, por sua vez, fundamenta-se na procura de um prazer supremo, isto é, de um regime de prazeres. Uma busca serena pela tranquilidade, pelo bom uso do corpo, pelo pleno usufruto da vida.

O epicurismo espalhou-se pelo mundo antigo, atravessou mares e difundiu-se em impérios. Tudo feito pelas mãos de seus discípulos, que o tinham por mestre e fundador de uma nova doutrina. Entretanto, pouco restou de sua obra. Três cartas de cunho próprio e os relatos de seus discípulos compõe a filosofia de Epicuro.

Muito em voga entre os materialistas, o atomismo de Demócrito fundava uma nova base para a ciência natural: tudo é átomos e vazio, causa e o efeito. O princípio, segundo estes naturalistas, regia todas as leis do universo e, portanto, todos os acontecimentos eram determinados por ele. Epicuro, apesar de materialista convicto, prontamente rejeita este determinismo, pois constrói sua filosofia com base na liberdade de buscar a felicidade, tomando como moral apenas o que provém das sensações. Diz ele a Meneceu: “mais vale aceitar o mito dos Deuses, do que ser escravo do destino dos naturalistas”.

Na construção de sua ética dos prazeres, o primeiro passo é pensar o divino. “Os Deuses de fato existem”, diz ele, “já a imagem que deles faz a maioria das pessoas, essa não existe”. Para o filósofo do jardim, os Deuses são entes imortais e bem-aventurados! Não os cabe nenhuma decisão que considere algo mais que a própria felicidade e imortalidade. Eles se debruçam apenas sobre suas próprias virtudes. Os deuses são para nós como mitos fecundos que produzem imagens às quais devemos nos fundar. “Deuses a tal ponto indolentes que se tornam santos para os ateus!” (Onfray, Contra-história da filosofia I).

Epicuro não é ateu, mas a ele só interessa o plano da imanência. Tanto faz se o panteão está cheio ou vazio, contanto que os assuntos humanos interessem apenas aos próprios homens! Os assuntos divinos interessam apenas aos deuses e os nossos sequer os atingem. Em suma, se existem deuses, eles não se ocupam de nós!

Na construção de sua filosofia, Epicuro percebeu que o risco vinha mais das implicações do que propriamente da existência de Deuses. Ou seja, sua principal questão não era se Zeus os abençoava ou não, mas as implicações de acreditar ou não em deuses. A opinião vulgar de que os interesses dos deuses estão necessariamente unidos aos dos homens apresenta terríveis consequências. A saber, a construção de além-mundos, uma moral transcendente, o determinismo, etc.. Descartada esta crença, não há temor, não há religião, não há o peso de ser vigiado, não há bem e nem mal. Epicuro torna tudo mais leve com sua filosofia!

Facilmente podemos imaginar estes deuses dançando. Desfrutando o puro prazer de existir. Desdenhando seus próprios limites. A concepção epicurista de deus é digna de, como disse Deleuze, um ateísmo tranquilo. Acima de tudo, o divino deixa de constituir um problema. Se torna, pois, um bom motivo para buscar soluções. Epicuro não mata deus, como fez Nietzsche (veja aqui), mas sua filosofia é tão bem elaborada que não há nem mesmo necessidade disso. Afinal, este é apenas seu primeiro passo em direção a uma vida de prazeres.

Texto da série: Tetrapharmakon

bosch-jardim
Bosch, detalhe do Jardim das Delícias

Escrito por Rafael Lauro

Sou formado pelos livros que li, pelas músicas que toquei, pelos filmes que vi, pelas obras que observei, pelos acontecimentos que presenciei e pelos relacionamentos que tive. Sou uma obra aberta.

9 comentários

  1. Parabéns pelo blog, camaradas!

    Lembro que Nietzsche elogia Epicuro, em “O Andarilho e sua Sombra” (#7), por uma “maravilhosa percepção, ainda hoje tão rara, de que não é absolutamente necessário resolver as questões teóricas derradeiras e extremas para tranquilizar o coração.” Em contraste com a super-valorização do teórico que encontramos em Sócrates, o epicurismo aparece mais como uma doutrina do savoir-vivre, uma “ética prática” vista como caminho para a beatitude e a ataraxia. Como Lucrécio irá celebrar tantas vezes em seu poema “Da Natureza”, clássico na história da filosofia epicurista, Epicuro queria livrar a humanidade do temor aos deuses e de todos os malefícios causados pelas superstições, e para isso, como lembra Nietzsche, “bastava-lhe dizer, àqueles angustiados pelo temor dos deuses: ‘Se existem deuses, eles não se ocupam de nós.’” Ou seja: Epicuro, ao invés de afirmar peremptoriamente que os deuses não existem, atitude que poderia ser considerada dogmática, apenas afirma que eles “não se ocupam de nós”, que são indiferentes aos destinos humanos, que não realizam intervenções nem milagres, que, enfim, “dão de ombros” ao que fizermos ou deixarmos de fazer. Na página “Filósofos Obscenos” do Facebook isto foi traduzido para o linguajar chulo (hehehe): “Os deuses estão cagando e andando pra gente.” Isto é descrito pelo Nietzsche neste aforismo do “Andarilho…” como uma espécie de paradigma do “humor do ateu puro”, aquele que diz: ‘Que me importam os deuses! Que o Diabo os carregue!”

    Eduardo Carli
    d’A Casa de Vidro & Depredando o Orelhão

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    1. Concordo plenamente. É impressionante a quantidade de possibilidades que este ateísmo tranquilo nos dá. Epicuro estava à frente de seu tempo, não é simplesmente uma preocupação à menos, é uma estética inteiramente nova que nos permite criar valores. Isso é muito importante.

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