O núcleo de toda subversão é precisamente a recusa do Sagrado. Como demônios revoltos, nos sacudimos fazendo voar a poeira dos velhos escritos, estilhaçamos os embaçados vitrais e atravessamos as soleiras empoeiradas dos velhos mausoléus.  Um querer respirar – e nada mais do que isso! –  é o que nos move.

Não subestimamos mais a capacidade que uma Verdade tem de fazer curvar. Antes de aceitá-la por sobre nossos ombros, exigimos: “Diga-me teu nome”, “Conte-me sobre ti”, “A quem obedeces?”. Questão por questão, vamos retirando os lastros, desapertando o cinto, afrouxando a gravada deste nobre mandamento, para que, ao final, ele mesmo não consiga mais dizer seu peso.

Sagrada é a Família, Sagrado é o Coração, Sagrada é a Revelação, Sagrado é o Sultão, Sagrada é a Escola, Sagrado é o Padrão, Sagrada é a Moeda, Sagrado é o Capitão, Sagrada é a Oração, Sagrado é o Ofício, Sagrada é a Mansão.  O Sagrado, eis o inimigo. A anterioridade do valor à valoração, eis o crime.

Jean-Pierre Rey, Paris maio 1968
Jean-Pierre Rey, Paris maio 1968

Escrito por Rafael Lauro

Sou formado pelos livros que li, pelas músicas que toquei, pelos filmes que vi, pelas obras que observei, pelos acontecimentos que presenciei e pelos relacionamentos que tive. Sou uma obra aberta.

3 comentários

  1. Rafael Lauro, gostei muito da forma do seu chamamento à dessacralização. Se me permite um acréscimo à lista de “coisas sagradas” que demandam este movimento: ….”Sagrado é o Partido”

    Abraço

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