O esgotamento pode ser uma categoria política, biopolítica, micropolítica até, desde que se compreenda que não equivale a um mero cansaço” – Peter Pal Pelbart, O Avesso do Niilismo, p. 413

O esgotamento é um afeto que precisa ser abordado de frente, olho no olho. E dizemos mais, há uma urgência de fazê-lo exatamente neste momento. Isso porque é nítido o fechamento dos modos de vida em nossa sociedade, sua morbidez quase que completa. Os deslizamentos desta sociedade fecharam todas as alternativas que conhecíamos. Somos a vida rebaixada, esgotada, que não sabe o que fazer com isso.

Olhamos para a televisão como se fosse um espetáculo distante, não tomamos nenhuma atitude nem quando a água bate na bunda, estamos paralisados. Somos uns bundões? Não…. diríamos apenas que estamos esgotados, absolutamente esgotados, num estado de lassidão profunda. Não há energias, nos tornamos zumbis, manequins, máquinas, múmias. Vidas de plástico. Vida besta, como diz Peter Pal Pelbart, uma vida que duvida de si, flutuando entre um oceano de indiferenças.

Nos encontramos na zona intermediária entre a vida e a morte, nos alimentando por aparelhos netflixianos, facebookianos, percorrendo corredores de sites de compra, pornografia e fotos de comida processada: somos a reatualização da caverna de Platão. Nossa vida é uma enorme espera, uma rifa, uma grande letargia que nos permite apenas durar para o dia seguinte. Todos nós temos nossa história diária de sobrevivência, como se estivéssemos perdidos na selva, sozinhos. Desprovidos de sensibilidade, agimos por hábitos e reflexos. Temos uma câmera na mão, para prestar testemunho, mas não temos palavras para expressar o que sentimos.

Um momento, um lugar, uma existência que agoniza sem chegar ao fim, não é deste afeto (bio)político que estamos falando. Essa vida anêmica, pobre, desgastada é o que temos ao nosso dispor, apenas isso, e ela persiste, tendendo ao zero. São os últimos dos homens, anunciado por Nietzsche. O cansaço é  sempre ainda o penúltimo suspiro, uma agonia que nunca chega ao fim. Trabalho e transporte diários nos consomem, sobra pouco de nós para nós mesmos. Perdemos a capacidade de transitar, todas as ruas foram fechadas, todos os fluxos, controlados. O cansaço é útil para o capitalismo, ele é a imobilidade obediente. Já o esgotamento é o último suspiro, o anúncio de trombetas dizendo que não dá mais! É o desgarramento, o desmoronamento, o deslocamento radical das forças que sustentam o real.

O que poderia ainda sacudir-nos de tal estado de letargia, lassidão, esgotamento?” – Peter Pal Pelbart, Avesso do Niilismo, p. 31

O corpo não aguenta mais! Onde ele está? Por acaso seria esta casca seca que não presta mais para nada? Impermeável, blindado, entupido, o corpo está fechado. É preciso abrir seus poros! O cansaço impede o corpo de afetar e ser afetado! Este é seu mecanismo de controle, incapacidade de olhar para fora, pela janela. As pálpebras estão cerradas, o pescoço está rígido, as mãos, fechadas, o ouvido entupido. Já o esgotamento é o corpo que estala, trinca e, finalmente, racha ao meio. Nós vemos o corpo partir-se em mil pedaços. Mas como esgotar-se ativamente?

Não estamos nós todos nesse ponto de sufocamento, que justamente por isso nos impele em uma outra direção?” – Peter Pal Pelbart, O Avesso do Niilismo, p. 36

A vida esgotada é nosso campo de batalha. Este é o afeto dominante de nossos tempos. Queremos voltar a sentir! Somente assim abriremos novas possibilidades. Precisamos sacudir a poeira, alongar as juntas enferrujadas, desenterrar os no jardim. Existem partes esquecidas de nós mesmos, cheias de teias de aranha. Existem espaços de nós e do mundo que foram soterrados. Mas o esgotamento é o avesso do avesso, é a carne viva que se mostra, é o nervo dá uma pontada, o pulso ainda pulsa…

O esgotamento de nós é ao mesmo tempo o esgotamento deste mundo que se apresenta! Este mundo consome vorazmente tudo que lhe cai nas redes não percebe, mas consome a si mesmo no processo. Este modo de vida que diz sim a sua própria servidão, que descansa para ser explorado melhor no dia seguinte, dissolve sua própria condição de existência ao chegar no limite de si mesmo, chegar na borda e atravessar um limite. É a realidade como um todo que se esgota e se racha! As fissuras causam barulhos assustadores, desesperadores. Estado de completo desamparo!

