Mas tampouco deve faltar à imagem de Apolo aquela linha delicada que a imagem onírica não pode ultrapassar, a fim de não atuar de um modo patológico, pois do contrário a aparência nos enganaria como realidade grosseira: isto é, aquela limitação mensurada, aquela liberdade em face das emoções mais selvagens, aquela sapiente tranquilidade do deus plasmador. Seu olho deve ser ‘solar’, em conformidade com a sua origem; mesmo quando mira colérico e mal-humorado, paira sobre ele a consagração da bela aparência” – Nietzsche, O Nascimento da Tragédia, §1

Nietzsche se refere a Apolo como uma força ao mesmo tempo metafísica e fisiopsicológica. Uma das maneiras da realidade apresentar-se, uma de suas possíveis manifestações, mas ao mesmo tempo uma modo de sentir e habitar o mundo. Apolo é um dos deuses mais admirados pelo povo heleno, filho de Zeus, digno de grande exaltação e respeito. Sua figura representa o deus da luz, com um brilho natural eternamente jovem. Um deus de harmonia e ordem.

Apolo é o deus das formas, das imagens oníricas, patrono das artes plásticas: da escultura, da música, da pintura, da poesia épica. Podemos vê-lo na Ilíada, de Homero, tocando harmoniosos acordes com sua lira; outro objeto com o qual podemos encontrá-lo é o arco, cujas flechas sempre acertavam certeiramente o alvo. Mas seu caráter é pacificador e ético, uma divindade de medidas e proporções. Apolo é o deus da bela individualidade, com contornos bem definidos, sempre jovem, como o sol, que nunca envelhece.

Por isso as forças apolíneas são frequentemente associadas à ideia de representação. Poderíamos fazer a distinção Fenômeno/Coisa-em-si kantiana ou Representação/Vontade schopenhauriana. Mas seguindo esta linha estaríamos nos afastando da concepção nietzschiana. Apolo é, para o autor de Zaratustra, uma das perspectivas que a realidade assume, sua face mais resplandecente, bela, bem talhada. A vida é um sonho? Ora, não paremos de sonhar então! A força transfiguradora de Apolo traz belas medidas para a existência, gerando admiração e espanto.

Esse endeusamento da individuação, quando pensado sobretudo como imperativo e prescritivo, só conhece uma lei, o indivíduo, isto é, a observação das fronteiras do indivíduo, a medida no sentido helênico. Apolo, como divindade ética, exige dos seus a medida e, para poder observá-la, o autoconhecimento. E assim corre, ao lado da necessidade estética da beleza, a exigência do ‘Conhece-te a ti mesmo‘ e ‘Nada em demasia‘, ao passo que a auto-exaltação e o desmedido eram considerados como os demônios propriamente hostis da esfera apolínea” – Nietzsche, O Nascimento da Tragédia, §4

Apolo transfigura a existência com sua força modeladora, enfim, torna-a nobre, harmoniosa, dando medidas e proporções. Os horrores da existência tornam-se suportáveis, aceitáveis, até mesmo dignos de serem amados. Eis as forças apolíneas e a razão de suas máximas, “Conhece-te a ti mesmo” e “Nada em demasia”: transfigurar a realidade, tornando-a bela. Esta é a sua função, fazer da vida algo de atraente, elegante, admirável, sem maldizê-la, sem negá-la. Toda a realidade se torna divina aos olhos de Apolo, mesmo os aspectos mais difíceis de serem encarados.

Eis a bela individualidade, aquele capaz de valorar, encontrar a boa distância. Uma medida que proteja da desagregação, da perda de si mesmo. Uma simetria que proteja e exulte. Mesmo que o mundo seja desmedida completa, a bela individualidade apolínea funda limites, harmoniza, torna distinto. Por mais fluidas que sejam as aparências, elas precisam ser estabelecidas. Recorte do real, para dar conta dele. Potência do falso, porque Apolo é a resplandecência das forças oníricas.

Nietzsche se utiliza do deus grego para falar de uma vontade que se perpetua, se afirma, insiste em continuar existindo. Uma força imperativa que não se permite ser quebrado pelas forças externas! Viver de modo glorioso, sublime, este é o objetivo. Apolo é uma das ferramentas que os gregos dispunham para dar conta da vida. Sob sua influência, ninguém elevará a voz contra a existência. Nem mesmo a dor é argumento contra ela. A bela individualidade não diz “a vida é bela, mas dói”, como se esta tivesse algum defeito a ser corrigido. Muito pelo contrário, apenas a saudável individualidade apolínea pode dizer “A vida é bela e dói” (síntese conectiva). Tudo bem, podemos dar conta disso.

Serena alegria encontrada! Uma nova concepção não cristã de individualidade que não precisa de outros mundos para justificar este; uma concepção de individualidade que não acusa; uma concepção de individualidade que não é usada para enfraquecer o ser humano, muito menos culpá-lo do que quer que seja.

Encontrar no mundo constância, coerência e conveniência. Isso é para poucos. Pular de cabeça sem se despedaçar no processo, isso é mais raro ainda. Apenas uma via apolínea seria capaz disso. Como aceitar o trágico sem ser despedaçado por ele? É a brilhante e resplandecente força apolínea que pode oferecer uma garantia, dando ferramentas para enfrentarmos a desmedida sem sermos engolidos por ela.

