Os Cínicos fazem parte de uma escola socrática menor que surgiu após a morte de Sócrates, por volta de 399 a. C.. Dentre sua figura de maior representação está Diógenes de Sínope. A palavras “cínico” vem do grego, Kynos, que significa “cão”. Há inúmeras teorias que tentam explicar porque os Cínicos teriam ganhado este apelido, mas a mais provável e direta é porque eles simplesmente viviam e se comportavam como cães.

Certa vez, Alexandre foi até ele, postou-se à sua frente e disse-lhe: ‘sou o rei Alexandre, o Grande’. Ele replicou: ‘e eu sou Diógenes, o Cão’. Quando lhe perguntaram o que costumava fazer para o chamarem de cão, ele respondeu: ‘abano a cauda para os que me dão; ladro para os que me negam; e mordo os perversos'” – Diógenes de Laércio, A Vida dos Filósofos

Os Cínicos têm uma missão, eles se portam como cães de guarda, latindo e procurando mostrar àqueles que estão em volta a hipocrisia e insanidade na qual transformaram suas vidas. A postura cínica consiste em morder a perna do homem, mostrando a eles sua verdadeira natureza, ao invés de as deixarem afundar cada vez mais em sua depravação.

No kynikos, as animalidades são uma parte de sua autoestilização. Mas são também uma forma de argumentar” – Peter Sloterdijk – Crítica da Razão Cínica, p. 158

O devir cão não passa pelos poodles de madames, histéricos e mimados. Diógenes de Sínope, por exemplo, é um cão de caça. Ele está sempre atento, sempre à espreita: late para os ignorantes, mas respeita os sábios; rosna com ferocidade para os poderosos, mas chama a atenção amigavelmente mordendo a barra da calça de seus amigos. O Cínico é odiado por muitos e admirado por poucos porque ele, e apenas ele, suporta a vida que impôs a si mesmo.

O cínico é o homem do cajado, é o homem da mochila, é o homem do manto, é o homem das sandálias ou dos pés descalços, é o homem de barba hirsuta, é o homem sujo. É também o homem errante, é o homem que não tem nenhuma inserção, não tem casa nem família” – Foucault, Coragem da Verdade, p. 148

Para a filosofia dos Cínicos, a ordem: “animal – homem – Deus” é subvertida. É preciso trocar de lugar o homem com o animal. Por isso, para eles, a animalidade é uma evolução em relação à cultura. A cultura é o que afasta o homem da natureza, caminho reto e necessário para a felicidade. Por isso um representante do cinismo realiza suas necessidades naturais na frente de todos sem se envergonhar: come quando tem vontade, dorme onde encontra espaço, se masturba quando precisa. As necessidades naturais devem prevalecer sobre as convenções, costumes e normas. Diógenes assumiu o apelido de cão como se este fosse seu verdadeiro nome, porque a natureza é maior que a cultura e os costumes.

Para não ser inferior ao animal, é preciso ser capaz de assumir essa animalidade, como forma reduzida mas prescritiva de vida. A animalidade não é um dado, é um dever” – Foucault, Coragem da Verdade, p. 234

Alexandre e Diógenes, por Edwin Henry Landseer
Alexandre e Diógenes, por Edwin Henry Landseer

Para devir cão, os cínicos se serviam de quatro preceitos:

  1. Vida impúdica: um cachorro não tem vergonha de si, ora, sigamos o exemplo. Tudo que se fizer em particular, que também se faça em público! Não há razão para envergonhar-se da natureza, não há razão para não se mostrar como se é. A natureza é a única realidade, por que não afirmar o que se é? O Cínico se masturba em público, não mede suas palavras não importa com quem esteja falando (Parresía), não se preocupa em escandalizar as pessoas. Somente os cães e os cínicos ousariam agir assim: “O animal político rompe a política do pudor. Ele mostra que, de um modo geral, os homens têm vergonha das coisas erradas” (Peter Sloterdijk – Crítica da Razão Cínica);
  2. Vida indiferente: os Cínicos não se importavam com a maioria das coisas que os ateniense davam valor: riqueza, prestígio. Se fosse hoje, Diógenes zombaria daqueles com roupas de marca, desfilando com seus Iphones, preocupados com seus deuses (dinheiro, time de futebol, bandas de rock). Um cão não se preocupa com outra coisa além de um chão para dormir e um prato de comida para se alimentar, não se prende a nada e contenta-se com o que tem;
  3. Vida militante: devir cão é também encarregar-se de uma missão, é um entrar para uma guerra, estar sempre preparado para a luta. A batalha dos cínicos é travada diariamente onde quer que seja, no teatro, nas praças, na feira, na Ágora. Seu campo, seu front, seu ringue é todo lugar, por isto ele está sempre ativo, olhando ao redor, farejando;
  4. Vida zelosa: o cão é fiel e cuida do homem, o faz seguir pelo melhor caminho, mostra os perigos, reconhece seus aliados, protege a vida de seus amos.

Por isso o devir cão não cede a um dos maiores perigos que Zaratustra também enfrentou: o nojo do homem. Não, Diógenes permanece atento, à espreita, sempre no meio do povo, no meio dos gregos que o amam e desprezam ao mesmo tempo. O nojo do homem, este é um dos grandes perigos daqueles que criticam os valores vigentes. Mesmo assim, Diógenes é um cão que ladra, mas também é fiel.

Por que não comer onde quer que sentisse fome? Por que não urinar sempre que sua bexiga estivesse cheia? Por que não satisfazer sua volúpia sexual sempre que sua disposição física o exigisse? Por que bajular os desejos dos outros e se resignar às regras artificiais deles? Se insistiam em chamá-lo “Cão”, estavam corretos, já que ele era um cão e como tal se comportava” – Luis Navia, Diógenes, o Cínico, p. 80

Diógenes, por Jean Léon Gérôme
Diógenes, por Jean Léon Gérôme

Escrito por Rafael Trindade

"Artesão de mim, habito a superfície da pele" Atendimento Psicológico São Paulo - SP Contato: (11) 99113-3664

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