Em todos os tempos, os homens mais sábios fizeram o mesmo julgamento da vida: ela não vale nada” – Nietzsche, O Crepúsculo dos Ídolos, O Problema de Sócrates, §1

Se Nietzsche pudesse fazer uma única pergunta para Sócrates, provavelmente diria: “Oh, Sócrates, responda-me: por que você acha que a vida não vale a pena?”. É possível chegar um momento em que não mais se estima a própria existência, em que se prefere, talvez… outra coisa? O remédio socrático para a vida é a razão. E para Nietzsche, quando falta vida, sobra racionalidade. Mas a existência pode ser estimada por nós?

‘Apenas por instinto’: com esta expressão tocamos o coração e o centro da tendência socrática. Com ela o socratismo condena tanto a arte vigente quanto a ética vigente: para onde dirige seu olhar inquisitor, lá ele vê a falta de entendimento e a força da ilusão, e conclui dessa falta que o que existe é intrinsecamente pervertido e repudiável: ele, sozinho, trazendo no rosto a expressão do desdém e da altivez, faz sua aparição como o precursor de um cultura, arte e moral de espécie totalmente outra” – Nietzsche, O Nascimento da Tragédia, §13

escultura de Sócrates e Alcibíades

Sócrates traz no bojo de sua dialética a prerrogativa de inteligibilidade racional para tudo! A força do pensamento socrático está na razão que procura estender seus tentáculos para todos os lado. Tudo pode e deve ser conhecido, apartado das paixões e analisado friamente. O sábio seria aquele então que se afasta do pensamento por instinto e, atestando sua ignorância, procura o conhecimento racional. Acusando o instinto grego, Sócrates procura por medidas que, ao cabo, limitam, fecham e obstruem a vida.

Desaparecem as forças instintivas como forma de conhecimento, desaparece o conhecimento prático dos pré-socráticos. O pensamento se subordina ao racional, ao consciente. Mais vale o mundo das ideias do que o rio que corre. “Só o sabedor é virtuoso”, “tudo deve ser inteligível para ser belo”, estas são as máximas socráticas. O Bem, o Belo e o Verdadeiro! Não há mais espaço para o desmedido, o monstruoso, o desregrado. A valorização da razão coloniza o real para… melhorá-lo.

Tanto Sócrates na filosofia quanto Eurípedes na tragédia. O preceito é sempre um: a vida está errada, torta, ela é falha, um perpétuo engano. A existência passa a ser reconhecida como um problema a ser resolvido, endireitada. Essa vontade de racionalizar o irracionalizável, de corrigir o imperfeito. Eurípedes e Sócrates deram fim à visão trágica da existência e à própria tragédia em si. Com Sócrates nasce o “homem teórico”, pronto para endireitar a existência.

A partir desse único ponto acreditava Sócrates ter de corrigir a existência: ele, sozinho, trazendo no rosto a expressão de desdém e da altivez, faz sua aparição, como o precursor de uma cultura, arte e moral de espécie totalmente outra, em um mundo que, para nós, haveria de ser a maior das felicidades simplesmente vislumbrar, com respeito e terror” – Nietzsche, Nascimento da Tragédia, §13

Aqui vemos o otimismo da razão, uma vontade de “melhorar o mundo”, torná-lo superior, curá-lo das mazelas. Nietzsche diz que este homem racional confunde melhorar com domesticar. De agora em diante, apenas a razão poderá conduzir o homem, e ela será inflexível com tudo que encontrar de errado, canhestro, imperfeito! Não há mais espaço para qualquer outra forma de compreensão e experimentação da existência.

Onde ficam as forças dionisíacas e apolíneas no meio disso tudo? Ora, o deus da bela individualidade, das artes plásticas, digno de uma escultura de si, será escravizado pelas forças reativas da razão, domado por contornos demasiadamente rígidos, intransigentes, engessados. Apolo será preso em uma crisálida, em estado latente de captura. O deus que carrega consigo um arco, não lançará mais sua flecha, sua lira não mais emitirá som algum. Platão inclusive afirmará que os poetas não terão vez na república, porque fazem cópias de cópias, o que é imperdoável. A arte, sendo uma imitação da realidade aparente, seria inferior à razão que teria acesso direto ao mundo das ideias.

