Com trinta anos Zaratustra deixou sua aldeia e foi para as montanhas. Lá ficou por dez anos, gozando de seu espírito e de sua solidão. Até que, enfim, cansou-se de sua própria sabedoria e, ao nascer do sol, levantou-se junto com ele e disse:

Ó, grande astro! Que seria de tua felicidade, se não tivesses aqueles que iluminas? […] Olha! Estou farto de minha sabedoria, como a abelha que juntou demasiado mel […] Quero doar e distribuir […] Por isso devo baixar às profundezas (p. 11)

Assim começou o declínio de Zaratustra. A descida de sua montanha foi retratada musicalmente pela obra de Richard Strauss (veja aqui, ou no fim do texto). Imagino Zaratustra percorrendo as trilhas quase apagadas, os caminhos fechados pelo tempo, os campos vazios, todos os cenários até chegar ao pé da montanha, onde há mais de dez anos não ia. A grandeza de seu espírito forte descendo em alta velocidade, pronto para voltar aos homens, levar-lhes tudo que aprendeu em sua solidão. Os tambores anunciam a descida deste homem, o grande desprezador, o ímpio, o sábio.

- ilustração de Maximilie Le Roy
– ilustração de Maximilie Le Roy

Chegando em um bosque Zaratustra avista um eremita que o tenta convencer a não voltar para o meio dos homens. “Trago aos homens uma dádiva” (p. 13), diz Zaratustra, mas o eremita diz que o homem é imperfeito e que o mais sensato a se fazer é ficar, assim como ele, na floresta compondo hinos a Deus.

Mas quando Zaratustra se achou só, assim falou para seu coração: ‘Como será possível? Este velho santo, na sua floresta, ainda não soube que Deus está morto!” (veja aqui) (p. 13)

Então Zaratustra chega à cidade, lá encontra um corda esticada e uma aglomeração de pessoas esperando pelo equilibrista que se apresentaria. Lá Zaratustra anuncia: “Vede! Eu vos ensino o super-homem! O homem é algo que deve ser superado. Que fizestes para superá-lo?” (p. 13). Mas o povo não está interessado em Zaratustra, “Não me compreendem! Não sou a boca para estes ouvidos” (p. 17). Então Zaratustra, sem medir as palavras que dizia, nem os ouvidos aos quais se dirigia, fala ao povo:

É tempo de o homem fixar sua meta. É tempo de o homem plantar o germe de sua mais alta esperança. Seu solo ainda é rico o bastante para isso. Mas um dia este solo era pobre e manso, e nenhuma árvore alto poderá nele crescer. Ai de nós! Aproxima-se o tempo em que o homem já não lança a flecha de seu anseio por cima do homem, e em que a corda do seu arco desaprendeu a vibrar” (p. 18)

Zaratustra dirige-se ao povo, mas eles não o compreendem:

Eu vos digo: é preciso ter ainda o caos dentro de si, para poder dar à luz uma estrela dançante. Eu vos digo, tendes ainda o caos dentro de vós./ Ai de nós! Aproxima-se o tempo em que o homem já não dará à luz nenhuma estrela. Ai de nós! Aproxima-se o tempo do homem mais desprezível, que já não sabe desprezar a si mesmo” (p. 18)

- edição tcheca
– edição tcheca

Zaratustra dirige-se aos últimos dos homens, ao homem mais próximo do niilismo: cansado, desiludido, pessimista e ressentido. Este homem agarra-se aos seus últimos ídolos: Deus, ideais, Cultura. Está cansado demais até para morrer e não aprendeu a desprezar a si mesmo, a recriar-se. O homem precisa querer ir para além de si, superar-se, mas o último dos homens não tem força para tal tarefa.

Nesse meio tempo, o equilibrista aparece e começa a andar na corda bamba. Mas um homem vestido tal como um palhaço vem por trás da corda e o faz cair. Todos lá embaixo saem correndo de pânico. O homem cai ao lado de Zaratustra, e ele promete enterrá-lo por ter feito do perigo seu ofício.

