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Toda Ética de Espinosa, de definição em definição, proposição em proposição, escólio em escólio, chega até seu ponto máximo ao encontrar as virtudes do sábio, aquele que goza de liberdade e beatitude. Entendendo a essência de Deus, a relação entre mente e corpo, as definições dos afetos, o homem reúne todas as condições para sair da servidão e encontrar a liberdade.

Essa possibilidade repousa na confiança que o filósofo possui na razão, que filtra o conhecimento confuso e dá novas possibilidades de vida. Deus não mais existe para punir ou julgar suas criaturas, ele age de acordo com sua necessidade divina, sem confundir-se com nossas imagens de um Rei ou de um Tirano. Outra conclusão: Bem e Mal perdem sua conotação moral para adentrar em uma Ética (veja aqui). O Sábio conjuga potência, bem e útil num mesmo verbo. A potência de conduzir a si mesmo em direção àquilo que conclui como bem e útil é o que chamaremos a partir de então de Virtude.

Por virtude e potência compreendo a mesma coisa […] a virtude, enquanto referida ao homem, é sua própria essência ou natureza, à medida que ele tem o poder de realizar coisas que podem ser compreendidas exclusivamente por meio das leis de sua natureza”

– Espinosa, Ética IV, def 8

Virtude é sempre uma ação alegre (em oposição às paixões tristes) e, portanto, sempre guiada pela razão. Não que ela possa eliminar a contingência, isso nenhum ser finito pode, mas pode ao menos agir sobre ela. Por isso podemos entender a virtude como a potência que um ser tem de afirmar-se, de estar ligado ao que pode, mudando sua relação com o mundo, passando a existir também como causa adequada decorrente de sua potência de agir.

Virtude é conhecimento e autoconhecimento e, portanto, a possibilidade de autodeterminação. Não se está mais na ilusão de independência e autonomia. Espinosa mostra como o homem não é livre apesar do mundo, mas como parte interdependente. Por isso mesmo, a virtude pode agir sobre ele, porque o conhece e quer participar dele. Saímos da servidão e da ilusão de autonomia para entrarmos na liberdade e conhecimento das causas. Tornamo-nos codependentes, interdependentes, aspirantes à ajuda mútua entre os homens.

Nos esforçamos o máximo possível para ter bons encontros, que aumentem nossa potência e o mínimo de maus encontros, que a diminuem; está é, inclusive, a definição de Espinosa para o conceito de conatus. Desses bons encontros a razão se esforça para formar noções comuns, primeiro mais particulares e, depois, gerais. Tudo é uma questão de proporção: quanto em nós é passivo, à mercê dos encontros externos, e quanto de nós é ativo, capaz de organizar seus encontros e ter alegrias ativas? Das noções comuns, formamos uma alegria ativa e um amor ativo à Natureza, ou Deus. Esta é a definição de beatitude: a capacidade de perceber Deus em nós, em ato, em constante criação, e a alegria que advém desta constatação.

Quanto mais cada um busca o que lhe é útil, isto é, quanto mais se esforça por conservar o seu ser, e é capaz disso, tanto mais é dotado de virtude; e, inversamente, à medida que se descuida de conservar o seu ser, é impotente”

– Espinosa, Ética IV, prop. 20

Nathalie Maquet

O sábio, diferentemente do tolo, passa de uma potência menor para uma potência maior. Com isso, toda proporção de afetos passivos e ativos muda. O sábio pensa racionalmente e é preenchido quase exclusivamente por afetos alegres dos quais é causa adequada. Na virtude, o homem está mais próximo da liberdade, pois sua essência se exprime quase completamente na existência.

Espinosa busca uma maneira de existir virtuosa, que é ao mesmo tempo espontânea, porque segue sua própria essência, e normativa, porque define valores; é reflexiva, porque reconhece a força de seu pensamento como o mais potente dos afetos, mas também expressiva, imanente, em ato, porque age no mundo e com os outros. O aumento da potência de agir se torna o horizonte do indivíduo, seu grande objetivo e principal meio de comungar com Deus, fonte de alegria durável e constante. Estas alegrias ativas são o que Espinosa chama de intuição, é a própria alegria divina sentida por nós.

Agir absolutamente por virtude nada mais é, em nós, do que agir, viver, conservar seu ser (estas três coisas têm o mesmo significado), sob a condução da razão, e isso de acordo com o princípio de buscar o que é útil para si próprio”

– Espinosa, Ética IV, prop. 24

Como não alegrar-se ao aprender uma nova maneira de relacionar-se com o mundo? Uma habilidade nova, uma língua nova? Como não alegrar-se ao colocar em prática o que se pode, o que se aprendeu, o que se é capaz? Estar no mundo, agir sobre ele é aprender a estar nele com mais convicção e segurança! Espinosa preza por aqueles momentos em que simplesmente se está lá, e surge uma alegria sincera por isso, porque percebemos que estamos completamente preenchidos por aquele acontecimento, e que de alguma forma ele é eterno e nós também. O momento em que a eternidade sussurra em nosso ouvido: “é isso”. E nós, por estarmos em sintonia, conseguimos ouvir e agradecer e nos alegrar.

A beatitude não é o prêmio da virtude, mas a própria virtude; e não a desfrutamos porque refreamos os apetites lúbricos, mas, em vez disso, podemos refrear os apetites lúbricos porque a desfrutamos”

– Espinosa, Ética V, prop. 42

O sábio não teme a morte, só teme a morte aquele que, com ela, tem muito a perder. Sim, perder o conhecimento de primeiro e até mesmo de segundo gênero, porque é o mais confuso e ligado à impotência; mas, na virtude e na beatitude, o conhecimento de terceiro gênero é a própria natureza pensando em nós.

Uma pequena digressão: é engraçado perceber que para Espinosa, a salvação ainda é possível, mas ela é totalmente diferente do que prega a tradição cristã e outros monoteísmos. A mente não dura, uma vez que ela é ideia do corpo, logo ela perece assim que as relações do corpo se desfazem, mas o conhecimento adequado que nos preenche é eterno, é parte necessária da criação.

Espinosa conclui: a virtude une forças com o que nos torna mais potentes. A virtude permite ao corpo desejar o que lhe é próprio e aumenta sua potência. A razão é essa virtude de pensar. A beatitude é o resultado de pensamento e ação potentes que são causa de si e preenchem o corpo de modo a torná-lo sempre mais virtuoso. Neste estado, sentimos que é o próprio divino que fala em nós, nos tornamos partes ativas da criação. Assim, quando morremos, apenas uma parte mínima de nós perece, porque já éramos em grande parte eternos, preenchidos pela eternidade. As partes extensivas de nosso corpo deixam de nos constituir e entram em outras relações, mas nossa essência ao aproximar-se de Deus continua.

Como os corpos humanos são capazes de muitas coisas, não há dúvida de que podem ser de uma natureza tal que estejam referidos a mentes que tenham um grande conhecimento de si mesmas e de Deus, e cuja maior parte, ou seja, cuja parte principal, é eterna, e que, por isso, dificilmente temem a morte”

– Espinosa, Ética V, prop 39, esc

Texto da Série:

 

Ética

Rafael Trindade

Autor Rafael Trindade

Quero fazer da vida o ofício de esculpir a mim mesmo, traçando um mapa de afetos possíveis.

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Tchucky
Tchucky
5 anos atrás

Hey, obrigado pelos textos, podcasts e vídeos. Excelente trabalho.

Mas tenho uma dúvida. Existe uma ordem de leitura indicada para os textos da série: Ética.

Johnnie
Johnnie
2 anos atrás

Que trabalho primoroso!