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– foto de Barbara Nitke

Este texto apoia-se indiretamente nos estudos de Foucault sobre a sexualidade e o poder; digo isso porque Foucault nunca estudou especificamente a pornografia. Mas através de seus textos podemos perceber como esta se tornou mais um mecanismo de adestramento dos corpos, recurso de formação subjetiva constante em nosso cotidiano, apesar das proibições e repressões.

Partimos da ideia de que o sexo não é algo natural, nem uma garantia de liberdade. Talvez, seja exatamente o contrário. Podemos perguntar, através de quais mecanismos nos tornamos escravos de nossa própria sexualidade? O que é sexo? É isso ou aquilo? O que é fazer sexo? Como posso sabê-lo?

Quais são os mecanismos positivos que, produzindo a sexualidade desta ou daquela forma, ocasionam efeitos de miséria?” (Foucault, Microfísica do Poder). A incitação ao discurso, a partir do séc. XIX, trocou o fundo das masmorras pelo estudo da alma do criminoso; o quarto escuro dos leprosários pelas salas brancas dos hospitais; o confessionário das igrejas pelo divã do psicanalista. Libertem-se, falem! Falem tudo! Postem no facebook! Digam seus segredos. Através do modelo panóptico nós nos individualizamos e damos informações cada vez mais precisas de quem somos e onde estamos.

Proliferação das sexualidades por extensão do poder; majoração do poder ao qual cada um dessas sexalidades regionais dá um campo de intervenção: essa conexão, sobretudo a partir do séc. XIX, é a garantia relançada pelos inumeráveis lucros econômicos que, por intermédio da medicina, da psiquiatria, da prostituição e da pornografia, vincularam-se ao mesmo tempo a essa concentração analítica do prazer e a essa majoração do poder que o controla” – Foucault, História da Sexualidade I

Mas o efeito também é contrário. O panóptico se inverte quando nos dá prescrições de como devemos ser e nos comportar. Já falamos disso no texto sobre o Big Brother Brasil (veja aqui), ou nos vários textos sobre publicidade (como este). Nossa formação contínua se dá através da interiorização dos discursos do poder. Somos atravessados pelo “dever ser”, constantemente avaliados e orientados com alguma responsabilidade ou objetivo. Os programas de TV nos fazem desejar as mulheres de bikini e as comédias românticas nos ensinam a fazer sexo com “trilha sonora” ao fundo.

O poder age individualmente. Mas se achamos que estamos escondidos no escuro do nosso quarto quando abrimos um site pornô, estamos plenamente enganados. A luz dos holofotes está em cima dos corpos que de forma performática realizam o ato sexual. A pornografia não diz como é, mas como deve ser, completo esquadrinhamento da sexualidade em tags, categorias, vídeos mais vistos e cortes de cena. Através dos vídeos, temos nossa cota semanal (ou diária) de “formação sexual”. Da mesma forma que aprendemos como nascem os bebês em uma conversa constrangedora com nossos pais, aprendemos como usar camisinha em uma aula de “educaçao sexual” na escola, aprendemos o que é uma mulher bonita na playboy e descobrimos como devemos dar e receber prazer através dos sites de pornografia.

A experimentação trocada pela imagem. O que me traz prazer? Como faço para agradar uma mulher ou obter prazer dela? Sexo colonizado. Encontramos na tela, durante as noites escuras e solitárias, aquilo que (não) somos. Como um espelho, sem vida em sua unidade, encontramos quem somos nos sites proibidos para menores. Mas encontrar-se é perder-se. Esta falsa caixa de pandora é na verdade mais uma prisão disfarçada de liberdade.

Resultado: não fazemos mais sexo com corpos, mas com imagens. A pornografia é a miséria sexual tornada produto de mercantilização. Dá com uma mão, mas tira com a outra; insere a sexualidade nos mecanismos de poder onde ele se engessa, comprime, restringe e morre. A esmola dada à heteronormatividade, ao casamento sem graça, à família nuclear burguesa são os sites pornográficos e livros como 50 tons de cinza. Falsa utopia, baseada em Sodoma e Gomorra, com um corpo também utópico: um pênis maior, ereção eterna, gemidos espalhafatosos, uma ejaculação volumosa. Lutamos por um corpo sem corpo, do modo mais paradoxal possivel negamos o corpo em nome do prazer corporal. Reduzimos tudo à tela e à retina.

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– foto de Barbara Nitke

Esta mídia tem o problema de qualquer mídia, ela dá muito facilmente aquilo que a gente quer, ele nos deixa mimados, preguiçosos. Não temos nem tempo de pensar “é isso que eu quero?”. Ficamos fixados, hipnotizados, vivemos a fantasia através dos olhos. Depois de um dia cansativo no escritório, só queremos relaxar: cervejinha no bar e uma Sasha Grey antes de dormir. Claro que toda mídia tem suas linha de fuga, possibilidades que escapam ao fechamento das subjetividades (é possível encontrar literalmente qualquer tipo de filme pornô!), mas clique nos mais vistos… você vê alguma diferença? Eu não… e isso me deixa desconfiado. É possível a formação de um inconsciente pornográfico? Onde as mulheres amam sexo anal e os homens estão sempre eretos? Precisamos pensar duas vezes e nos perguntar se essa libertação sexual tão confortável não é mais um novo papel definido do qual não conseguimos escapar. Por que miséria da pornografia? Pelo estado de extrema pobreza, pela penúria sexual de nossas vidas.

