Podemos falar de uma psicologia espinosista? Não é fácil responder esta pergunta. Espinosa, durante toda sua obra, esforçou-se para entender a natureza humana, sem idealizá-la, sem julgá-la. Ele se inclinou sobre a fragilidade humana, sobre suas forças e fraquezas e a compreendeu como parte muito pequena e vulnerável da existência. Nós sofremos, nos iludimos, ficamos doentes, nos irritamos, ficamos confusos, choramos, não encontramos saídas mesmo para nossos problemas mais simples; enfim, somos uma parte muito impotente da realidade. Mas uma psicologia, como disse Nietzsche, precisa se prevenir de dois sentimento: compaixão e nojo.

Por isso Espinosa jamais caiu na tentação de idealizar a natureza humana. Para não se decepcionar, utilizando o método geométrico, desenvolveu uma ciência dos afetos. Não estamos doentes, não somos maus por natureza, não somos imperfeitos, nem somos pecadores. Ao pensarmos em uma psicologia de inspiração espinosista, não cabe nem mesmo usar a palavra cura, porque não se trata de um corpo doente, apenas de um corpo afastado do que pode. Esta clínica buscará construir mapas afetivos, onde as possibilidade de afetar e ser afetado aumentem: clínica dos encontros, clínica das composições.

A doença não explica a essência de um corpo, tampouco a maldade. Os maus encontros não dão conta de explicar uma essência pois fornecem apenas um conhecimento inadequado da realidade. Para fundar uma psicologia juntamente com Espinosa, precisamos encontrar as brechas de um corpo, onde a potência pode se compor e realizar bons encontros. O filósofo sabe que somos esforço (conatus) constante para sermos felizes em ato, ele não subestima este importante fato. Outro cuidado que ele toma, a diferença sutil entre as alegrias tristes e as tristezas alegres.

Partimos do simples fato de que o homem pode conhecer seus afetos. Esta é a primeira grande contribuição de Espinosa: mente e corpo são um só (veja aqui). Parece pouco, mas é uma revolução, ao tornar mente e corpo atributos de uma mesma substância, abre-se o caminho para pensar sua relação em paralelo, não como concorrência. A tradição sempre se empenhou em mostrar como a mente humana deve dominar o corpo e se não o faz, coisas horríveis acontecem.

Desde Platão, passando pelo cristianismo, Descartes e outros, o corpo deve se render à mente, um deve ser mais forte que o outro. Com Espinosa, isso muda, quanto mais o corpo é capaz de afetar e ser afetado, quanto mais o corpo age, maior a força da mente para pensar. A mente é ideia do corpo, um não manda no outro, um é reflexo direto do outro, a mente é a capacidade de pensar de um corpo que é capaz de sentir. Sendo assim, quanto mais um corpo vive, exprime sua essência, é afetado por outros corpos que convêm com ele, mais a mente é capaz de compreender.

Pieter Bruegel - The Wedding Dance - detail
Pieter Bruegel – The Wedding Dance – detail

Voltando aos afetos, chegamos em um ponto extremamente importante, é impossível falar de uma psicologia espinosista sem mencioná-los porque eles são o que há de mais real em nós. Só podemos erigir uma psicologia se nos debruçarmos sobre os afetos, é preciso conhecê-los.

As afecções, as modificação pelas quais um corpo passa, preenchem nosso corpo, causando uma variação na nossa potência. Não se trata de uma comparação entre um corpo passado e um presente, mas sim uma compreensão da passagem, ficamos entre, no meio. O afeto é a passagem para uma perfeição maior ou menor, ele mostra do que um corpo é capaz.

EspinosalogoEsta é a segunda grande contribuição de Espinosa para a psicologia: se a mente é capaz de entender o que se passa em seu corpo, ela percebe estas variações e pode pensar sobre elas, pode compreendê-las (veja aqui). Quanto mais a mente estabelece conexões com o mundo ao seu redor, mais ela é capaz de formar ideias adequadas de como o mundo se relaciona com ela. O corpo se abre, como um mapa, para os campos afetivos dos quais pode ser afetado. Existem regiões que não queremos ir, terrenos íngremes, perigosos, selvagens, onde podemos nos perder. Já outros são pradarias agradáveis, ou campos inexplorados, que segredos eles guardam? A tristeza e a alegria medem nossos afetos, são o termômetro que nos ensina como nos apropriar da existência.

Uma liberdade começa a se esboçar. Já podemos dar um leve sorriso. Começamos a formar noções comuns, compreendemos parcialmente as relações necessárias da parte com o todo. Pensemos numa escalada que o corpo e a mente empreendem em direção à liberdade: precisamos de uma pedra segura para nos agarrar e subir, mesmo que tenhamos que nos esticar muito para alcançá-la. Esta é a dinâmica saudável das forças de nosso corpo, as noções comuns, o pensamento racional, o conhecimento são estes pontos de apoio na nossa escalada.

A tarefa da razão, que procura estabelecer estes bons encontros e evitar os maus encontros, é apenas uma: conhecer clara e distintamente os afetos, determinando o que há de bom e mau em cada um: a arte dos encontros e desencontros. A razão nos afasta da ignorância, da fortuna, do acaso, e nos leva para o conhecimento alegre, que nos liga ao que podemos.

