“Vosso espírito se envergonha de fazer a vontade de vossas entranhas e, para escapar à sua vergonha, toma caminhos furtivos e mentirosos” – Nietzsche, Assim Falou Zaratustra, p.116

livro-assim-falou-zaratustrafriedrich-w-nietzschecapa-dur_MLB-O-3094816380_092012Zaratustra deseja falar aos desprezadores do corpo, àqueles que estão cansados do real e preferem querer o além. Seu recado é direto: “eles não devem aprender a ensinar diferentemente, mas apenas dizer adeus ao seu próprio corpo e emudecer”. Não há porque salvar os que estão fatalmente condenados… mas porque estes pregadores da morte ainda não tiraram suas próprias vidas?

O corpo é uma multiplicidade de sentidos e forças, e são infinitas as possibilidades de sua alma. Mas quando a Vontade de Potência está constrangida, desestruturada por forças de fora, o homem fica doente de si mesmo. É aí que a mentira se introduz, quando o corpo está fraco. A forma humana, sofrendo do real, busca caminhos transcendentes para desviar seu olhar da dor que sente.

O que é esse homem? Um amontoado de doenças, que através do espírito se voltam para o mundo: lá querem fazer sua presa. O que é o homem? Um emaranhado de serpentes selvagens, que raramente têm sossego estando juntas – então saem, cada qual por si, em busca de presas pelo mundo” – Nietzsche, Assim Falou Zaratustra, p. 39

Mas a Vontade de Potência não se esgota, ela quer sempre ir além de si mesma. Por isso há sempre um plus de força, de querer: “O homem ainda preferirá querer o nada à nada querer” (Nietzsche, Genealogia da Moral). O que os desprezadores do corpo esquecem é que estão presos a ele, e é nisso que Zaratustra apoia-se para criticá-los: mesmo proclamando “o corpo é o túmulo da alma”, não podem se livrar daquilo que são.

Os desprezadores do corpo pregam a prevalência da alma sobre ele, mas Zaratustra diz: “Corpo sou eu inteiramente; e alma é apenas uma palavra para um algo no corpo”. O corpo é a “Grande Razão”, muito maior que a consciência. Aliás, ele faz a consciência, ela é apenas um brinquedo em suas mãos, uma ferramenta para seus desígnios. “Há mais razão em teu corpo do que em tua melhor sabedoria”.

Assim o corpo atravessa a história, vindo a ser e lutando. E o espírito – que é ele para o corpo? Arauto, companheiro e eco de suas vitórias” – Nietzsche, Assim Falou Zaratustra, p. 73

É nosso corpo, como Vontade de Potência quem comanda, ele está no topo da hierarquia, enquanto nossa consciência se ilude. A história da filosofia interpretou a consciência como mestra, mas ela é apenas a criança mimada que acredita comandar uma besta amansada. Na verdade, infelizmente é isso, e aqui se encontra a causa do problema! O corpo quer criar, quer se superar, que atingir novas disposições e capacidades, mas ainda está preso à forma homem! “Um corpo mais elevados deves criar, um primeiro movimento, uma roda que gire por si mesma, um criador deves tu criar” (p. 67).

Parar de ouvir a “voz da consciência” e voltar a ouvir a voz do corpo, ele é a “Grande Razão”, ele é o caminho que o homem deve seguir para superar a si mesmo e abrir novas veredas. Mas àqueles que ainda temem as forças “demoníacas” destes impulsos, Nietzsche tem um conselho:

Àquele que está possuído pelo Demônio eu cochicho estas palavras: ‘É melhor que faças teu Demônio crescer! Também para ti há um caminho para a grandeza'” – Nietzsche, Assim Falou Zaratustra, p. 85

> Assim falou Zaratustra <

Jean Dubuffet, Le Métafisyx, 1950
Jean Dubuffet, Le Métafisyx, 1950

Escrito por Rafael Trindade

Artesão de mim, habito a superfície da pele, atento para o que entra e sai.

3 comentários

Comente aqui!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s