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A tristeza é a passagem do homem de uma perfeição maior para uma menor”

– Espinosa, Ética III, definição dos afetos

Impossível que a vida não seja preenchida, mesmo que seja de tristeza. A produzimos mais do que qualquer fábrica, indústria, linha de produção. Distribuímos tristeza mais do que qualquer porto, rodovia, ferrovia. Ela está na vitrine das lojas, vendemos este afeto a prazo e com desconto, e ela sai mais do que qualquer produto em qualquer prateleira de qualquer supermercado. Reciclamos tristeza mais do que qualquer cooperativa. Veiculamos tristeza mais do que qualquer notícia.

O produto principal de nosso PIB deveria ser a tristeza. Sim, ela em suas várias qualidade, marcas, versões, edições: ódio, aversão, medo, melancolia, esperança, ciúme, desespero, remorso, raiva, arrependimento, comiseração, autoabjeção, humildade, inveja, pudor. A tristeza vai de encontro ao homem que busca perseverar em sua existência, diminui seu conatus. Quanto maior a tristeza, mais o homem é afastado daquilo que pode, mais debilitado ele está, menos é capaz de agir. Claro que cada um se esforça, tanto quanto pode, por afastar a tristeza, mas todos, em maior ou menor grau, são afetados por ela.

As afecções à base de tristeza se encadeiam, portanto, umas nas outras e preenchem nosso poder de ser afetado. Elas o fazem, porém, de tal maneira que nossa potência de agir diminui cada vez mais e tende para seu mais baixo grau”

– Deleuze, Espinosa e o Problema da Expressão, p. 166

E aprendemos a conviver com a tristeza. Por quê? Ora, aprendemos que é assim, nos deram poucas dicas de como evitá-la, os caminhos são estreitos demais para a alegria. A tristeza tende a virar uma via de mão única, torna-se um modo de vida, é a existência reduzida apenas a um pequeno número de encontros, é o racionamento dos bons-encontros. Temos que economizar, porque tristeza temos de sobra, mas a alegria é escassa. Homens impotentes, vivendo de migalhas de potência, impedidos de pensar e de agir. A tristeza é a incapacidade de criar, de resistir, é um assistir a si mesmo enquanto a vida passa.

O medo é a tristeza instável de que algo ruim pode acontecer, o desespero é a tristeza acompanhada da certeza de uma mal exterior. O ódio é medo projetado. A vergonha é tristeza que imaginamos de estarmos sendo reprovados, humildade é a tristeza tornada virtude. A misericórdia é a tristeza pela tristeza alheia, inveja é o ódio da felicidade do outro. Existem felicidades tristes, a alegria que vem de ver quem se odeia triste, a alegria que nasce quando o invejoso é humilhado. E como vivemos neste estado!

Quando se trata deste afeto, temos uma lista de como ele se desenvolve, insiste em permanecer. Espinosa ficava horrorizado em ver como a tristeza se espalhava facilmente pela sociedade. Sinal claro de nossa impotência, sinal claro de que nos sentimos abandonados e sozinhos. Quando encontramos aliados é mais fácil lutar, um encoraja o outro. Sozinhos, queremos apenas nos esconder e nos preservar.

Nicholas Roerich, Sadness Two in Boat, 1939

Mas não podemos parar no sintoma, não podemos ficar apenas com o resultado, é preciso perguntar sempre, para si e para os outros: por que tanta tristeza? Podemos arriscar uma resposta direta e simples: o poder precisa de pessoas tristes para dominar. O ódio precisa de pessoas tristes para florescer. O medo precisa de pessoas tristes para se manter. A esperança precisa de pessoas tristes para prosperar. Inveja, ganância, humildade, nossa sociedade precisa destes afetos para se manter, e eles são todos derivados da tristeza.

Padres ferem para cuidar da ferida, chamam seus fiéis à igreja para arrependerem-se de seus pecados, acusam para vender a inocência, fazem guerra para professar a paz. E existem muitos padres; políticos, por exemplo, fazem programas eleitorais recheados de tristeza, afirmando que ele, se você eleitor permitir, é a pessoa que vai salvar o mundo da calamidade que se aproxima; rádio e televisão jogam o homem em um buraco e oferecem ajuda. Se você não é como os comerciais mostram, então você não é bom o bastante, é preciso ser como eles estão falando.

Tudo aquilo que é triste é nefasto e nos torna escravos; tudo aquilo que envolve a tristeza exprime um tirano” – Deleuze, Espinosa e o Problema da Expressão, 187

Um filósofo não escreve sem objetivos claros (por mais que às vezes escreva de maneira obscura), Espinosa quer tirar o homem da tristeza e levá-lo à felicidade, ou melhor, dar condições de que ele mesmo alcance a felicidade, sem que ninguém o pegue pela mão. Um conhecimento tão seguro que, quando encontrado, garantisse uma felicidade pura e constante. Então precisamos pensar de modo político para entender a tristeza. Precisamos sair de um psicologismo hermético e encontrar o mundo, esquecer que os afetos são (bio)políticos é a maneira mais fácil de cair no ressentimento.

