Lida de um astro distante, a escrita maiúscula de nossa existência terrestre levaria talvez à conclusão de que a terra é a estrela ascética por excelência, um canto de criaturas descontentes, arrogantes e repulsivas, que jamais se livram de um profundo desgosto de si, da terra, de toda a vida” – Nietzsche, Genealogia da Moral, terceira dissertação, §11

ArthurSchopenhauer01Os ideais ascéticos são o resultado do niilismo absoluto de nosso tempo. É aqui onde a crítica nietzschiana atinge seu ponto máximo, os valores ascéticos são a conclusão, o desfecho, o produto final do ressentimento e da má consciência. O acabamento é feito pelo sacerdote ascético, que já vimos em outros textos e trataremos também neste.

Os ideais ascéticos são aqueles que viram a vida contra ela mesma, aqui, a Vontade de Potência procura dominar a si mesma. Temos padres, pastores, muitos psicólogos e filósofos neste terreno movediço, Schopenhauer e Paulo de Tarso talvez sejam seus grandes representantes.

Uma vida ascética é uma contradição: aqui domina um ressentimento ímpar, aquele de um insaciado instinto e vontade de poder que deseja senhorear-se, não de algo da vida, mas da vida mesmo, de suas condições maiores, mais profundas e fundamentais; aqui se faz a tentativa de usar a força para estancar a fonte da força” – Nietzsche, Genealogia da Moral, terceira dissertação, §11

Se já vimos que o organismo humano está organizado hierarquicamente (veja aqui), e que o homem moderno é “misarquista”, então podemos concluir que os ideais ascéticos são expressão de uma fisiologia doente, desorganizada. Neste caso, o ressentimento e a má consciência são doenças em si, sendo o ideais ascéticos seus sintomas. “O olhar se volta, rancoroso e pérfido contra o florescimento fisiológico mesmo, em especial contra a sua expressão” (p. 99). O homem segue sua vida, sentindo-se culpado, envergonhado de si, excluído da existência, temendo o devir, desviando os olhos da realidade. Esconde-se nas paredes da sua casa, nas sombras de sua caverna escura, vivendo a vida por imagens (televisão, sonhos, interpretações, sinais da bíblia).

São Jerônimo Penitente - El Greco
São Jerônimo Penitente – El Greco

Tudo consiste em aproveitar-se do sentimento de culpa para tornar os doentes inofensivos. O sacerdote ascético administra seus remédios para que o homem moderno suporte sua dor. É preciso admitir, mesmo que a contragosto, o sacerdote ascético é realmente o grande salvador do homem, sem ele a espécie humana já teria há tempos caído no desespero profundo.

Mas o próprio homem espalha o ressentimento e a má consciência ao seu próximo: a simples visão do bem aventurado do saudável e do forte é para ele fonte de ódio. Assim diz o escravo: “Não, há sofrimento demais, dor demais, não podem haver pessoas felizes, contentes, satisfeitas“. O desejo do escravo é que todos sejam como ele, todos sejam iguais na fraqueza. Eles rondam entre os felizes espalhando suas censuras e advertências. Eles se misturam aos de boa constituição para dizer: “você não tem vergonha da sua falta de moral?“, eles espreitam os fortes, esperando para dar seu bote e inocular seu veneno.

Mas não poderia haver erro maior e mais fatal do que os felizes, os bem logrados, os poderosos de corpo e alma começarem a duvidar assim do seu direito à felicidade. Fora com esse ‘mundo do avesso’! Fora com esse debilitamento do sentimento! Que os doentes não tornem os sadios doentes […] o superior não deve rebaixar-se a instrumento do inferior” – Nietzsche, Genealogia da Moral, terceira dissertação, §14

Os dois grandes perigos de hoje? A compaixão e o nojo do homem. Não há problema em temer o homem, mas a compaixão e o nojo são o rebaixamento ao lodo da alma moderna, suja e contaminada. Elevar o homem, esta é a tarefa da Vontade de Potência, fazer do homem uma ponte para o além-do-homem. Trazer para um nível superior, não rebaixar-se em preces e choros.