Então podemos concluir que a Razão Inadequada é contra pornografia? Ou que é purista e casta? De modo algum! Tomemos cuidados com as generalizações; estamos tratando das possibilidades que circunscrevem o mundo da pornografia, mas é claro que existem exceções. Sabemos que existem filmes bons, existem atrizes pornôs felizes, mas mesmo assim não conseguimos deixar de nos perguntar perguntar: será que o sexo ainda é uma forma de revolta? É contra establishment? O sexo ainda e capaz de causar polêmica? Ou talvez a polêmica já faça parte do próprio status quo?

“Meu corpo é o contrário de uma utopia, é o que nunca está sob outro céu, é o lugar absoluto, o pequeno fragmento de espaço com o qual, em sentido estrito, eu me corporizo” (Foucault, o corpo utópico, as heterotopias). Sentir o corpo, existir fora das imagens, mergulhar no real, reconhecer o que é seu e o que é empurrado garganta abaixo (literalmente ou não). “Se amamos tanto fazer sexo (ou chamem de amor) é porque esta é uma das melhores formas de presentificar o corpo, 100%, sentindo, tocando, trocando fluídos, ficando arrepiado: no amor, o corpo está aqui (Foucault, o corpo utópico, as heterotopias)

Através do nosso desejo, nascem novas formas de relação e subjetivação, para além das identidades e fechamentos sexuais (veja: Ditadura da Sexualidade). O devir criativo se torna maior que a identidade sexual. Liberdade para clicar em links pornôs é muito pouco. Estamos hoje sendo medicados com doses homeopáticas de sexo; temos que fazer o sexo quebrar a própria máquina sexual que o prende! Fazê-lo ir para além de si mesmo, reinventar-se e criar novas possibilidades de ser que suportem outros modos de vida. Por isso não basta apenas escolher entre a categoria de sexo anal ou oral, é uma questão de reinvenção da própria liberdade.

Um site de pornografia jamais conseguirá dar conta das múltiplas formas de sexualidade porque ele é um ponto de chegada, mas o sexo é um ponto de partida. Enquanto a produção de filmes pornográficos fecha a relação sexual dentro de quatro paredes (mesmo que seja em público), o sexo permite abrir o mundo para outras formas de organização, muito além do ato sexual em si.

Podemos prescindir da pornografia? Não sei. Seguimos entrando em sites pornôs da mesma maneira que colocamos nossos filhos na escola e mandamos os bandidos pra prisão; não porque queremos, mas talvez porque ainda não criamos alternativas melhores.

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– foto de Barbara Nitke

Escrito por Rafael Trindade

"Artesão de mim, habito a superfície da pele" Atendimento Psicológico São Paulo - SP Contato: (11) 99113-3664

5 comentários

  1. Estava acompanhando o vídeo-texto que a Nanada Companhia de Arte mandou sobre realidades virtuais, não virtuais……….. quando, sem querer, perdi o contato. Será que podem mandar novamente ou indicar o livro do autor que estava esclarecendo o processo, complexo mas interessantíssimo? Desde já agradeço imensamente. Ana Maria

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  2. Gostei da crítica. Bem distinta da crítica feminista da pornografia, que é redutora e quase sempre joga as mulheres novamente no lugar da submissão e da sujeição. Do mercado e da objetificação.

    Porque “A pornografia não diz como é, mas como deve ser”. É isso mesmo. e isso é padronizador. No lugar de invenções como os possíveis da sexualidade, nada mais chato do que ter que fazer tal coisa. De ter um jeito de começar e terminar, de ter um script.

    e outra coisa, que a pornografia, me parece, ser da mesma ordem o voyuer. Ver é excitante, mas agir é melhor ainda. A pornografia tem a mesma limitação do voyuer, alguém que se alimenta e imagina a partir do assistir o outro. tem algo de impotência aí, de medo, de limitação. não sei…

    É por isso que nunca pensei a pornografia como um lugar de linhas de fuga. Tampouco como absurdo. Porque justamente, é fazendo outros sexos, é se lançando a construção de novas formas de conjugar afetos e práticas sexuais, em ato, com outros. que podemos sair das únicas alternativas “subversivas” existentes para casais e sozinhos. que é tomar a pornografia como o único reduto transgressor que pode ser pego.

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  3. Esses textos pós-estruturalistas são tão óbvios que podemos usar suas estruturas e falar sobre um ou outro tema apenas mudando as palavras-chave. Então vamos lá: substituindo “sexo” por “política”, mas sem falar sobre Política, apenas retoricamente exemplificando:

    Liberdade para clicar em links sobre política é muito pouco. Estamos hoje sendo medicados com doses homeopáticas de política; temos que fazer a Política quebrar a própria máquina da politicagem que a prende! Fazê-la ir para além de si mesmo, reinventar-se e criar novas possibilidades de ser que suportem outros modos de vida. Por isso não basta apenas escolher entre as categorias “conjuntura nacional”, “internacional” ou “local”, é uma questão de reinvenção da própria análise política.

    Um site de política jamais conseguirá dar conta das múltiplas formas de exercício da cidadania porque ele é um ponto de chegada, mas a Política é um ponto de partida.

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