Quem, se não tiver um ponto de vista religioso, poderá reclamar “direitos”? Não é “o direito” um conceito religioso, isto é, algo sagrado?” – Stirner, O Único e Sua Propriedade, p.143.

261112chargeMax Stirner não acreditava no homem; na verdade, ele não acreditava em nada além de si mesmo. Seu anarquismo individualista é baseado inteiramente no indivíduo e as relações que ele estabelece. Para uma psicologia humanista, isso pode parecer absurdo, para nós, parece muito interessante. Acusá-lo de egoísmo é uma crítica vazia, é como acusar a pedra de resistir a quem tenta quebrá-la, ou então denunciar o rio por seguir seu curso.

A religião humana é apenas a última transformação da religião cristã” – Stirner, O Único e Sua Propriedade, p. 227.

Há uma natureza humana em nós? Essa problematização já é complicada, o que há de humano em mim? Se sou humano, tudo que faço então entra para a categorização “ser humano”, ou talvez eu seja inumano em alguns momentos. A ideia de ser humano se afirma em mim, mas cabe a mim escolher quando e onde isso me convém. Uma ideia, seja Deus ou Homem, nunca deve estar acima de mim. Uma ideia, uma verdade é sempre uma ferramenta que devemos utilizar.

Aqui precisamente se encontra o problema: o “Homem” é um achatamento das minhas potências. Quem pede direitos humanos é o fraco, a vítima. No fim, terminamos sempre como pedintes, queremos direitos, um choramingar sem fim. Só pode garantir direitos quem tem poder para isso, mas se deixarmos esta tarefa aos outros, estaremos sempre pedindo direitos, sempre submissos. Dizemos, “o homem é maltratado, devemos proteger o homem“, ou então, “devemos investir nas condições ideais de existência“. Ora, já estamos cansados de ideais.

Não serei cabide para nenhum ideal! Ninguém há de pendurar em mim nenhuma forma, seja homem, seja bom, seja qualquer moral que não me pertence. “A fé moral é tão fanática quanto a fé religiosa” (Stirner, p. 62). Não devo nada a ninguém, e por isso afirmo: não sou humano! O fraco em nós pede direitos, pede paz; o forte cria seus direitos, conquista-os, seu direito é o que ele pode, não o que ele pede!

Eu não quero ter ou ser nada de especial diante dos outros, não quero reclamar nenhum privilégio, mas… também não me avalio pelos outros, e não quero em absoluto ter nenhum direito. Quero ser e ter tudo aquilo que posso ser e ter” – Stirner, p. 180.

Fujo aqui de todo universal: não me traga suas Leis, não me traga seus direitos e deveres. Esta é uma das razões do homem ser tão ignorante, ele não sabe se relacionar, ele sempre espera as diretrizes do que deve fazer. “O que um homem deve fazer?“. Tem sempre um manual de instrução que devemos seguir, na escola, nos relacionamentos, na vida. A impotência vem de um não saber relacionar-se, então investimos nas formas, somos educados, temos tradições, seguimos com o rebanho.

Como tudo se dá na relação, precisamos aprender a nos relacionar, para além da Lei e dos supostos direitos. Isso acontece de forma horizontal: como relacionar-se de forma que os dois se potencializem? Ah, que grande ética nasceria disso! Só assim “não evoluo como homem, não desenvolvo em mim o homem, mas desenvolvo-me a mim próprio enquanto eu” ( Stirner, p. 466). Grandes movimentos sociais podem nascer desse pensamento. Porque o déspota, o rei, o poderoso faz sua Lei, e cabe a nós obedecer ou não: se eu obedecer à Lei, tenho o direito de ser obediente; mas se criar minha Lei, sou dono de mim mesmo!

human-rights-violations-of-prisoners-and-arrested-persons-in-indiaUma vida potencializada não precisa de tutela, esta vem sempre de fora para assistir à vida enfraquecida. Me juntar a outros que não aceitem esse modo de vida é juntar forças para quebrar esta forma de vida à qual nos submetemos. A miséria social (anti-ecologia das relações) gera uma violação da vida, mas os direitos não estão garantidos metafisicamente, eles são a força de imposição que eu tenho. Há um descuido de nós, quanto mais enfraquecidos nos tornamos, mais investimos nas leis, nos ideais. Mas e se deixássemos os ideias e lutássemos aqui e agora por nós? Não sei se isso é humano ou não, mas se não posso aceitar isso e aquilo, e não vou aceitar!, não importa se é um direito ou não.