Os doentios são o grande perigo do homem: não os maus, não os ‘animais de rapina’. Aqueles já de início desgraçados, vencidos, destroçados – são eles, são os mais fracos, os que mais corroem a vida entre os homens, os que mais perigosamente envenenam e questionam nossa confiança na vida, no homem, em nós” – Nietzsche, Genealogia da Moral, terceira dissertação, §14

Mas a morte de Deus não foi o bastante para acabar com os valores ascéticos. Na verdade, tal evento contribuiu para o niilismo se tornar apenas mais sutil: o homem da ciência ainda é niilista por excelência! A ciência é um dos produtos mais recentes da vontade de nada. Por quê? Ela ainda acredita na verdade, ela não põe em questão este valor metafísico supremo. “Esses estão longe de serem espíritos livres: eles ainda creem na verdade…” (p. 129). Se antes vivíamos uma ditadura teológica, hoje vivemos uma Ditadura da Verdade. Se hoje, a vontade de verdade proíbe a mentira de acreditar em Deus, ela ainda está deitada em valores metafísicos como o progresso, a verdade, a humanidade. (Veja aqui). Quem quer a verdade? Não são os padres, que buscam a verdade de Deus? Não são os cientistas, que querem as verdades imutáveis das Leis físicas? Em que medida os cientistas ainda são padres? Em que medida nós, espíritos livres, não podemos desejar a mentira?

Ambos, a ciência e o ideal ascético, acham-se no mesmo terreno – já o dei a entender -: na mesma superestimação da verdade (mais exatamente: na mesma crença no inestimabilidade, incriticabilidades da verdade), e com isso são necessariamente aliados – de modo que, a serem combatidos, só podemos combatê-los e questioná-los em conjunto. Uma avaliação do ideal ascético conduz inevitavelmente a uma avaliação da ciência: mantenham os olhos e os ouvidos abertos para esse fato” – Nietzsche, Genealogia da Moral, terceira dissertação, §25

Buda
Buda

Vê-se bem que os ideais ascéticos são o suporte da religião, da moral, da filosofia e da ciência. Eles são o diagnóstico preciso dos tempos modernos. Se desconsiderarmos o ideal ascético, a forma homem não teve até agora outro sentido. Algo falta, a existência não faz sentido, o homem não sabe seu lugar no mundo: devemos suicidar-nos? Não, o ideal ascético é este “algo que faltava”, ele traz o sentido. Ele é a “solução final” de nossos tempos. É a única forma encontrada para manter este ser de alma despedaçada em seu curso. A terra gira cada vez mais devagar, até quase parar, mas com os ideais ascéticos, este planeta ascético continua girando, mesmo que em estado de hibernação, inércia, letargia.

O ódio por si mesmo, o ódio pelo que há de animal em si, ódio da matéria, ódio pelos sentido; medo da felicidade, da beleza, da força, da potência; anseio de afastar-se de tudo que é aparência, mudança, morte, desejo: “eis o homem” (João 19:5). Por que ele não se deixa ir? Por que ele não se mata? Ah, por um simples motivo: a vontade mesma estava salva! Com os ideais ascéticos, a vontade do homem está resguardada, ele preserva o homem! Quer-se o nada, mas se preserva o querer. Vê-se agora que a negação da vida não é um combate contra a vida, mas contra a morte, é a última maneira de salvação, o último recurso. Sim, a vontade de nada, ainda é uma vontade!

E para repetir em conclusão o que afirmei no início: o homem preferirá ainda querer o nada a nada querer…” – Nietzsche, Genealogia da Moral, terceira dissertação, §28

Confissão - Giuseppe Crespi
Confissão – Giuseppe Crespi

Escrito por Rafael Trindade

Artesão de mim, habito a superfície da pele.

9 comentários

  1. O texto se perde na especulação das causas e consequências da vida ascética, mas não explica o significado da palavra, que é simplesmente a renúncia de qualquer tipo de prazer, conforto ou posses, em busca de uma purificação espiritual.

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    1. Fora, se isso n é negar a vida na tentativa de mascarar a possível Arbitrariedade da Morte.. n sei o que possa ser… eles explicam sim, mas n de forma tão definida como vc esperou…. Além do mais as coisas “sempre” estão entre as causas e consequências, “eu” sou a causa de todas as consequências que vou causando. Portanto, “sou” a distância entre os dois termos, como diria Camus em seu Absurdo.

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