Para um homem devoto não existe solidão – esta invenção foi feita somente por nós, os sem-Deus” – Nietzsche, Gaia Ciência, §367

A mais profunda solidão como meio para o mais profundo aprendizado, é isso que Nietzsche aprendeu em seus longos anos lidando com esta questão. O homem devoto não teria tal oportunidade, ele está sempre acompanhado da onipresença de Deus, do diabo ou apenas de sua sensação de culpa.

Nietzsche quer mostrar como um dos ensinamentos do espírito livre é a solidão, primeiramente porque ele atingiu tal nível de distinção que poucos podem desfrutar de sua companhia, mas também porque, acima de tudo, aprendeu a amar sua própria companhia, em vez de temê-la. Quando está consigo, sente-se em casa, onde quer que esteja.

Quem está só? — O temeroso não sabe o que é estar só: atrás de sua cadeira há sempre um inimigo. — Oh, quem poderia nos contar a história do fino sentimento que se chama solidão!” – Nietzsche, Aurora, §249

Nietzsche poderia contar tal história porque dominou esta arte como poucos. Sim, dirá o filósofo, porque é raro aquele que é capaz de desfrutar de si mesmo! Para muitos, ficar só não passa de um tormento, um sentimento do qual queremos nos livrar o mais rápido possível. Liguem a televisão ou o rádio, rápido! Temos medo de nossos próprios fantasmas e ficamos ansiosos por diluí-los no barulho da sociedade. Queremos pensar o mínimo possível em quem somos, e definitivamente não queremos abrir a caixa de Pandora para descobrir os demônios que nos habitam (talvez daí o pavor de alguns em começar terapia). Por isso abrimos a porta de casa e corremos para o entorpecimento coletivo, compramos a entrada para o ambiente mais lotado de pessoas que possam se misturar a nós.

Estando entre muitos, vivo como muitos e não penso como eu; após algum tempo, é como se me quisessem banir de mim mesmo e roubar-me a alma — e aborreço-me com todos e receio a todos. Então o deserto me é necessário, para ficar novamente bom” – Nietzsche, Aurora, §491

A solidão é, antes de mais nada, restauradora. Um descanso da vida social, dos deveres sociais, das máscaras que vestimos tantas vezes em público. Ela é necessária, para revigorar, repousar. Por isso também o caráter profilático da solidão, que impede que nos percamos em fluxos que não são nossos! Sem ela, estaríamos perdidos, cairíamos numa mistura indefinível, da qual não se pode tirar nada. Tudo se tornaria homogêneo. Por isso, aquilo que é vago demais assusta quem ama a solidão! Claro, temos medo de perder aquilo que duramente conquistamos a sós: nós mesmos. Por isso Nietzsche tinha horror ao medíocre, ao igual, àquilo que não se distinguia. E também por isso precisamos aprender a cultivar nossa solidão, como uma possibilidade de distinção, como uma possibilidade de criação de si, do diferente.

- Andrea Pramuk
– Andrea Pramuk

Mas nós não conseguimos enfrentar os demônios que nos habitam, procuramos aumentar o volume do mundo ao nosso redor para não ouvir os sussurros dos impulsos que nos habitam. Não aprendemos a lidar com nós mesmos, e a sociedade tampouco nos ensina esta capacidade. O solitário é muitas vezes visto como perigoso, gera desconfiança porque se encontra fora da curva, aquele que não segue o que todos seguem. A moral exige o universal, ela anseia pela igualdade, sendo assim, que todos se comportem da mesma maneira. Todas as ideias devem ser iguais, coisa que o solitário tem tempo o bastante para ver que é uma besteira.

Sobre a educação — Paulatinamente esclareceu-se, para mim, a mais comum deficiência de nosso tipo de formação e educação: ninguém aprende, ninguém aspira, ninguém ensina — a suportar a solidão” – Nietzsche, Aurora, 443

- Andrea Pramuk
– Andrea Pramuk

Mas há aqui uma diferença essencial. O isolamento de que Nietzsche fala é bem diferente do isolamento cristão ou de outras religiões. Não queremos nos afastar deste mundo porque ele é maldito ou podre. Não é nada disso! O próprio afastar-se ainda é no mundo, nesta existência. Dar dois passos para trás permite saltar mais longe! Ou então, dá-se dois passos para trás para ter uma visão mais ampla do conjunto, para mudar o foco, encontrar outras perspectivas, outros caminhos, e também para poder depurar certas vivências.

