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Queres buscar o caminho para ti mesmo? Detém-te um pouco mais e me escuta”

– Nietzsche, Assim Falou Zaratustra

Que caminho deve seguir aqueles que querem criar? Zaratustra nos dá o primeiro conselho para aquele que quer conquistar a liberdade: não pule degraus. O caminho do criador se faz etapa por etapa, num esforço contínuo. Não é feito largando tudo, mas aprendendo a extrair a força de sua dor e sua solidão.

Quanto mais quer alcançar as alturas e a claridade, tanto mais suas raízes se inclinam para a terra, para baixo, penetram na escuridão, na profundeza – no mal”

– Nietzsche, Assim Falou Zaratustra

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Capa da edição francesa

As pessoas estão ausentes de si mesmas, porque nunca se procuraram. Não admira, tudo lhes foi dado, e hoje acreditam na ficção do que são. Quantos presentes não nos ofereceram e que nos escravizaram? Quantas preces não repetimos, e que não são nossas? Vivemos no tempo em que lobos são capturados por ovelhas, pois as águas do ressentimento perfuram até o mais duro rochedo.

Mas nós já sabemos o caminho para a liberdade: a criação. O árduo caminho que o homem deve percorrer é o de criar a si mesmo, deixando para trás a carcaça daquilo que fizeram dele. Mas o rebanho ainda fala naquele que se isola para criar “é perigoso, você vai se perder”. O rebanho o acompanha em seus pensamentos.

As vozes da gregariedade atormentam aquele que quer voar, o seguram, o puxam, para que não suba mais. A culpa ainda ecoa na consciência daquele que se descolou da ovelhas, tão inocentes, seguindo seu pastor. Como o homem se transforma de ovelha em águia? Por sua própria Vontade de Potência! Quebrando o “tu deves” que o camelo carregava e se tornando leão (veja aqui).

Você é um estranho entre eles, um pária, lhe pagam com desprezo quando descobrem a inevitável partida. “‘Como poderíes ser justos comigo?’ – tens que dizer – ‘escolho vossa injustiça como a parte que me coube'”. Porque esta é a sina daqueles que criam para além de si mesmos. Enquanto a maioria se perde na rotina, na monotonia, no comum, o criador faz de si próprio um bloco de pedra, e esculpe a si mesmo com cinzel e martelo.

Ó solitário, tu percorres o caminho daquele que cria: queres criar para ti um deus, a partir dos teus sete demônios!”

– Nietzsche, Assim Falou Zaratustra

A dor é grande, mas só cresce aquele que perde a auto-piedade: “tens de querer queimar em tua própria chama: como te renovarias, se antes não o tornasses cinzas?“. É preciso querer ir para além de si mesmo, usar esta forma velha como combustível para queimar e levá-lo adiante. E fazer festa com as cinzas! Zaratustra ensina a desprezar aquilo que se amava, para amar a constante criação de si. Segue com teu amor e teu desprezo, segue o caminho da solidão, habite um deserto onde possa perecer e queimar, este é o destino daquele que quer criar para além de si mesmo.

Algumas almas jamais descobrimos, a não ser que antes as inventemos”

– Nietzsche, Assim Falou Zaratustra

Texto da Série:

Assim Falou Zaratustra

Rafael Trindade

Autor Rafael Trindade

Quero fazer da vida o ofício de esculpir a mim mesmo, traçando um mapa de afetos possíveis.

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Vinicius Lopes
Vinicius Lopes
8 anos atrás

Muito bom! Didático, poético e gostoso de ler como [quase] sempre. Me lembrou muito o filme “Man on Wire” – “O Equilibrista”..

Hesse, Hermann
8 anos atrás

Cada braçada rumo ao destino é uma braçada a mais para o retorno. Queres autocriar, então autodestrua-se. O que é chamado de vício, de podridão e causador de refugo por aqueles que estão a sua volta significa nada. Somente você pode libertar a si mesmo e tal caminho está na destruição do que fizeram de você até então!
Parabéns pelo texto.

João Augusto
João Augusto
6 anos atrás

Texto excelente, Rafael, aumentou ainda mais a minha vontade de ler Zarathustra. Começo-o amanhã 🙂