Temos então a bela individualidade que os gregos tanto prezavam. Equilíbrio conquistado no desequilíbrio. Canalização dos fluxos. E para enfrentar a realidade é preciso instituir valores, é necessário esculpir a si próprio, um trabalho árduo, mas recompensador. Vemos como, para Nietzsche, o dionisíaco pede pelo complemento apolíneo. A bela figura que recorta o caos e é capaz de criar a partir dele. É exatamente disso que os gregos falavam por exemplo quando exigiam o cuidado de si. Ferramentas capazes de estabelecer uma ética-estética.

Com Apolo, a aparência se redime, pois toma uma bela forma, potente, transformadora, imponente. Uma bele individualidade em constante busca por superação. Ao longo da obra de Nietzsche, estas forças foram aos poucos deixadas em segundo plano. Mas entendemos que isso acontece apenas nominalmente. A força conceitual apolínea permanece na opulenta e triunfante figura do além-do-homem. Sim, o além-do-homem é o tipo que exerce a função de uma imagem selecionadora. Além de seu aspecto claramente estético. Uma potência absolutamente ateia e horizontal. Radicalmente imanente! Uma força que não dobra os joelhos diante do niilismo.

Afirmar a existência sem submeter-se a ela, sem ser levado, tragado, por suas forças. O além-do-homem é o tipo capaz de viver de modo trágico, casando apolíneo e dionisíaco. Uma vida de excessos, uma ética dispendiosa. O além-do-homem não possui nem deus nem mestre, ele cria, ele legisla, ele institui valores. Não há nada além da realidade que possa submetê-lo. Ele quer edificar a si mesmo, como a mais bela escultura que puder talhar.

O próprio nome deveria ser autoexplicativo. Além, afastado, distante do homem porque para lá de tudo que o constitui: moral, religião, antigos valores metafísicos/teológicos. Mas tudo isso sem cair no niilismo. O Além-do-Homem afirma as forças da existência, que tanto criam como destroem, mas se coloca numa posição agônica em relação a elas. A eternidade do vir-a-ser assume a ativa forma do além-do-homem. Mesmo sabendo de sua derrocada, existe prazer na luta. Ele preza o embate, o enfrentamento, é dele que emergem seus valores. Esta postura é muito diferente do niilismo passivo que afirma o caos sem enfrentá-lo.

Chariot of Apollo, Odilon Redon

Lembramos do equilibrista de Zaratustra, logo na primeira parte da obra. Ele anda pela corda bamba, enfrentando os perigos, claro, mas não sem uma vara, que traz equilíbrio para que ele possa superar-se a cada passo. Apolo representa a coerência e a constância que permitem enfrentar o espírito de gravidade! A virtude, até mesmo a razão é instrumento nesta empreitada.

Não é alguém que se aproxima cada vez mais de um modelo externo, imposto por meio da autoridade; muito pelo contrário, é a busca constante e sustentada de tornar-se quem se é. O traço apolíneo no além-do-homem é sua busca pela bela individualidade, pelo belo traço, o esforço estético de auto-superação. Luta contra a desmedida? Não! Mas impor uma medida em meio ao caos! Uma proporção que dê conta! Uma liberdade consistente! Não se nega Dionísio, não se nega o caos, não se nega o sofrimento. Mas há proporções necessárias, medidas indispensáveis, moderações impreteríveis, prudências basilares, correlações obrigatórias.

A figura de Apolo entificam as forças de afirmação neste mundo que procuram por constância, coerência e conveniência para enfrentá-la. Foucault expressou bem estas edificação do povo heleno em suas obras sobre a sexualidade. O domínio de si e a ponderação são elogiadas porque protegem a bela individualidade do caos destruidor. O além-do-homem simboliza as forças apolíneas capazes de suportar o eterno retorno. É Apolo quem torna suportável a visão trágica do mundo.

O trágico exige coragem, a visão de mundo dionisíaca pode ser desagregadora, inclemente. Temos as forças apolíneas ao nosso lado, elas são robustas e saudáveis, elas impedem de cairmos em campo de batalha. Na figura do além-do-homem, o homem medíocre pode ser superado, as forças podem ampliar-se, os valores podem transvalorar-se.

Eis o verdadeiro desígnio artístico de Apolo: sob o seu nome reunimos todas aquelas inumeráveis ilusões da bela aparência que, a cada instante, tornam de algum modo a existência digna de ser vivida e impelem a viver o momento seguinte” – Nietzsche, O Nascimento da Tragédia, § 25

Escrito por Rafael Trindade

Artesão de mim, habito a superfície da pele.

2 comentários

  1. Às vezes, eu penso que as pessoas que vivem na marginalidade têm esta coragem de jogar-se na vida. Conheci um ex-presidiário que andava em cadeira de rodas, devido a um tiro que levou nas costas, enquanto escalava o muro do presídio, tentando fugir. Como alguém dá as costas para a possibilidade de um tiro desta forma? Fiquei pensando nisso, e agora com a leitura deste texto, me vem esta reflexão. Foi um exagero necessário, eu acho, pois fazia parte da batalha dele para delinear-se em suas medidas como humano. Eu acho.

    Abraços,
    Vera.

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  2. A proposta do Apolíneo-Dionísico é uma batalha enorme para quem já conhece, ou foi “iniciado”, o que dirá para alguém que não conhece, quando atualmente o que vemos é o contrário? O que não faltam são gurus e cartilhas da vida boa, prometendo vidas sem sofrimento. Como estimular alguém a pensar quando dizem que não é necessário, basta comprar isso, viajar para não sei onde, se comportar de tal forma, se relacionar de determinada maneira?

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