Viver com toda a independência; refletir sobre a natureza do governo que se exerce, quer sobre si mesmo, quer sobre outros; entreter-se com seus próprio pensamentos: falar consigo mesmo: esse é o retrato do sábio” – Foucault, Hermenêutica do Sujeito, p. 412

Foucault se volta aos gregos para entender o processo de veridicção. Como cada sujeito problematiza a verdade em seu tempo e em si mesmo? De que modo podemos ser considerados verdadeiros? O que o filósofo francês se pergunta aqui é qual o processo pelo qual o sujeito precisa passar para ser considerado portador de uma verdade. Ele encontra esta resposta na cultura helênica e romana, o que permite assim colocar em questão os vários processos de subjetivação que nossa sociedade possui.

Os gregos, helênicos e romanos possuíam exercícios de meditação, exercícios que eram operados pelo pensamento sobre o próprio pensamento; diferente da Ascese, onde o foco estava no corpo, mas ainda assim complementar. A pergunta aqui segue outra via: qual a verdade daquilo que se pensa? Qual sua validade? Na meditação nos tornamos atentos às representações tais como elas se dão e fazemos um movimento de verificação, em que consistem e a que remetem? Ao meditar, estes movimentos na alma, estas emoções, paixões e afetos são colocados sob análise.

Por que pensamos o que pensamos? É possível fazer esta pergunta da mesma maneira que Nietzsche na Genealogia da moral:

Que valor tem eles? Obstruíram ou promoveram até agora o crescimento do homem? São indício de miséria, empobrecimento, degeneração da vida? Ou, ao contrário, revelam-se neles a plenitude, a força, a vontade de vida, sua coragem, sua certeza, seu futuro?” – Nietzsche, Genealogia da Moral, Prólogo

A filosofia é fruto de um corpo, um pensamento é também parte de um corpo. Estes exercícios de pensamento permitem criar um sujeito que porta sua própria verdade, não porque a descobriu em um lugar de seu inconsciente ou de sua vida passada, mas porque ele é a própria prova constitutiva de si, modelado a partir da prática de si. E aqui está o ponto onde nos afastamos da tradição.

No Alcibíades, de Platão, a alma apenas re-conhecia a verdade, que já havia contemplado anteriormente no mundo das ideias. Isso é totalmente diverso nos gregos e no helenismo, os exames de consciência aqui não servem para trazer à tona verdades escondidas. Como diz Nietzsche, atrás de uma caverna há sempre outra caverna. O que se busca é até que ponto podemos mensurar nossa verdade como princípio de conduta! E a partir disso o quanto podemos pensar diferentemente. Também não é uma questão de identidade. O que ocorre é, sim, uma duplicação de si, um desnível das faculdades, uma necessidade de pensar de outra forma e conseguir articular estas diferenças sem torná-las homogêneas. É na diferença que pensamos e é nela que podemos fixar pontos e estabelecer relações de si para consigo.

Estes exercícios foram desenvolvidos principalmente pelos estoicos, mas também podem ser encontrados nos epicuristas e nos cínicos. São exercícios mentais para melhor entender de que forma nos inserimos em nossa realidade, qual é a relação que se dá na superfície que separa nosso mundo interior do mundo exterior.

Devemos refletir sobre nossas relações com o mundo, e como elas nos afetam? Considerar calmamente as coisas que se passaram e nossa atitude em face dos acontecimentos. O que nos aflige e como podemos remediá-las? Quais sãos os movimentos que se dão no pensamento? Que opiniões e representações nos acompanham? Elas não são a realidade substancial da alma, mas produtos da relação entre o corpo e o mundo, as representações são este movimento. Vejamos alguns exercícios:

Meditação sobre os males futuros

Este é um dos treinamentos mais célebres e conhecidos: praemeditatio malorum. Para os gregos é difícil falar de porvir porque o que se tem diante dos olhos é sempre o passado. O carregamos conosco, é ele que nos constitui, sendo então o porvir o desconhecido e o insondável. Ou seja, a meditação sobre os males futuros é um exercício desenvolvido sobre si mesmo que tem como objetivo não se preocupar com o porvir.

Se é o futuro que fundamentalmente preocupa, então é preciso desenvolver um exercício para que ele pare de nos roubar nosso presente. Enfrentar o porvir desviando o olhar, porque o espírito é frágil e facilmente se deixa absorver, tomado pelo medo ou pela esperança. O futuro é nada, ele não existe, exatamente por isso estamos condenados a apenas imaginar o que será, colocando nele toda nossa impotência. É exatamente aí que entra o cuidado de si, no controle das representações:

O homem do porvir é impotente, porque volta-se para o que não existe, dizem os gregos. Ele faz pouco caso de seu passado e ignora seu presente. Isso se reflete de duas maneiras: se o porvir está em suspenso, isso prende o homem pela esperança; já o passado, como não poderia não ter sido, prende o homem pela lembrança. A grande questão do cuidado de si é unir estes dois fio através de uma memória de futuro.