O espírito livre não teme a solidão, pelo contrário, muitas vezes a anseia, mas a nossa educação não ensina a nos relacionarmos bem com ela. Devemos evitá-la, temê-la, desconfiar dela e quando possível, recriminá-la! Mas será que precisamos o tempo todo estar na companhia dos outros, de iguais? Qual a dificuldade de reconhecer que uma pessoa pode estar bem em sua própria companhia e não precisa o tempo todo mergulhar no gregarismo onde perde-se de si mesma?

Perspectivas distantes. — A: Mas por que essa solidão? — B: Não estou aborrecido com ninguém. Mas sozinho pareço ver os amigos de modo mais nítido e belo do que quando estou com eles; e quando amei e senti mais a música, vivia longe dela. Parece que necessito de perspectivas distantes para pensar bem das coisas” – Nietzsche, Aurora, §485

É aqui que Nietzsche quer chegar quando fala de solidão! Ela permite ampliar nossa visão, nos dar mais perspectivas! Avaliar melhor! Como pensar sendo atolado por estímulos exteriores? Como pensar quando todos querem algo de você, sua atenção, seu sorriso, sua simpatia? Não, precisamos de uma distância para conseguir entender o que está acontecendo, precisamos subir, para olhar com mais clareza! A solidão está bem perto do pensamento!

Apenas quando estamos afastados podemos ver o que antes não conseguíamos, apenas com um pouco de distância podemos observar um quadro com clareza, apenas afastando o livro de nossos olhos podemos focalizar suas letras. Qual a distância exata? Não sabemos, mas cada coisa necessita de sua distância correta para poder funcionar! É uma questão de medidas…

Nietzsche procedia assim em sua vida, um mergulho nos mais espinhosos assuntos, na lama do ressentimento, no sofrimento da má-consciência, mas depois um pouco de distância para pensar e refletir. O amor ao próximo é um mau amor a si mesmo, dizia Zaratustra, porque recai no que há de igual. Aprender a amar o distante, isso sim, porque é na distância que se amplia a visão e é na diferença que podemos aprender.

Portanto devemos conceder a certos indivíduos a sua solidão e não ser tolos a ponto de lastimá-los, como frequentemente sucede” – Nietzsche, Humano, Demasiado Humano, § 625

Texto da série: Espírito Livre

- Andrea Pramuk
– Andrea Pramuk

Escrito por Rafael Trindade

"Artesão de mim, habito a superfície da pele" Atendimento Psicológico São Paulo - SP Contato: (11) 99113-3664

21 comentários

  1. Excelente texto, mas discordo veementemente da questão da distância em relação aos pontos de vista. Por mais que pareça necessário, a distância é só uma perspectiva dentre infinitas. Imaginar-se dentro de algo, sociedade, objeto ou emoção, é uma maneira mais ousada de percebê-lo(a), dentre infinitas maneiras e pontos de vista. Outra, a ousadia tem uma qualidade poética que somente a distância parece não ser capaz de produzir. Distância é segurança. Ficar cara a cara com o leão selvagem é instenso, é ousado.

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    1. Ficar cara a cara com o leão selvagem é chato e entediante… Um bicho grande, preguiçoso e burro. Prefiro a ousadia de lidar com o monstro que há em mim.

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  2. A solidão é aquele encontro desejado, porém temido porque estar consigo próprio pode ser uma caixa de surpresa, caixa de Pandora ou caixa de bombom.

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  3. Parabéns pelo texto, vejo-o como uma mensagem de grande importância em nossa sociedade onde a ideia de solidão é vendida como algo negativo.

    Particularmente essa perspectiva da solidão para tomar uma caminho distante de nós mesmos se assemelha muito a filosofia de meditação budista. Pode-se dizer que o ato de meditação auxilia muito no processo de “aprofundar-se” e de conhecer os “outros” que nos habitam, tomando distância de tudo aquilo que aceitamos como óbvio em nossa personalidade.

    Abraços, conheci recentemente teu recinto, espero tomar como hábito uma leitura diária deste.

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