Afinal, o que é a loucura? Ora, mesmo depois de muito estudar, parece que ainda não sabemos! A linguagem psiquiátrica não nos deu a mínima chance de conhecê-la, pois não passa de um monólogo da razão sobre seu objeto de estudo. A loucura permanece sempre do outro lado da explicação, em silêncio, ou solicitada apenas a responder objetivamente às perguntas do médico.

O que vimos no livro História da Loucura é que seu nascimento coincide com a delimitação do que Foucault chamou de Círculo Antropológico. Mas o que isso significa? Simples, um círculo é traçado e no centro é colocado um modelo de  homem, com suas verdades, sua maneira de pensar, agir, viver. A partir deste modelo, tem-se o certo e o errado, o doente e o são, o normal e o patológico.

Mas ao estudarmos este homem cartesiano (“Penso logo existo”), não podemos esquecer que muita coisa é artificialmente deixada de fora, para além das fronteiras do círculo. Não é a loucura que guarda seus segredos a sete chaves, na profundidade, é o círculo que expulsa para fora todos os elementos que impedem de de encontrar o próprio ser do homem, o fundamento daquilo que somos. Define-se ainda segundo um modelo, mas não podemos nos esquecer, este modelo é histórico e geográfico: fala do nascimento da sociedade burguesa na Europa e nada além disso.

Em outras palavras, este modelo de ser humano é profundamente (ou deveríamos dizer superficialmente?) histórico, nasce com a ascensão da industrialização, do capitalismo e finalmente da burguesia. Um modelo sócio-econômico que define um modelo de homem para preenchê-lo. Primeiramente, ele exclui todos aqueles que não se encaixam (na Era Clássica) e depois desenvolve as ferramentas disciplinares mecessárias para realizar uma inclusão perversa (na Era Moderna). Aliás, é exatamente isto que Foucault começa a estudar posteriormente, pesquisas que resultaram no seu livro Vigiar e Punir.

Ou seja, o Círculo Antropológico, para Foucault, faz deste homem datado a medida de todas as coisas e o trata como se fosse uma ideia eterna. Desta maneira loucura é e continuará a ser sempre o Outro da razão, o seu avesso, a sua deformação. “Mas não se preocupem”, dizem os psiquiatras, “pois agora nós criamos as ferramentas perfeitas para curá-los”. Ou, em outras palabras, trazê-los para dentro, fazê-los pensar como nós pensamos.

Las Meninas – Diego Velázquez

Conclusão: a Libertação de Pinel e da psiquiatria é falsa! Porque é o próprio humanismo como um todo que é uma espécie de prisão. Esta foi a grande descoberta de Foucault ao estudar a loucura: elanão passa de um excesso ou uma falta em relação a este modelo. O Círculo Antropológico é o movimento narcisista do homem moderno de olhar para o próprio umbigo e dizer, “quero saber quem sou”, e a partir deste conhecimento colonizar o outro. É este movimento que culminará em Kant, Hegel.

A loucura é o corpo que se recusa a funcionar normalmente. Mas o que é normalmente? Na Era Clássica ela era citada para exemplificar a não-razão e sua verdade era jogada e misturada com outras que não se encaixavam; em seguida, ela passou a ser envolvida por um discurso exterior, e nela foi inserido um discurso positivo, mas ao emergir, ela já estava transformada, agora ela é doença.

A loucura existe como o inconveniente desta sociedade que criamos, o resto de uma fórmula social que não consegue aproveitar todos os seus recursos humanos. Ela é a consequência da recusa da multiplicidade; ela é a incapacidade de lidar com várias formas de viver e de pensar. A sociedade industrial, capitalista, unidimensional, exige que nos tornemos objetos, que devem ser formatados, enquadrados e disciplinados. 

O Círculo Antropológico não apenas traça uma verdade em forma de modelo, como também cria as ferramentas para talhar a alma deste ser humano segundo a imagem e semelhança deste falso ideal. O resultado não é óbvio? Ao se traçar um círculo, separa-se o dentro do fora, por consequência, alguns simplesmente não se encaixarão e serão deixados de lado, enquanto outros terão suas almas destroçadas no processo de inclusão.

O normal e o anormal caminham de mãos juntas, no perímetro do círculo, a relação é íntima e inseparável. Um como modelo e o outro como ameaça, um como inspiração, o outro, para gerar aversão. Com este pensamento, o psiquiatra não se aproxima da verdade científica, mas adquire ferramentas de controle social. Aliás, o psiquiatra não teria surgido sem o nascimento de uma sociedade disciplinar. O asilo psiquiátrico ao mesmo tempo libertou os desajustados das correntes desumanas que os prendiam, mas acorrentou-os ao modelo de homem e sua verdade.

Eis o nascimento da psicologia, da psiquiatria e até mesmo (quer queira, quer não) da psicanálise. Essa ideia de que possuímos em nós uma verdade (uma medida). O homo psychologicus é um descendente direto do homo mente captus. Eis a nossa sina, viver esta grande mentira na qual nos alienamos, este círculo que separa o que é normal do que é loucura.

Texto da Série:

Foucault – História da Loucura

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Rafael Trindade

Autor Rafael Trindade

Filósofo, Psicólogo Clínico e Supervisor

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