Tristeza é passar para uma perfeição menor. Sempre, sim, sempre buscamos a felicidade, até mesmo aquele que se suicida (ou é suicidado, como diz Artaud). O homem busca, por sua essência, aumentar sua potência de existir. Ele imagina aquilo que pode levá-lo à felicidade e procura alcançar. Se tudo vai mal, ele ao menos imagina, fantasia, sonha. A vida resiste à morte, com todas as forças, com tudo que tem ao seu dispor. E nosso objetivo? Ser feliz, isso significa pensar mais, agir mais, realizar mais bons encontros!

Esforçamo-nos por fazer com que se realize tudo aquilo que imaginamos levar à alegria; esforçamo-nos, por outro lado, por afastar ou destruir tudo aquilo que a isso se opõe, ou seja, tudo aquilo que imaginamos levar à tristeza”

– Espinosa, Ética III, prop 28

tristezaO objetivo é encontrar uma nova relação com a exterioridade, sem vê-la como ameaçadora ou como supressão das carências, ou buscando um mestre, um pai, um salvador que acabe com nossos problemas. Afastar-se do que faz mal, ligar-se ao que faz bem. Fazer aliados! Não investir no poder! A força que vem da alegria é inversamente maior que a fraqueza que vem da tristeza, porque o corpo já tende, por sua própria constituição a aumentar sua potência. O corpo resiste à tristeza e se entrega à felicidade. Ou como diria Nietzsche, a tristeza passa, mas a alegria quer a eternidade.

A Ética de Espinosa é uma reflexão, uma interiorização e interpretação dos afetos que afasta as causas imaginárias e descobre o que em nós pode ser causa da felicidade. A tristeza nos impede de pensar, e consequentemente de agir, nos coloca em um canto, nos torna ressentidos. Nietzsche diz: não admira que não nos conhecemos, nunca nos procuramos; Espinosa insiste que devemos nos procurar, e para nos procurar devemos procurar bons encontros. Essa é a única maneira, diz Espinosa, de recuperar a saúde. Nos acostumamos a ser felizes por vias tortas e esquecemos que o caminho para deixar a tristeza é mais racional do que imaginávamos.

Quanto mais a cidade for conveniente à razão, menos paixões tristes ela produzirá nos cidadãos (medo ou mesmo esperança), apoiando-se, de preferência, nas afecções alegres”

– Deleuze, Espinosa e o Problema da Expressão, p. 184

Estas palavras, porém, não devem nos levar a um frenesi criativo, uma hiperatividade… não estamos fazendo uma ode à felicidade maníaca. A excitação pode ser ruim se localizada em um só ponto, prejudicando o resto do corpo. Estamos procurando um modo de vida Ético, que parta das coisas simples, experimente e encontre, ou melhor, crie seus próprios territórios, que aumentem a potência de existir e agir, consequentemente nos torne capazes de pensar melhor em nosso próprio ser e nossa relação com o mundo que nos cerca. Partir do simples e, aos poucos, tornar-se si mesmo, autopoiésis.

O caminho ético é muito mais eficaz que o moral. A tristeza apela para o poder, a alegria para a Potência. O corpo grita por uma alegria em ato, ouvimos suas palavras convocando para a luta, para o confronto direto ou a fuga ativa. O corpo lembra à alma que eles e a vida são uma só e mesma coisa, e que a posição passiva em relação ao mundo não fará as coisas melhorarem. A alma se rende ao corpo, torna-se sua parceira, os dois aprendem a andarem de mãos dadas, como aconselhou Espinosa.

Texto da Série:

Afetos (Bio)Políticos

Rafael Trindade

Autor Rafael Trindade

Quero fazer da vida o ofício de esculpir a mim mesmo, traçando um mapa de afetos possíveis.

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Gabriel Lourenço de Oliveira
Gabriel Lourenço de Oliveira
6 anos atrás

Excelente o texto! Contudo, ainda que seja possível compreender a paixão dentro de laços racionais e tentar ao máximo viver dentro desses limites, do aceito, do desejável, do eu e do outro, sabemos que há um pressuposto da razão, e, daí gera-se um novo problema que sendo alma ou não, transcende a pele. Obviamente, esta é a minha compreensão sobre o assunto. Ainda assim, adorei sua abordagem, a forma que aplica Espinosa, a sua autopoiésis.

Rafael
Rafael
6 anos atrás

“Não investir no poder” Acredito que no contexto da sociedade atual é impossível fugir de uma posição vinculada ao poder, isso torna nossas ações mais difíceis, será possível através de uma filosofia autêntica em Espinosa encontrar o caminho racional que nos ajude a lidar com o poder? Deixo minhas questões aqui.

Katia Souza
5 anos atrás

“A tristeza nos impede de pensar”

“Ser feliz, isso significa pensar mais, agir mais, realizar mais bons encontros!”

Que pensamento simplista. Nem todos são iguais, o ser humano é de uma multiplicidade incrível. Quando estou triste penso muito mais do que quando alegre. Superficial texto. Colocar o indivíduo numa caixa e rotulá-lo.

Fabio
Fabio
4 anos atrás

´´o poder precisa de pessoas tristes para dominar. O ódio precisa de pessoas tristes para florescer. O medo precisa de pessoas tristes para se manter. A esperança precisa de pessoas tristes para prosperar. Inveja, ganância, humildade, nossa sociedade precisa destes afetos para se manter, e eles são todos derivados da tristeza.“

Leandro Losano
4 anos atrás

Genial !!! Adorei esse texto!!! Simples, claro e objetivo. Parabéns!

Roberto Tomaz
Roberto Tomaz
2 anos atrás

Sensacional