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Texto escrito em conjunto no Grupo de Estudos,

Quando a política ditatorial produziu a máxima desigualdade econômica e social, a riqueza de uns insultando a miséria de outros; quando produziu a máxima despolitização que transforma a sociedade num agregado de indivíduos sem poder de decisão; quando afirma ser isto a ordem e o resto o caos, persuadindo os indivíduos da necessidade de buscar uma autoridade protetora que os salve, estão abertas as comportas para a fascistização da sociedade. Chegamos ao Brasil!”

– Marilena Chauí, Sobre a Violência, p. 108

Quando Chaui fala de uma sociedade que esconde seu autoritarismo e sua violência atrás de uma bandeira verde e amarela, podem ter certeza que não o faz para desfilar falsa erudição, mas para nos alertar para os perigos. A exacerbada desigualdade econômica lança o povo em busca de amparo que, combinada com a inexistência de uma cultura política, levam diretamente à ascensão de líderes messiânicos.

Só é possível crer em um Salvador da Pátria por absoluta carência e desinformação. Sempre aparece alguém novo para encarnar o mito da salvação verde e amarela. No nosso caso, há inúmeros exemplos: Dom Pedro I dizendo ao povo que fica; a República da Espada, nos livrando do jugo de Portugal; Getúlio Vargas, o “pai dos pobres”; o Governo Militar de 64 afastando o fantasma do comunismo; o “Caçador de Marajás”, Fernando Collor; e agora, mais recentemente, como se a ironia tivesse apreço pela gramática, Jair Messias Bolsonaro.

4 tipos de Relação Autoritária

Esses partidos arrebanham a classe média regional e nacional em torno do imaginário autoritário, isto é, da ordem […], e do imaginário providencialista, isto é, o progresso. Mantêm com os eleitores quatro tipos principais de relações: a de cooptação, a de favor e clientela, a de tutela e a de promessa salvacionista ou messiânica”

– Chauí, Manifestações Ideológicas do Autoritarismo Brasileiro

Ordem e Progresso são os axiomas sociológicos da nossa nação. Eles estabelecem um imaginário autoritário em torno de si, fazendo com que as relações entre os políticos e eleitores sempre sob seus signos. Tais relações podem ser definidas como:

  • Cooptação: aglutinando os diversos interesses e ideologias pela compra, pelo suborno e até pela ameaça;
  • Clientela:  estabelecendo um conjunto de pessoas que recebem favores em troca de apoio (político/financeiro);
  • Tutela: oferecendo proteção em troca de apoio, mas também obrigando a obedecer e se submeter;
  • Promessa Salvacionista: seduzindo por discursos e promessas de salvação, milagres mentirosos e impossíveis de se cumprir, mas que iludem o povo, falseiam a realidade e inflam as esperanças.

Quando sufocado dentro de um desses esquemas, o voto, que é o fundamento de qualquer governo representativo, acaba por se tornar efeito não de uma escolha refletida, mas de uma aposta cega. O que acaba por se promover a cada quatro anos não é o debate público, mas a negociação dos termos de submissão.

Salvação Milenarista

Sr. Garcia Sociedade Messiânica

Sr. Garcia

A política brasileira escorre pelas ruelas de uma doutrina escatológica cristã: o milenarismo. Baseado na Bíblia, esse princípio anuncia o regresso de Jesus Cristo a fim de estabelecer o reino de mil anos, onde não haverá violência, guerra e pobreza, mas apenas paz e amor fraternal. Se atravessarmos a história brasileira, não será tão difícil de enxergar que tal doutrina tem caminhado junto com nossas parcas tentativas de fazer política.

É de crenças tão antigas quanto esta que o salvacionismo pode se tornar ideia política. Não é do nada que alguém surge para tutelar todos os desamparados em direção de um lugar melhor, precisávamos antes de uma base teocrática, crente no retorno do messias. Só dessa forma que se leva a sério alguém que surge prometendo a salvação do bem e a eliminação do mal.