A reação catastrófica, que no homem se manifesta como angústia, não seria o fim, porém a condição para um novo começo” – Peter Pal Pelbart, O Avesso do Niilismo, p. 41

-Artem Bryl

O esgotamento é a condição do novo, quando a repetição se anula e permite a diferença brotar. Do fundo do esgotamento, para além das possibilidades visíveis, nasce aquilo que ainda não conhecemos. O tolerável torna-se intolerável. Do esgotamento nasce o impossível! Do fim de tudo que conhecemos nasce o que ainda não sabemos, aquilo que ainda não temos palavras para descrever! A face da existência se rasga, as máscaras caem, vem à superfície o anômalo, o inefável.

Não é o futuro, nem o sonho, nem o ideal, nem o projeto perfeito, porém as forças em vias de redesenharem o real” – Peter Pal Pelbart, O Avesso do Niilismo, p. 49

É aqui que queremos estar! É este o momento que esperávamos ansiosamente! Onde estão as linhas de fuga para fazer fugir o estado de profundo esgotamento? Com certeza para além de qualquer esperança e medo! Estamos à espreita, observando cuidadosamente. Nosso objetivo é dos escombros da sensibilidade esgotada encontrar um novo modo micropolítico de afetar e ser afetado. É do esgotamento dos possíveis que brota o impossível.

Sabemos que o diagnóstico é ruim, quase apocalíptico, diríamos, mas isso não significa o fim. Apenas o impotente vê o fim de um ciclo como o fim da existência, isso porque sua existência é limitada demais para ver além da rebentação. Precisamos estar preparados para a dor, claro, mas toda realidade que se amplia comporta uma quantidade aceitável de dor. O esgotamento pode ser a partida do ser dentro da própria existência.  Partimos em uma direção desconhecida porque estamos cansados de ser nós mesmos. Mas não queremos nos suicidar e nem explodir o mundo, queremos transvalorar a existência! Nós estamos plenos de uma Grande Saúde, temos a nosso dispor uma variedade de perspectivas. Sabemos nadar em águas turbulentas, mas não sabemos o que seremos ao vencer a rebentação.

Não podemos mais tomar o ser humano como algo dado, Foucault inclusive anunciou sua morte décadas atrás! Aliás, a angústia do homem era exatamente essa sua impossibilidade de reatualização, ele precisava morrer. Por isso precisamos reativar nossa imaginação política, nossa crença neste mundo, encontrar brechas onde sopre ar fresco. Em vez de uma outra política, devemos procurar uma política outra. A crise da subjetividade é também a crise da representação.

Impossível? De modo algum! O somos transbordantes! Ávidos por novas conexões! Escapamos das disciplinas e dos controles vazando, escapulindo, prestidigitando! Há uma Ética dos Devires que dribla todo esgotamento! Um excesso que vibra com suas estratégias. A potência não pede passagem, ela não pede permissão, ela abre caminhos, pacientemente como a água furando a pedra, ou abruptamente, como o magma explodindo uma montanha.

O esgotamento é o chamamento da existência clamando por novas formas de vida. O que pode o além-do-homem se não criar também um para além-de-si, escavar este mundo e a si mesmo? Aquilo que se esgota abre espaço para a criação! Somos um excesso que quer reinventar conexões. Há vacúolos de devir: a terra está fértil novamente, o vento sopra, o fogo esquenta, o rio volta a fluir, ele já não é mais o mesmo, mas nós também não.

Trata-se de uma redistribuição dos afetos que redesenha a fronteira entre o que se deseja e o que não se tolera mais. Ora, não se poderia usar esse critério igualmente para diferenciar as formas de vida? Uma vida não poderia ser definida também pelo que deseja e pelo que recusa, pelo que a atrai e o que lhe repugna?” – Peter Pal Pelbart, O Avesso do Niilismo, p. 412

Texto da série: Afetos (bio)Políticos

Escrito por Rafael Trindade

Artesão de mim, habito a superfície da pele.

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