A esperança é uma alegria instável, surgida da ideia de uma coisa futura ou passada, de cuja realização temos alguma dúvida” – Espinosa, Ética III, definição dos afetos, 12

Nós nos deixamos limitar por dois afetos: medo e esperança. Não é estranho que uma sociedade produza basicamente estas duas emoções? No “livre mercado” da subjetividade, alegria e contentamento estão em falta, o medo é produto da cesta básica, e a esperança está sempre em promoção. Espinosa disse, e trata-se de uma afirmação muito importante, que não devemos olhar para os afetos com maus olhos, a ponto de querer suprimi-los pela razão; muito pelo contrário, os afetos são tão importantes quanto o pensamento, e devemos tratá-los como linhas e retas para entender melhor como se relacionam entre si. Não há uma oposição entre mente corpo, nem entre razão e emoção. Em cada situação, precisamos fazer uma análise dos afetos para entender melhor quais nos beneficiam e quais nos prejudicam. A política deve ser pensada a partir da condição natural do homem, ela deve ser pensada a partir emoções mais básicas, uma análise nunca será completa sem levar em consideração o circuito de afetos produzidos pelo social.

Sendo assim, é preciso logo de início aceitar um fato incontestável: somos seres finitos, somos apenas uma pequena parte da natureza, isso significa que não podemos deixar de ter esperança. Sofremos a ação contínua das coisas à nossa volta, e não podemos entender por completo, temos medo das coisas ruins que podem nos afetar e até mesmo nos destruir; resultado: um tempo marcado pela expectativa, angústia, espera. O medo está ligado à tristeza porque é a expectativa de que algo ruim possa acontecer, é a ideia de que algo ruim pode se tornar realidade. Consequência, fantasmas sussurram em nossos ouvidos que tudo vai melhorar, que amanhã será melhor, que quem espera sempre alcança. E nós, fracos, tristes, cansados, acreditamos. Sim, prometem-nos que na próxima eleição tudo será diferente, que a taxa de criminalidade vai diminuir, que quando aquela dívida terminar finalmente faremos aquela viagem. E esperamos, sonhamos, rezamos, pedimos… A esperança semeia suas promessas, mas a época da colheita nunca chega.

- Sebastião Salgado
– Sebastião Salgado

Os afetos da esperança e do medo não podem ser, por si mesmos, bons. – Espinosa, Ética IV, proposição 47

Não há medo sem esperança nem esperança sem medo. Eles se articulam, são simultâneos e intercambiáveis. Ou se teme enquanto espera ou se espera enquanto teme. Dois afetos ligados a uma mesma temporalidade. Ainda estamos marcados pela expectativa, projetamos a imagem de um futuro que pode ser melhor ou pior, e assim negamos o presente. Por isso, não se combate o medo com a esperança! Porque os dois afetos são tristes e impotentes. Um está no outro, um se alimenta e se apoia no outro: não há esperança sem medo e nem medo sem esperança! Os dois nascem da impotência de agir. Um afeto que nasce da impotência é um afeto paixão, do qual somos passivos, não temos controle. A esperança é tão natural quanto qualquer outra emoção, nasce das contingências do mundo. Porque somos finitos, apenas uma pequena parte da realidade, porque só podemos agir sobre uma parcela muito pequena de nossas vidas, porque estamos à deriva.

Do medo e da esperança nascem todas as superstições. Espinosa esforçou-se para conhecer de forma segura e desta maneira evitar toda sorte de ídolos, mas o pensamento transcendente é uma condição natural da impotência. O homem impotente é aquele incapaz de agir e de pensar, isso sempre na mesma proporção de um conatus reduzido, enfraquecido. Na impotência, na servidão, o homem se encontra como uma folha ao vento, oscilando entre os medos de que muitos males o aflijam e a esperança de que muitos bens se realizem. Na servidão, a razão não consegue entender como a vida funciona. Essa falta de entendimento, esse conhecimento parcial e reduzido da natureza leva o homem impotente a imaginar que um ser supremo e todo-poderoso exista acima de nós e controle segundo suas vontades e caprichos o nosso destino. A esperança é fruto da ignorância, quanto menor a potência do homem, menor sua capacidade de conhecer e de agir.

Este Deus, esta figura de poder pode ser amorosa ou raivosa dependendo das condições. O poder, baseado nesta forma de conceber o mundo, erige uma sociedade que gira em torno da autoridade, com um aparato militar e político que se sustenta no medo e na esperança. Nossos governantes são temidos ou adorados como deuses, como se tivessem controle de tudo à nossa volta, como se, num estalar de dedos, por sua livre vontade pudessem mudar o mundo. Toda forma de política inspirada na religião só pode derivar-se de afetos tristes. Nossa realidade acaba se compondo destes afetos.

- Sebastião Salgado, Ethiopia, 2008
– Sebastião Salgado, Ethiopia, 2008

O complemento da esperança é a melancolia, “não há mais atores políticos“, o desespero, “não há mais o que fazer“, o ódio, “morram todos“. Como combater estes afetos? Como superar a esperança? Antes de mais nada, entender que política é o campo do comum, não de figuras de poder com inspirações religiosas. Não devemos procurar por líderes ou salvadores com a esperança de que eles nos salvem ou nos gratifiquem por sua obediência; muito menos temer nossos governantes com a expectativa de que coisas ruins possam nos acontecer. Devemos nos livrar da expectativa! Não precisamos de promessas nem de utopias! Precisamos de uma postura que nos coloque face a face com a complexidade do presente, atitudes de implicação e ação política.

