Leitura por Maria Carolina Moracci,

Um devir-imperceptível é mais como o som de uma explosão estelar: silêncio puro” – D&G, Mil Platôs 4

O devir imperceptível é o último devir que podemos descrever, é onde ele se afasta para além do que podemos colocar em palavras. A Ética dos Devires encontra caminhos que só podem ser experienciados, não interpretados, nem descritos. Não podemos dizer o que existe para além do devir-imperceptível de cada um e nem é de nossa conta. Cada um traça suas próprias linhas. Não devemos imitar o devir dos outros, isso já é de certo modo falhar. Todo devir é um portal que precisamos atravessar.

Devir é o mar no qual se navega (multiplicidade), é a superfície plana que ameaça nos engolir. O devir-mulher é o porto do qual se parte. Recolher as cordas, içar as velas, deixar para trás a representação majoritária: homem-branco-heterossexual-etc…. As minorias estão sempre mais próximas de devir. Apenas para fins didáticos podemos dizer que depois do devir-mulher vem o devir-criança, onde se aprende a jogar, aprende-se as regras do jogo para melhor brincar. Faz-se conexões, mergulha-se no múltiplo e então entra-se em devir-animal! Neste momento, não somos mais identidades fixas, somos enxame, matilha, manada, vírus!

Se o devir-mulher é o primeiro quantum, ou segmento molecular, e depois os devires-animais que se encadeiam na sequência, em direção a que precipitam-se todos eles? Sem dúvida alguma, em direção a um devir-imperceptível. O imperceptível é o fim imanente do devir, sua fórmula cósmica” – D&G, Mil Platôs 4, p. 76

- Heitor Magno
– Heitor Magno

Ao deixar o porto e cruzar o horizonte, entra-se em devir-imperceptível. Ele se mistura com a paisagem, é perspicaz, não se deixa capturar. Está tão à vontade em seu espaço que não é percebido, forças múltiplas se encadeiam sem dissolvê-lo. Aumentar a potência é aumentar o número de dobras, aumentar a complexidade. E lá, encontramos o silêncio, o inaudível, o inefável, o sábio que se cala porque não há mais nada a ser dito. O sábio mantém-se distante e misturado ao mesmo tempo, ele está no centro e na borda, você pode vê-lo, mas ele não está lá. É como um passe de mágica, uma potência que se apresenta, mas não pode ser capturada.

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– Heitor Magno

Aprendemos assim a nos tornarmos mais sutis. Escapar do poder, não ser pego pelo radar. Volta o anômalo, aquele que se destaca, mas ao mesmo tempo não tem nome. Um avião que possui as mais estranhas formas para não ser pego quando entra em campo inimigo. O devir-imperceptível está sempre camuflado, ele gasta o mínimo de energia e gera o máximo de potência, sua fuga dos predadores é ativa. Seus grandes inimigos, aqueles que querem mastigar sua carne suculenta, não o veem passar.

Mas como deslizar por entre as moléculas sem ser percebido? É preciso tornar-se sutil, rápido, prestidigitador. “O malandro pra valer, não espalha” (Chico Buarque), ele não é visto na manchete dos jornais, “dizem as más línguas que ele até trabalha”. O devir-imperceptível não arromba a porta, ele já tem a senha ou passa pela fresta. Não ultrapassar um certo limiar de percepção, andar pelas sombras, este é seu objetivo. Criar, sempre, mas longe dos olhos ressentidos; expandir-se, mas evitando as armadilhas que o poder coloca. Não se pode fazer isso sem eliminar o antigos modelos molares. Agir silenciosamente pode ser o jeito mais vivo de habitar este mundo.

As palavras mais quietas são as que trazem a tempestade. Pensamentos que vêm com pés de pomba dirigem o mundo” –  Nietzsche, Assim Falou Zaratustra, “A hora mais quieta”

Esta é a diferença entre Fidel Castro e Che Guevara. Fidel fundou um estado, Che foi para o Congo, depois para a Bolívia, onde embrenhou-se nas florestas. O devir-revolucionário e o imperceptível unidos. O mesmo vale para o devir dos soldados vietnamitas que assustava os soldados americanos: eles sumiam por túneis rizomáticos sem deixar vestígios. Claro que é preciso lutar, claro que estamos ativos e envolvidos pelos acontecimentos, mas não nos deixamos qualificar pelo inimigo. Liberdade é ser quem se é, sem se deixar capturar, nem pelos outros nem por si mesmo.

Tornamo-nos usinas de modificações imperceptíveis e incapturáveis” – Luiz Fuganti, Saúde, Desejo e Pensamento

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– Heitor Magno

É preciso aprender a ser como tudo mundo. É diferente ser todo mundo, no sentido do senso comum, do homem comum, da vida comum; e devir-todo-mundo, no sentido de criar um mundo, povoar um deserto. No segundo caso, algo nasce, uma transparência, uma sociedade secreta. O devir-todo-mundo é uma ligação estreita com a realidade, a tal ponto de não ser notada, de ganhar mais velocidade do que os olhos podem acompanhar.

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– Heitor Magno

Todos os devires criam outras existências, que passam por baixo dos estratos molares. A Ética dos Devires é uma forma de tornar-se cada vez mais imperceptível, porque não está fundado no reconhecimento, não nasce nos olhos e consciências alheios, não busca a aprovação de desconhecidos, sua política é menor, sua atuação é por matilhas, seu jogo lembra o de uma criança.

Devir todo mundo, fazer do mundo um devir, é fazer mundo, é fazer um mundo, mundos, isto é, encontrar suas vizinhanças e suas zonas de indiscernibilidade” – D&G, Mil Platôs 4, p. 77

Texto da série: Ética dos Devires

- Heitor Magno
– Heitor Magno

Escrito por Rafael Trindade

"Artesão de mim, habito a superfície da pele" Atendimento Psicológico São Paulo - SP Contato: (11) 99113-3664

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