Para os incautos, pode ser estranho encontrar estas duas figuras no mesmo texto. Espinosa e Skinner? Um racionalista do séc XVII e um behaviorista do séc XX? É preciso sair do lugar comum e surpreender o bom senso. Sim, estes dois pensadores estão mais próximos do que imaginam filósofos e psicólogos. E mesmo que não estejam, por que não fazer experimentações? Nossa intenção é simples: realizar um exercício. Queremos comparar as ideias destes dois pensadores e encontrar onde suas teorias se encontram e se potencializam. Neste texto especificamente nos perguntamos: como os dois criaram conceitos sobre o corpo?

Espinosa foi um dos grandes pensadores do corpo. Em sua Ética, obra mais importante, ele faz a grande afirmação:

O fato é que ninguém determinou, até agora, o que pode o corpo, isto é, a experiência a ninguém ensinou, até agora, o que o corpo – exclusivamente pelas leis da natureza enquanto considerada apenas corporalmente, sem que seja determinado pela mente – pode e o que não pode fazer” – Espinosa, Ética III, prop. 2

Para Espinosa é muito importante entender o que pode um corpo para tirá-lo do pensamento religioso e supersticioso, que se concretiza com Descartes, onde a mente teria poder sobre o corpo, dominando-o. Para o filósofo, não há uma relação de dominação, onde ora as paixões do corpo se sobreporiam à mente, ora esta teria força o bastante para dominar as paixões do corpo. Este raciocínio não faz sentido, diz Espinosa, porque mente e corpo não são duas substâncias separadas, as duas são atributos de uma única mesma substância: Deus.

Vejamos então a descrição imanente de Espinosa: o corpo humano é composto de muitas partes menores, umas mais duras, outras mais fluídas. Isso faz com que o corpo seja afetado de muitas maneiras diferentes, dependendo do que o afeta e em que partes. Para conservar-se, este corpo precisa repor constantemente as partes que perde ou que consome, logo, ele necessita de outros corpos. Este corpo também fica marcado em suas partes fluídas quando outros corpos os afetam um grande número de vezes ou com força. Para concluir, um corpo tem a capacidade de mover e arranjar os outros corpos ao seu redor de muitas maneiras.

O corpo humano pode ser afetado de muitas maneiras, pelas quais sua potência de agir é aumentada ou diminuída, enquanto outras tantas não tornam sua potência de agir nem maior nem menor” – Espinosa, Ética III, post 1

Alguma semelhança com o behaviorismo? Espinosa fala de um corpo real, não idealizado, observado em sua imanência, compreendido pelo que é (por isso a possibilidade de uma ciência dos afetos). O que pode o corpo? Ora, depende de sua relação com o mundo, às vezes pode muitas coisas, e dizemos então que está ligado àquilo que é capaz, outras vezes está fraco e debilitado, então dizemos que está afastado do que pode, não atualizando sua potência de agir.

Será que podemos dizer que Skinner fez isso? O behaviorismo radical foi diversas vezes acusado de ser simplista, de ignorar os sentimentos, entender apenas de ratos de laboratório. Nada mais impreciso! Seu grande objetivo está em definir as bases para uma filosofia do comportamento. A grande crítica de Skinner é, primeiro, para um agente interno eliciador, uma vontade incontrolável, misteriosa, uma pulsão do Id, etc; e, segundo, uma mente que está para além das contingências, que ficou conhecida como livre-arbítrio.

O fato é que o behaviorismo realiza uma grande inversão: coloca o foco no ambiente. À primeira vista, não parece uma grande inovação, mas Skinner levou esta conclusão às últimas consequências. Não há nada de especial nos seres humanos, não somos seres isolados da natureza, somos parte do ambiente. Somos matéria entre matéria, animais entre animais. Claro que o homem é muito mais que um rato de laboratório, mas sua diferença não é qualitativa, ele é apenas bem mais complexo (por isso precisamos sempre tomar o cuidado necessário). Mesmo assim, não somos um império dentro de um império, isso nos submete a todas as leis da natureza que agem sobre nós e também outros corpos. Enfim, somos corpos entre corpos:

Uma pequena parte do universo está contida dentro da pele de cada um de nós” – Skinner, Sobre o Behaviorismo, p. 23

Espinosa e Skinner realizam um grande feito, mente e corpo em um só, a alma como ideia do corpo, nada mais (e já é muito). Eles juntam mente e corpo em um só, eles são parte, segunda esta concepção, de um organismo que age em conjunto. E agora, unindo também organismo e ambiente, eles realizam trocas, permutas, se afetam mutuamente, eles fazem parte da mesma cadência, da mesma dança, do mesmo ritmo chamado existência.