Não parto de nenhum pressuposto que não seja eu mesmo e aquilo que me rodeia. Não procuro desenvolver o “homem” em mim, mas apenas a mim mesmo. Para isso, procuro desfrutar de mim mesmo e dos outros. Egoísta? Quem execrou o egoísta senão aquele que acreditava na encarnação da forma “Homem”? “Não se ouvem aqui novamente os padres? Quem é seu Deus? O homem? E o que é divino? O humano!” (Stirner, p. 77). Agora nos exigem que sejamos “Humanos” e que passemos a agir como tais. Pois eu ajo como me convir! Minhas relações orientarão como devo agir, não uma ideia.

Não me agrada nem os direitos humanos tanto quanto a natureza humana. Se quero ir para além do homem (veja aqui), para além da identidade, então não posso pedir direitos humanos, preciso criar meus direitos. Pela luta, pela força, e pela minha capacidade de me associar a outros com os mesmos objetivos. Neste caso, tiro o homem e fico apenas com a natureza: ela se cria constantemente. A natureza não pede, se impõe! Parar de pedir e começar a fazer. Talvez o pior em nós seja o humano, não a natureza. Então, de agora em diante não vou mais pedir “direitos humanos”, vou submeter o humano à minha natureza.

Os retirantes, de Portinari
Os retirantes, de Portinari

Escrito por Rafael Trindade

Artesão de mim, habito a superfície da pele, atento para o que entra e sai.

6 comentários

  1. Como se tornarão fortes aqueles que nem sabem que são escravos? Ser consciente acerca de como se exerce o poder sobre o sujeito é essencial para que se lute contra esse poder. Se o indivíduo quer ir para além do homem, ele deve abandonar os que ainda o são à violência intelectual e física? Falo mais em tom de dúvida que negação… As manifestações recentes estão erradas em lutar contra as violências em forma de ação de tom revolucionário?

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    1. olha, Mefaust, este tem sido um grande dilema para mim. As manifestações de junho são ativas ou reativas? Claro que todo processo é muito mais complexo, mas será que deveríamos reclamar direitos ao estado? Não estamos ainda em uma posição passiva quando fazemos isso? Ainda sim, encontrar (ou criar) alternativas é algo que exige muita coragem e esforço!

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      1. A grande incógnita pra mim é se todo mundo é capaz de criar ou encontrar alternativas. Antes de todos seguirem cada um seus ideais, colocando a potência em detrimento do poder, não se faz necessária uma sociedade baseada na formação filosófica do indivíduo? Isto é, me parece que a priori é necessária uma revolução da essência da sociedade como não mais o capital, e sim a educação, para que consigamos ter uma postura corajosa ante nossos dilemas enquanto homens… Retomo, pois, a questão do meu primeiro comentário, é necessário que nos tornemos apáticos aos problemas das minorias pra que consigamos ir além do homem?

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  2. Não sei como, mas meu pensamento diversas vezes é congruente com o seu, tenho uns textos que escrevo quase que sobre isso… De como o “ser humano” sente essa necessidade de se “encaixar” e para tal segue os paramentos pré-estabelecidos pela sociedade… Quem disse que o mundo tem que ser binário, e que o homem precisa ser homem??!!! Eu adorei suas resenhas, genial!
    Parece mentira, mas tenho texto que fala sobre “rebanhos” e “manual de instrução”… minha concepção de vida pende, e é, bem anarquista também!
    Parabéns!

    Curtido por 1 pessoa

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