A figura de um Presidente da República com fama de salvador da pátria, que proclama-se o próprio messias é a solução mágica e ingênua para contradições e problemas cuja real solução seria demasiado custosa e complexa. Quando não há caminho no nível da realidade, a aposta passa a ser pela via da crença.

O corpo do presidente da República é deificado, e essa divinização de sua pessoa garante-lhe o papel messiânico que deu a si mesmo”

– Chauí, Manifestações Ideológicas do Autoritarismo Brasileiro

O milenarismo messiânico é consequência direta de uma impossibilidade de resolução ativa, ele é a alternativa ilusória, teológica, em forma de promessa de salvação. Os pedidos não são feitos porque se escolhe uma via religiosa, mas se escolhe uma via religiosa porque pensa-se que, no presente, não há outra alternativa possível. Aliás, vende-se isso como propaganda política, como única alternativa contra o mal. O mito fundador é incorporado em um vetor de ignorância que empodera aquele que consegue canalizar o desejo de totalização.

É, pois, como desejo de totalização e busca da totalidade, como visão cósmica e de redenção, que o sentimento milenarista se manifesta”

– Marilena Chauí, Manifestações Ideológicas do Autoritarismo Brasileiro, p. 279

Acabam sobrando poucas opções: ou o retorno a um paraíso perdido, que pode muito bem ser identificado com o período do Regime militar (de suposta paz e “milagre econômico”); ou uma perspectiva progressista desenvolvimentista, com a esperança de tornar o país uma grande potência econômica. Ambas elas fundamentadas na visão de um retorno ao eixo perdido pelas mãos de um grande homem.

O mito fundador opera de modo socialmente diferenciado: do lado dos dominantes: ele opera na produção da visão de seu direito natural ao poder e na legitimação desse pretenso direito natural por meio do ufanismo nacionalista, da ideologia desenvolvimentista e da ideologia providencialista e do governo pela graça de Deus; do lado dos dominados, ele se realiza pela via milenarista com a visão do governante como salvador, e a sacralização-satanização da política”

– Chauí, Manifestações Ideológicas do Autoritarismo Brasileiro, p.223

Democracia Impossível

O problema é que esta forma de governo autoritário e messiânico se sustenta sobre três forças, que, por sua própria natureza, são incapazes de tornar a democracia possível:

  • Autoridade econômica: representada pela bancada do Boi. A economia procura se descolar da sociedade, é o poder que impõe o progresso a qualquer custo, mesmo que seja retirando direitos trabalhistas (“ou trabalho ou direitos”) ou aumentando a desigualdade econômica (“crescer o bolo para depois dividi-lo”);
  • Autoridade militar: representada pela bancada da Bala. O exército se coloca acima dos poderes políticos, o poder militar se faz pelo uso da força em nome da proteção, da repressão em nome da paz, e da criação de um inimigo interno que precisa ser eliminado a qualquer custo para o bem geral da nação;
  • Autoridade religiosa: representada pela bancada da Bíblia. A Igreja se coloca como juiz moral último. A autoridade religiosa transcendente dá ares messiânicos para a figura do novo presidente, trabalhando pelo resgate dos valores conservadores, para a purificação da sociedade e demonização de seus opositores.

Se em uma democracia forte os cidadãos possuem o direito de participar e decidir sobre os rumos da vida pública, isso definitivamente não acontece na sociedade messiânica. Aqui, os dominados se identificam com seu dominador e pedem que ele atue para salvá-los, criando assim o que La Boétie definiu como Servidão Voluntária.

Messianismo e Servidão Voluntária

“A Teologia não é apenas diferente da filosofia, mas a ela se opõe”

– Marilena Chauí, Sobre a Violência, p. 241

Na Sociedade Messiânica, não vivemos numa democracia, vivemos numa relação de Servidão Voluntária. Acabamos aceitando a circulação das armas para reduzir a violência (contradição em termos?), o desmatamento para o progresso do Agro (a despeito da eco catástrofe iminente), a cruz pairando no judiciário (ofendendo o estado laico). O messianismo invoca qualquer solução absurda, pois não tem força política que o possa confrontar.