Os exercícios têm sempre como objetivo nos preparar. São movimentos fundamentais que trazem certas habilidades que usaremos quando necessário. Neste caso, a preparação é para possíveis acontecimentos desagradáveis que, se não forem pensados, podem nos pegar de surpresa. O pensamento como arma a qual podemos recorrer no momento necessário.

Um homem que se vê bruscamente surpreendido por um acontecimento corre o risco de encontrar-se em estado de fragilidade, tamanha a surpresa e o despreparo para esse acontecimento” – Foucault, Hermenêutica do Sujeito, p. 420

Um estado perigoso de passividade pode tomar conta de nós se formos pegos desprevenidos diante de um grande acontecimento. Precisamos, portanto, nos preparar. Por isso, a meditação sobre os males futuros é a prova para o pior. Devemos pensar então não apenas o que frequentemente pode acontecer de ruim, mas sim tudo que pode acontecer de pior! E pensá-los de tal forma que certamente ocorrerão! Deve-se pensar que os males não apenas podem ocorrer, mas que ocorrerão necessariamente e da pior maneira possível.

Este tipo de pensamento pode parecer concentrar-se no porvir, e no pior deles neste caso. Mas esta meditação serve para produzir exatamente o contrário: seu objetivo é obstruir o porvir. Parece contraditório em um primeiro momento, mas não é. Esta prova de pensamento nos prepara para as piores coisas e, assim, nos fecha definitivamente o porvir. A anulação do futuro através da meditação dos males  traz o futuro para o presente: que males são estes? Posso suportá-los? A razão tomando as rédeas da imaginação e mostrando o quanto os males podem ser recebidos com mais calma e domínio através deste exercício de premeditação.

E é por esse meio que, quando o acontecimento se produzir, podemos nos equipar com uma verdade que nos servirá para reduzir ao seu elemento de estrita verdade todas as representações que, se não estivéssemos assim prevenidos, poderiam comover nossa alma e perturbá-la” – Foucault, Hermenêutica do Sujeito, p. 425

A meditação dos males nos prepara para o porvir porque nos remete ao presente: “o que posso fazer aqui e agora para me preparar para este futuro tão horrível que se anuncia?“, “Como a potência em mim será afetada e afetará?“. O futuro se fecha para anunciar uma capacidade de agir no presente. Caso o pior aconteça, estaremos preparados por já termos meditado e saberemos ter feito tudo que estava em nosso controle. (O irônico disso tudo é ver que os epicuristas faziam o contrário, meditava sobre os bens futuros e passados, veja aqui)

Meditação sobre a morte:

A morte não é apenas um acontecimento possível, como a meditação dos males futuros, mas necessário. Este exercício consiste em pensar que a morte está aí, na nossa porta, prestes a ocorrer. Sim, neste pensamento, é preciso visualizar a vida como algo limitado, frágil, que pode acabar a qualquer momento, e que este dia não só pode como provavelmente será o último.

Chegamos, assim, na questão do valor: “qual a valor do que estamos fazendo agora?”, “se este dia fosse o último, como nos sentiríamos?“. Este exercícios de pensamento nos dá uma perspectiva da nossa vida como um todo: “qual o valor desta vida que eu vivi até hoje?” É uma compreensão da fragilidade do presente e do futuro e valorização do passado que este exercício busca.

O fim da vida pode anunciar-se como o maior dos pesos: “se fôssemos condenados a viver a mesma vida eternamente, nos sentiríamos gratos ou amaldiçoados?“. O pensamento sobre a morte procura ter os mesmos efeitos que o Eterno Retorno de Nietzsche, trazer o valor desta vida que se afirma, e pensar o quanto ela realmente se afirma. A morte aqui é uma prova ética, como nos sentimos com relação à nossa própria história de vida ao imaginarmos a nossa morte, o fim de tudo?

Em segundo lugar, paradoxalmente, este pensamento também se aproxima do sábio espinosista que medita sobre a vida e não sobre a morte (veja aqui). A reflexão sobre a morte como maneira de refletir sobre a vida. O pensamento da morte tornando-se fermento para a nossa existência! Não é que este pensamento sobre a morte esteja proibido ao sábio, mas este não lhe afeta de tristeza e angústia porque sua existência é de tal modo preenchida pela potência dos bons encontros que a morte não é capaz de abalar isso, ele já é em grande medida eterno. A meditação sobre a vida envolve viver da melhor maneira possível de modo que meditar sobre a morte não seja pesaroso ou angustiante.