Se, desses afetos, excluímos a dúvida, a esperança torna-se segurança e o medo, desespero” – Espinosa, Ética III, proposição 18, esc 2

A razão é nossa principal arma contra a contingência, isso porque, através do pensamento podemos entender que não há contingência (é nossa impotência que nos impede de ver isso), desta forma nos tornamos mais capazes de agir. Um corpo capaz de pensar de várias maneiras é capaz simultaneamente de ser afetado e de agir de múltiplas formas. Vivendo sob a conduta da razão, podemos nos livrar da esperança e do medo, fazendo encontros que nos potencializem. A saída são as linhas de fuga que nascem dos encontros que se realizam para além dos afetos tristes. A liberdade que advém da dupla esperança/medo é muito diferente da liberdade da razão. A primeira é uma liberdade individual, violenta, repressiva, à mercê do descontrole dos afetos passivos; já a segunda é uma segurança que parte de nossa alegria, uma potência coletiva de autodeterminação, uma liberdade que cresce com o encontro dos homens uns com os outros.

A verdade é que, da sociedade comum dos homens advêm muito mais vantagens do que desvantagens […] por meio da ajuda mútua, os homens conseguem muito mais facilmente aquilo de que precisam, e que apenas pela união das suas forças podem evitar os perigos que os ameaçam por toda parte” – Espinosa, Ética IV, prop. 35, corol. 2

É no encontro do homem com o outro que nascem as novas possibilidades. É saindo da casca, do apartamento, do condomínio fechado, do isolamento físico e mental. Paramos de temer o outro quando, muito mais do que tolerá-lo, passamos a ser ferramenta de mudança. A ética dos encontros permite articulações novas e inesperadas, devires. A segurança real, potente, nasce dos bons encontros, não do isolamento. Nossos poros estão entupidos, nos ensinaram a passar no vestibular e fazer bons negócios, mas se esqueceram do mais básico: a vida é uma superfície de efetuação de encontros.

- Sebastião Salgado
– Sebastião Salgado

Medo e esperança são os principais afetos atuais, eles impedem que outros afetos apareçam, outros encontros se realizem. Uma sociedade diferente precisa necessariamente produzir afetos novos. E isso é ótimo, estamos cansados de esperar e temer, olhamos para nós mesmos e nos sentimos incapazes de mudar qualquer coisa! Mas é tempo de mudanças, não podemos parar o que se impõe, e não devemos mais fugir. Não saber para onde ir não pode mais ser motivo para se paralisar. Hoje, é preciso produzir o que não se sabe o que é!

Só sabemos falar dos encontros que tivemos e sabemos que há uma política menor, para além da lei, para além do medo da morte, da violência, da desconfiança; sim, mas também para além da esperança, da expectativa, das utopias! Precisamos superar a esperança, sem retornar ao medo, ultrapassá-la, deixá-la para trás, como um ídolo velho, com pés de barro. Haverão afetos que ainda nem conhecemos? O que há para além da alegria e do amor? Não sabemos, ainda estamos perdidos em um labirinto de afetos tristes. Espinosa nos mostrou algumas possibilidades, mas cabe a nós trilhar caminhos novos. Veredas que se cruzam, trilhas que levam para outros lugares, que podem até ser o mesmo lugar, mas preenchido com afetos ativos, potentes, alegres.

Texto da série: Afetos (bio)Políticos

- Sebastião Salgado, Thailand, 1987
– Sebastião Salgado, Thailand, 1987

Escrito por Rafael Trindade

Artesão de mim, habito a superfície da pele.

9 comentários

  1. Muito bom! Vou reler. Sim, temos que superar o medo e a esperança, sendo possível através do encontro, da união das forças. Parabéns pelo seu talento filosofico e da escrita. Abs.

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  2. Um pequeno texto de ( tu es isso ) Joseph Campbell ( que o texto acima me fez me lembrar ) sobre a expulsão do homem do jardin do eden.

    Dê uma olhada de volta ao portal do Jardim onde estão os dois querubins com a
    espada flame-jante entre si, e você estará fora, exilado do lugar onde tudo era unidade.
    Qual é o caminho de volta? A idéia parece ser de que Deus está nos mantendo fora do
    Jardim, proibindo o nosso reingresso. Na tradição budista, entretanto, o Buda diz: “Não tenha
    medo, faça a travessia”.
    Mas o que significa isso?
    Dos dois guardiões do tema budista, um tem sua boca aberta, o outro a boca fechada:
    são opostos. Um representa o medo, o outro representa o desejo.
    O medo é o medo da morte e o desejo é o desejo de ter mais deste mundo: medo e
    desejo é o que mantém você fora do Jardim. Não é Deus que nos mantém exilados, mas nós
    mesmos.
    Qual, então, é o caminho de volta ao Jardim? Temos que superar o medo e o desejo.

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