O homem interior foi abolido, ele finalmente está no meio do mundo, sem chance de se esconder, e é melhor assim, isso abre muitas possibilidades. Isso não faz dele uma vítima ou uma máquina, apenas o coloca em relação direta, sem mediações supersticiosas. O behaviorismo e o espinosismo se concentram neste ponto: o ambiente ao redor influenciando o organismo, mas ele, por sua vez, agindo sobre o ambiente que o rodeia.

Numa análise comportamental, uma pessoa é um organismo, um membro da espécie humana que adquiriu um repertório de compor­tamento. […] O im­portante é aquilo que ocorre quando se adquire um repertório” – Skinner, Sobre o Behaviorismo, p. 145

Aqui racionalismo e behaviorismo estão muito próximos: um corpo se define por aquilo que ele pode. O corpo é seu jeito de ser afetado pelo mundo e a maneira com que responde às afecções. E podemos ver como o organismo é extremamente dinâmico, é incrível como ele muda, se transforma e varia seu comportamento de acordo com o ambiente. A própria ideia de individualidade se perde quando pensamos o corpo como um ponto atravessado por inúmeros estímulos.

O quadro que emerge de uma análise científica não é de um corpo com uma pessoa em seu interior, mas de um corpo que é uma pessoa, no sentido em que exibe um repertório com­plexo de comportamento” – Skinner, O mito da Liberdade, p. 156

Somos um grau de potência, com certa capacidade de afetar e ser afetado. Mas, na maior parte do tempo, não sabemos o que pode o nosso corpo, não sabemos o que, e como, as coisas nos afetam, e não sabemos também do que somos capazes. Por isso podemos dizer que estes dois autores retornam à questão fundamental: O que pode o corpo? Cabe a nós, espinosistas e analistas do comportamento, encontrar as reentrâncias deste corpo, esticá-lo, fazê-lo ir além, atualizar-se, exprimir-se, abrir novos caminhos, encontrar novos valores, experimentar. Procurar maneiras inéditas de afetar o corpo, elevá-lo ao grau onde se retoma a capacidade de surpreender-se consigo mesmo! Somente assim o corpo se compõe com o mundo!

Afetar e ser afetado, definição espinosista, comportamento operante (e discriminativo), Skinner. Claro que não podemos dizer que um e outro são a mesma coisa e este não é nosso objetivo. Apenas nos mantemos em nosso plano original: um exercício do pensamento, uma torção, um enrabamento de teorias, para pensar as possibilidades de um behaviorismo espinosista. Somos crianças se divertindo com brinquedos, queremos ver até onde eles podem ser esticados, então os jogamos na parede para ver se aguentam a pressão de estar na mão de leitores tão inadequados. E nem podem nos responsabilizar dizendo que tal comparação é forçada, afinal, é o próprio Espinosa quem nos dá os rudimentos do condicionamento reflexo de Pavlov:

Se um corpo humano foi, uma vez, afetado, simultaneamente, por dois ou mais corpos, sempre que, mais tarde, a mente imaginar um desses corpos, imediatamente recordará também dos outros” – Espinosa, Ética II, prop. 18

O filósofo holandês não precisa, e não quer, recorrer a explicações ad hoc para falar do ser humano. O mundo se constrói como uma composição das afecções do corpo, tal como Skinner dirá depois. Sinfonia de estímulos! Tudo isso para que? Para nos comportamos de acordo com normas sociais? Sermos controlados como ratos que apertam barras? Não, Espinosa dá uma resposta ontológica para esta questão: conatus. O organismo se comporta porque ele é este esforço de conservação, esta potência de ser, de continuar e de se manter. O organismo existe e age porque está inserido na seleção natural, que atua no nível filológico (como bem explicou Darwin), e comportamental, como explica Skinner.