O poder econômico-militar-teocrático se faz na figura dos poderosos que acreditam soberbamente terem recebido uma missão divina de purgação dos males e corrupções do país. Mas também acreditam falar em nome dos oprimidos, que juram salvar da dor e da violência às quais estão submetidos.

De um lado, ditadores, déspotas e tiranos de todo tipo, do outro, a população oprimida, humilhada, que não encontra outra saída que não a messiânica. O povo aposta na alienação de suas potências políticas pois prefere a idolatria ao desamparo: uma solução falsa parece ser ainda solução.

Isso, evidentemente, não significa que a população trabalhadora deseje a ditadura […] mas sim que não concebe um poder sem transcendência”

– Marilena Chauí, Conformismo e Resistência, p. 139

Conclusão

Em suma: vivemos em uma sociedade desmedidamente militarizada, excessivamente capitalista e profundamente teocrática. Exatamente o que Espinosa define com o conceito de Teológico-Político e como o oposto da democracia! A concentração de poder na figura de um só homem é diametralmente oposta a qualquer possibilidade de democracia.

Mas, onde foi que erramos? O que não vimos para que a sociedade tenha sido levada com tanta facilidade por promessas milenaristas e cultos messiânicos? Antes fosse simples responder essa pergunta, simplesmente não é. Entretanto, essa complexidade mesma da nossa história inviabiliza a alternativa que se apresenta como resolução dos problemas.

Como disse Espinosa tão acertadamente: iludidos, lutamos por nossa liberdade sem percebemos que aumentamos nossa servidão. Criamos, através de uma Sociedade Messiânica, uma Sociedade de Privilégios! Quando promessas de salvação se misturam com a política, tudo que encontramos é mais opressão, mais desigualdade, mais injustiça e menos democracia.

Texto da Série:

Monopolítica

Sociedade Brasileira

Razao Inadequada

Autor Razao Inadequada

Texto produzido em conjunto com o Grupo de Estudos, um espaço colaborativo de leitura e escrita. Os encontros acontecem semanalmente pela internet às quartas-feiras à noite. Os temas abordados são escolhidos em conjunto com os participantes. Quer fazer parte? Seja um assinante, colabore com o nosso site e receba benefícios.

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Deivid
Deivid
2 anos atrás

“Infelizmente muitos acreditam piamente em um salvador e em uma democracia, atribuindo toda a imaginação em futuro confuso; se o futuro presidente foi eleito, acredito que as proposta sejam mais compatíveis com a esperança impotente da maioria, nesse grosso modo não consigo ver uma democracia absoluta, e não acredito na existência da democracia, por exemplo: (“se por ventura a Direita vencer as eleições, todos da Esquerda vão se submeter aos programas da direita, mesmo que descorde, nessa perspectiva subjetiva exclui a democracia, se inverter a questão acontece o mesmo, se por ventura a Esquerda ganhar as eleições todos da Direita… Ler mais >

Eder
Eder
1 ano atrás

Faltou citar no texto apenas um Messias, e, talvez o mais evidente no inconsciente coletivo: Lula.

Rafael Lauro
Reply to  Eder
1 ano atrás

Não citamos nenhum nome em específico, justamente porque se aplica a várias situações.

Marcus
Marcus
Reply to  Rafael Lauro
9 meses atrás

Jair Messias Bolsonaro é um nome específico. Fernando Collor, também… Faz dois dias que efetivei minha assinatura, acho a iniciativa sensacional, visto que a filosofia encontra-se tão apagada em nossa hipermodernidade e tal, mas (e lá vem o tão esperado mas), esse enviesamento ideológico não me parece combinar muito com a proposta da filosofia em si. Não citar o nome do Lula no texto só explicita a incapacidade de autocrítica da esquerda, o que é uma pena. Se não somos capazes de realizar esse feedback nem com o apoio da filosofia, que pode ser considerada como o estudo e aplicação… Ler mais >

Last edited 9 meses atrás by Marcus Vinícius Oliveira Rolim
marcosmconceicao
marcosmconceicao
1 ano atrás

Por que esqueceu de citar o Lula, também, como um salvador?