Após andar muito, Zaratustra pediu de comer e depois dorme. Ao acordar, eis que uma verdade lhe surge com os primeiros raios de sol:

Uma luz raiou para mim: de companheiros necessito, que me sigam porque querem seguir a si mesmos – e para onde quero ir. Uma luz raiou para mim: que Zaratustra não fale ao povo, mas para companheiros! Zaratustra não deve se tornar pastor e cão de um rebanho!/ Para atrair muitos para fora do rebanho – vim para isso. Povo e rebanho se enfurecerão comigo: Zaratustra quer ser chamado de ladrão pelos pastores” – Nietzsche, Assim Falou Zaratustra (p. 23)

Como a águia que lhe pertence, Zaratustra quer roubar ovelhas do rebanho. Ele não é padre, não é pastor, não é crente, não é sacerdote, nem pregador. Zaratustra não desceu de sua montanha para cuidar de rebanhos, seu ofício é outro. Como criador deve agir, companheiros de criação deve encontrar.

Quero juntar-me aos que criam, que colhem que festejam: eu lhes mostrarei o arco-íris e todos os degraus até o super-homem” – Nietzsche, Assim Falou Zaratustra (p. 24)

Aliados, não seguidores. Zaratustra foi ingênuo, deu pérolas aos porcos, não soube medir suas palavras nem seus ouvintes. Não foi prudente como sua cobra. Ouvidos certos agora ele vai procurar; sim, esta é a melhor forma de proceder. Assim começou o declínio de Zaratustra.

> texto da série Assim falou Zaratustra <

Escrito por Rafael Trindade

Artesão de mim, habito a superfície da pele.

3 comentários

  1. “Grande astro! Que seria da tua felicidade se te faltassem aqueles a quem iluminas? Faz dez anos que te abeiras da minha caverna, e, sem mim, sem a minha águia e a minha serpente, haver-te-ias cansado da tua luz e deste caminho
    Por isso devo descer às profundidades, como tu pela noite, astro exuberante de riqueza quando transpões o mar para levar a tua luz ao mundo inferior. Eu devo descer, como tu, segundo dizem os homens a quem me quero dirigir.
    Abençoa a taça que quer transbordar, para que dela manem as douradas águas, levando a todos os lábios o reflexo da tua alegria!
    Olha! Esta taça quer de novo esvaziar-se, e Zaratustra quer tornar a ser homem”.
    Assim principiou o caso de Zaratustra.”

    Não sou uma estudiosa em filosofia e muito menos de nietzsche, e por ventura eu decidi ler este livro. Há coisas que nem sei como explicar, pois parece que qualquer argumento deslegitima a profundidade nesse texto. Para mim, é uma passagem linda. É como se Zaratustra tivesse percebido a razão de existência do homem, porém sem alguma ideia divina sobre essa existência. Digo, é como se agora se concentrasse um “poder” aos homens, e a atenção a eles, e não mais no divino. E não porque Deus nunca tenha existido, mas porque diante do “amadurecimento” do homem não há um porque em delegar algo que se tornou domínio aos homens. Eu entendo que da maneira que foi escrita não é mais o homem que necessita da iluminação do astro, e sim a quem o astro agora ilumina, a quem o astro serve? Talvez tirando uma impressão de dependência, e agora o domínio do homem sobre essas questões.
    E quando Zaratustra encontra o velho no bosque, diz que “Ama os homens” e por essa razão ele quer voltar a civilização. E o velho argumenta que talvez tenha amado demasiado os homens, e por isso, preferiu se isolar, e amar a Deus. Porém, talvez o que o velho não perceba, é que Zaratustra está (talvez) querendo dizer, que nós homens somos “Deus”, nós homens somos a “iluminação”. E é por isso (talvez) que ele se pergunta “Será que o velho não ouviu pelo bosque que Deus já morreu?” E Deus morreu uma vez que ele descobre que a força está em nós e não mais nos cânticos, nas orações, ou seja lá o que. A fé está no homem e suas ações. A responsabilidade é do homem.
    E quando Zaratustra chega a cidade há uma divagação melhor ainda, supõe-se então que esse termo ‘homem’ seja superado pelo SUPER-HOMEM, assim como viemos do macacos e tivemos a formas mais primitivas possíveis, porque então não ser essa novo homem, esse super-homem, o qual supera senão todas as crenças e “primitividades”?

    Bem, ainda estou para terminar este livro, e já estou na loucura. Possivelmente possa estar fazendo suposições bem erradas. Como já disse, nunca li nietzsche, e não sou uma conhecedora do mundo filosófico. Mas gosto de livros que me causam inquietações….

    Eu gostei muito deste artigo, acho que complementa a minha leitura e interpretação.

    Obrigada

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  2. Gostei muito da tua análise. E realmente esse livro é como diz: Para todos e para ninguém, porque é muito profundo e de difícil entendimento. Mas adorei tua interpretação.

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