Os filósofos se perderam pensando na alma, outros se perderam no inconsciente. Espinosa e Skinner retomam a superfície da pele, seus poros, eles querem entender como os corpos são afetados, e quais são as novas possibilidades inexploradas destes corpos que se põem em experimentação. Liberdade é perder-se e encontrar-se no mundo, não em alguma alma, mente, inconsciente, ou qualquer idealismo que seja.

Uma pequena parte do universo está encerrada na pele de um homem. Seria tolice negar a existência desse mundo individual, mas também é tolice afirmar que, por ser individual, é de natureza diferente do mundo exterior. A diferença não está na matéria de que se compõe o mundo privado, mas em sua acessibilidade” – Skinner, Sobre o Behaviorismo, p. 150

O homem é um conjunto de comportamentos selecionados pelo ambiente, um repertório construído em um arranjo de contingências. Somos de um jeito com amigos, de outro com nosso chefe, ainda outro com nossos filhos e parentes. Sendo assim, podemos concluir que mudar o comportamento é mudar também a forma de pensar. Teoria e prática unidas, um diretamente relacionado com o outro. O desejo está intimamente relacionado com o ambiente ao nosso redor (não é à toa que existem expressões como “mudar de ares”). Da mesma maneira que, 4 séculos antes, Espinosa se perguntou “o que pode o corpo?”, Skinner atualizou seu questionamento:

Uma visão científica do homem oferece possibilidades inesperadas. Ainda não vimos o que o homem pode fazer do homem” – Skinner, O mito da liberdade, p. 168

  • Revisão: Johny Brito (johny.brito@gmail.com)

> Texto da série: Contra-História da Psicologia <

Espinosa-Skinner(3)

Escrito por Rafael Trindade

Artesão de mim, habito a superfície da pele.

6 comentários

  1. Olá, tudo bem?
    Ficou bem interessante o texto, e bastante arriscado o assunto que decidisses embarcar.
    A escrita está muito boa também, porém, acredito que ocorreram alguns erros etiológicos referente a abordagem skinneriana, como por exemplo, explanar a seguinte frase:

    “Procurar maneiras inéditas de afetar o corpo, elevá-lo ao grau onde se retoma a capacidade de surpreender-se consigo mesmo! Somente assim o corpo se compõe com o mundo!”

    De acordo com o behaviorismo radical de skinner, o comportamento é produto da ação continua entre contingências filogenéticas, ontogenéticas e culturais. Então, acredito, que a concepção de corpo em skinner, se da mais a um viés evolucionista, onde o mesmo é produto do ambiente, sendo modificado e modificando-o.
    Ao ponto de vista da analise do comportamento, todos os indivíduos são ‘únicos’ e acabam possuindo “uma forma de desenvolvimento única”, ou seja, um repertorio comportamental especifico, então esses não seriam passiveis de predição, embora sigam os princípios básicos da analise de comportamento.
    Então dizer “somente assim o corpo se compõe com o mundo”, acho que acaba ficando um pouco equivocado, já que o individuo se compõe no mundo, e ao se referir à “corpo” ao invés de “individuo”, acaba por dar uma premissa mentalista, a qual estaria bem longe da concepção de tal aporte teórico, embora entenda que o ponto de vistá adotado, e a intensão de aproximação entre skinner e espinosa, acabou se fazendo tal dito “necessário”.

    “O homem interior foi abolido, ele finalmente está no meio do mundo, sem chance de se esconder, e é melhor assim, isso abre muitas possibilidades.”

    Ao ler tal frase, me remeteu a ideia de extinguir os ‘eventos privados’, não sei se a intenção do autor era essa, mas não fez muito sentido para mim, com relação, as abordagens que visava-se elucidar.

    Espero que tenha contribuído de alguma forma, e que possíveis mal-intendidos por minha parte possam vir a ser explicados.

    Abraços

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  2. Os Filósofos se perderam na alma, outros no inconsciente ou idealismo, …Observação de mestre que revela a visão emergente e livre sobre a filosofia totalitária de muitos metafísicos e esquerdistas.

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