Podemos pensar a psicologia espinosista com uma pergunta simples: quais encontros convêm e quais não convêm? Quais são úteis e quais nos afastam daquilo que é útil? Como fortalecer os primeiros e enfraquecer os últimos? Por isso a razão modera, dá medida, avalia, dá peso. Inspirados em Nietzsche poderíamos perguntar: qual o valor dos encontros?

Quanto mais composições um corpo é capaz de estabelecer com outros corpos, mais aumenta, paralelamente, sua capacidade de pensar e mais ele compreende o que convém e não convém com sua essência. Encontramos aqui as bases para uma clínica espinosista! Ora, se vivemos em servidão, ao acaso dos encontros, perdidos pelas vicissitudes da vida, levados pela fortuna, conduzidos pelas paixões; então conhecer os afetos nos permitirá sair da servidão e encontrar a liberdade. O trabalho de um psicólogo está traçado, cabe a ele perguntar: o que pode um corpo? De quais afetos ele é capaz? A potência de um corpo, o que convém com sua natureza é a sua definição de liberdade.

Última grande contribuição de Espinosa para a psicologia: por ser capaz de entender seus afetos, o homem é capaz de uma existência ética. Espinosa procura pequenos pontos de apoio, pequenos pontos minimamente fixos para dar um norte, para garantir um empuxo. Por que o homem luta por sua servidão imaginando lutar por sua liberdade? Pergunta clínica, resposta espinosista: porque não conhece de quais afetos é capaz, porque faz escolhas confusas, porque não se conhece, o conhecimento é o mais potente dos afetos!

Pieter Bruegel - The Wedding Dance - detail
Pieter Bruegel – The Wedding Dance – detail

A possibilidade de uma vida virtuosa, sábia, livre, que em Espinosa estão diretamente relacionados, envolve se juntar e se relacionar não pelo que enfraquece, mas pelo que fortalece, pelo que há em comum, naquilo que cada um é capaz. Precisamos criar uma rede de conexões intensivas. A razão, que agora está intimamente conectada com os afetos é o caminho de Espinosa para lidar com o acaso dos maus encontros que apenas nos despotencializam.

Atravessar o mar da fortuna com o barco da razão, mesmo que frágil, é a maneira mais certa de alcançarmos novas terras. Um novo lugar, com novos modos de nos relacionar, com possibilidades subjetivas nunca antes imaginadas. Eis o convite ético-clínico de Espinosa, criar novas relações, experimentar novas existências, reaprender o que convém e não convém. Encontros que potencializem a ambos ao mesmo tempo.

Na racionalidade os dois crescem. Esta razão é inadequada para o mundo em que vivemos porque este nos preenche de tristeza quase o tempo todo. E pior, de alegrias reativas, alegrias tristes, nos ensina a alegramos com a tristeza alheia. Nosso objetivo clínico, como leitores de Espinosa é cada vez mais aumentar nossa mapa de encontros, realizar uma cartografia de si, abrir nosso leque de possibilidades, viver em ato, ser feliz em ato, um corpo que se concentra na vida de modo a esquecer quase completamente da morte.

A psicologia de Espinosa tem reflexos diretos na política, todos os afetos são (bio)políticos, um corpo que não entende seus afetos e como se relacionar com eles, não pode se relacionar de maneira saudável com os outros. O cuidado que temos com nosso corpo é a possibilidade de cuidado com o corpo do outro.

Espinosa diz, juntamente com vários outros pensadores, que a liberdade se conjuga sempre no plural, ela não acaba quando começa a liberdade do outros, uma aumenta proporcionalmente à do outro. Superstição, juízo moral e tirania são sintomas de uma vida impotente, triste; a clínica espinosista quer livrar o homem destes pequenos consolos que não libertam, muito pelo contrário, criam a ilusão de liberdade em meio à servidão.

Uma psicologia que fala em nome da liberdade, uma psicologia que integre pensamento e ação. São grandes apostas para esta psicologia! Sim, Espinosa está convicto de que a vida pode ser melhor do que é agora. Uma vida alegre, potente, capaz de se conectar, capaz de criar, capaz de pensar de maneira diferente. Se liberdade é fazer o que está sob domínio da nossa potência, a psicologia deve no mostrar o caminho para encontrarmos a nós mesmos, qual a nossa potência? Uma psicologia espinosista parece nos indicar as direções para responder a esta pergunta.

Texto da série: Contra-História da Psicologia

Pieter Bruegel - The Wedding Dance
Pieter Bruegel – The Wedding Dance

Escrito por Rafael Trindade

Artesão de mim, habito a superfície da pele, atento para o que entra e sai.

8 comentários

  1. Maravilhoso o texto, sou psicóloga e me identifico com suas palavras.
    Parabéns pelo ser um SER humano com um olhar tão HUMANO…

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  2. Sou psicólogo e este artigo reverberou em mim, foi um bom encontro. Gostaria de pedir uma indicação de leitura de Espinosa. Por onde começar?

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    1. Pedro, recomendamos estes livros (retirei a lista da nossa página referente a Espinosa)

      Referências básicas para interessados:

      Espinosa, Os Pensadores

      Espinosa, Ética, Trad: Tomaz Tadeu

      Espinosa: uma filosofia da liberdade, Marilena Chauí

      Espinosa – Filosofia Prática, Gilles Deleuze

      O Espinosismo, Victor Delbos

      Contra-história da filosofia III: os libertinos barrocos, Michel Onfray

      Spinoza, Amauri Ferreira

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