O valor particular da meditação sobre a morte não está apenas no fato de que ela antecipa o que a opinião geral representa como o maior dos infortúnios, não está apenas no fato de que ela permite convencer-se de que a morte não é um mal; ela oferece a possibilidade de lançar como que por antecipação, um olhar retrospectivo sobre a própria vida. Considerando-se prestes a morrer, pode-se julgar, em seu valor próprio, cada uma das ações que se está cometendo” – Foucault, Hermenêutica do Sujeito, p. 454

Não queremos ser pegos de calças curtas pela morte, queremos estar preparados, mas a melhor maneira de preparar-se para a morte é vivendo! Ou seja, há uma perfeita transvaloração de todos os valores com este pensamento. A filosofia pode ainda ser, seguindo a tradição, uma forma de aprender a morrer, mas só se aprende a morrer vivendo!

Exame de consciência:

Parece que o exame da manhã servia sobretudo para considerar as tarefas e obrigações do dia a fim de se ficar suficientemente preparado para elas. O exame da noite era consagrado de maneira muito mais unívoca à memorização do dia transcorrido” – Foucault, Cuidado de Si, p. 66

O exame de consciência não é um tribunal da razão para julgar a vida! Não estamos aqui enfrentando um juiz impiedoso nem estamos submetidos a leis rígidas! O exame de consciência procura fazer precisamente o que diz: examinar, compreender, entender. Sabemos que o conhecimento é o mais potente dos afetos! De manhã o objetivo e pensar sobre o que faremos e à noite é refletir sobre o que fizemos. Estas duas versões são similares e complementares:

O exame da manhã serve como preparação para o dia, e deve ser praticado ainda deitado, antes de levantar-se. Os pensamentos devem ser: “de que maneira devo me dispor para que meu dia seja o melhor possível? Que cuidados devo tomar desde o primeiro momento? O que devo evitar e em que pontos devo me esforçar?“.

Lembrando que os exercícios de pensamento são como para o atleta e o combatente. O sábio deve equipar-se para o dia que virá, assim como o atleta se aquece antes do exercício, para estar melhor disposto para quando o momento chegar e assim como o guerreiro confere suas armas antes de entrar no combate.

Já no exame da noite o objetivo é pensar, logo ao se deitar, tudo o que fizemos ao longo do dia, considerar cada uma de nossas ações, não como juiz e réu, porque a intenção não é encontrar uma sentença, muito menos uma punição. O objetivo da meditação é encontrar uma medida, saber em que ponto estamos, entender porque fizemos o que fizemos.

Foi correto? Segui aquilo que acredito? Em que medida quero isso e reconheço estas atitudes como sinônimo de potência?” Ao afastar-se da agitação do dia a dia sempre temos a possibilidade de pensar melhor e com mais calma. E assim podemos avaliar de maneira mais precisa como foi nosso dia e onde podemos atuar para melhorá-lo. A pergunta é uma só:

Em que ponto estou na elaboração de mim mesmo enquanto sujeito ético da verdade? Em que ponto estou nessa operação que me permite sobrepor, fazer coincidirem perfeitamente em mim o sujeito de conhecimento da verdade e o sujeito da ação reta?” – Foucault, Hermenêutica do Sujeito, p. 435

Um discurso verdadeiro é a arma do sábio para enfrentar o acontecimento! Precisamos conhecer a nós mesmos e ao mundo em sua relação de potência e devir. A sabedoria é uma arma cortante ou um escudo que protege. O exame de consciência da manhã ou da noite permite ao conhecimento tornar-se, assim, o mais potente dos afetos!

Filosofia é exercício, preparação, tanto físico quanto mental. Filosofar é considerar sua vida como uma prova e o exame de consciência é um medidor para garantir se estamos ou não no caminho certo. É um alívio ver a filosofia no mundo, na prática! Termômetro do conatus! Registrador da Vontade de Potência! A vida deve realizar estes exercícios, estas meditações, estes exames para superar-se, tornar-se mais forte, talhar a si própria de uma maneira ética-estética. Ascese e meditação como ferramentas da vida.

Texto da série: Cuidado de Si

- Ilustração de Mariana Ardito
– Ilustração de Mariana Ardito

Escrito por Rafael Trindade

Artesão de mim, habito a superfície da pele, atento para o que entra e sai.

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