capa da edição holandesa
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Zaratustra também já foi um transmundano. Nós também já fomos transmundanos. Virar o rosto deste mundo, desviar o olhar do real, é isto que o sofrimento causa. A dor às vezes é tanta que mais vale acreditar em outros mundos, só assim temos argumentos para caluniar este.

O criador quis desviar o olhar de si mesmo – então criou o mundo” (p. 32). Quem? Deus? Sim, mas e o homem? “É um ébrio prazer, para o sofredor, desviar o olhar do seu sofrer e perder a si próprio” (p. 32). Todos dizem em alto e bom som: “o mundo é imperfeito!”, mas com que direito? Tomamos um mundo imaginário como referência! Utopias! Criamos um criador, apenas para nos ajoelhar e pedir proteção.

Superei a mim mesmo, ao sofredor; carreguei minhas próprias cinzas para os montes, uma chama mais viva inventei para mim. E eis que o fantasma fugiu de mim!” – Nietzsche, Assim Falou Zaratustra

Os transmundanos inventaram a felicidade do sofredor. Pesar e desgosto é o que experimentam. Uma fadiga extrema, criadora outros mundos, cujo querer anseia por um fim. Uma vontade que declina precisa se segurar em um ponto fixo que lhe dê alguma estabilidade, mesmo que falsa. O homem, como diz Nietzsche em Genealogia da Moral, ainda prefere querer o nada à nada querer:

Foram os doentes e moribundos que desprezaram o corpo e terra e inventaram as coisas celestiais e as gotas de sangue redentoras: mas também esses doces, sombrios venenos tiraram eles do corpo e da terra!” – Nietzsche, Assim Falou Zaratustra

Queriam escapar à sua miséria, e as estrelas eram distantes demais. Então suspiraram: 'Oh, se houvesse caminhos celestes, para nos esgueirarmos em outro ser e outra sorte!' - e inventaram suas artimanhas e sangrentas poções!" Nietzsche, Assim Falou Zaratustra

Queriam escapar à sua miséria, e as estrelas eram distantes demais. Então suspiraram: ‘Oh, se houvessem caminhos celestes, para nos esgueirarmos em outro ser e outra sorte!’ – e inventaram suas artimanhas e sangrentas poções!” – Nietzsche, Assim Falou Zaratustra

Mas o corpo indica saídas. Corpo e terra ensinam ao homem outros caminhos: “não mais enfiar a cabeça na areia das coisas celestiais, mas levá-la livremente, uma cabeça terrena, que cria sentido na terra!” (p. 33). O sentido da terra está contido nela mesma, não precisando de um criador para justificá-la.

Zaratustra traz ensinamentos que nada tem de parecidos com os ensinamentos dos transmundanos, mas ainda assim é tolerante para com eles. Não se irrita, nem os calunia, não há motivos para isso. São apenas homens que tem sua potência quebrada, desordenada, apontando para o nada. São homens doentes. Sim, definitivamente doentes. (veja: a psicologia cristã)

A bem da verdade, os transmundanos acreditam no corpo. Sim, , é verdade, acreditam no corpo mais do que em outros mundos. Mas acreditam apenas em um corpo doente, reflexo de sua própria fisiologia. Um corpo sujo, pecador, imperfeito, perecível, asqueroso, abjeto, desprezível. O corpo, para os transmundanos, é seu fardo e sua maldição e eles “bem que gostariam de sair de sua própria pele” (p. 34). Por isso pregam a morte e escutam padres.

Deixem que se vão… deixem que eles realizem suas pequenas vontades. E se querem perecer, que pereçam. Certamente a voz de Zaratustra não chega a seus ouvidos:

“De modo mais honesto e mais puro fala o corpo sadio […] ele fala do sentido da terra” – Nietzsche, Assim Falou Zaratustra

> Assim Falou Zaratustra <

Escrito por Rafael Trindade

Artesão de mim, habito a superfície da pele.

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