Dionísio será igualmente negado, amansado, obstruído, e com ainda mais veemência. As forças racionais se esforçarão para encontrar por atrás do caos dionisíaco as ideias imóveis, os conceitos eternos, um demiurgo que a tudo rege. Não há espaço para o imprevisto e o inesperado, eles são perigosos demais. Se este mundo é o caos e a ilusão, então deve haver algo de verdadeiro por trás dele, um outro mundo, de harmonias e perfeições. É isso que Sócrates cria ao maldizer a realidade, todo o universo se torna menor com a razão ditatorial.

O ódio ao ‘mundo’, a maldição dos afetos, o medo à beleza e à sensualidade, um lado-de-lá inventado para difamar melhor o lado-de-cá, no fundo um anseio pelo nada, pelo fim, pelo repouso” – Nietzsche, O nascimento da Tragédia, prólogo, §5

Para Nietzsche, esta concepção se refletirá diretamente na concepção cristã do mundo e no modo de vida europeu. De Platão a São Tomas de Aquino, passando por Aristóteles, Plotino, Sto Agostinho, vemos uma pensamento cansado da existência! O cristianismo cria ferramentas para afastar-se dela, há em cada um de seus teóricos um fastio, um tédio, uma impotência. Com Sócrates nasce o disfarce perfeito: fala-se de outro mundo para melhor maldizer este, fala-se de um céu para desprezar a terra. A luta contra Sócrates se tornará posteriormente, na obra nietzschiana, na luta contra os valores cristãos. 

O fanatismo com que toda a reflexão grega se lança à racionalidade mostra uma situação de emergência: estavam em perigo, tinham uma única escolha: sucumbir ou – ser absurdamente racionais…” – Nietzsche, O Crepúsculo dos Ídolos, O Problema de Sócrates, §10

Vemos o pensamento socrático pouco a pouco contaminar toda a cultura grega. Sócrates trará ideais de pureza que prometem a felicidade e evitam o sofrimento. Mas esta oposição foi extremamente prejudicial para os gregos, que possuíam uma concepção completamente diferente da dor. Ele dirá “só se peca por ignorância”. O erro se torna sinônimo de ignorância, criando uma relação que antes não existia. Mas o que não deve existir, dirá Sócrates, é o erro, a ilusão, porque esta é fonte de sofrimento. Mas quem disse que alegria se opõe à dor?

“O virtuoso é o mais feliz”, dirá Sócrates, esquecendo-se que existe uma felicidade que provém às custas de muita dor e sofrimento, muito sangue e suor.  Se a vida necessita de crescimento e luta, então ela invariavelmente está afundada também na dor e no sofrimento. Mas há dois tipos de sofredores: “abundância de vida” e “empobrecimento de vida”. “Era melhor não ter nascido” e “É uma pena isto durar tão pouco”.

O ser vale como santo o bastante para justificar ainda um monstruosidade de sofrimento. O homem trágico afirma ainda o mais acerbo sofrer: ele é forte, pleno, divinizante o bastante para isso” – Nietzsche, Fragmentos Póstumos

Há portanto dois tipos de filósofos: Filósofo Trágico e Filósofo do Conhecimento Desesperado. Sócrates claramente pertence ao segundo grupo. O trágico consiste em utilizar-se do conhecimento em proveito da vida, mas para o surgimento de novas vidas, o que pode incluir, em determinados momentos, até mesmo a ilusão. Ou melhor, tudo é ilusão, artifício, perspectiva! Mas o filósofo do conhecimento desesperado quer o saber a todo preço, a verdade como meio para conservar sua vida fraca, como meio de proteção e enclausuramento. Encontrar uma racionalidade por trás das forças em agonismo. O socratismo diz: “Isto está errado, as coisas não deveriam ser assim”, e busca corrigir a natureza contraditória das pulsões, constrangendo-as e limitado-as.

A Racionalidade usada contra o instinto! Sócrates foi a doença dentro da saúde grega. Ele não compreendeu a tragédia de modo que não compreendeu a tragicidade da existência. Mundo real e mundo das ideias, vida e conhecimento. Espera-se que uma verdade maior venha a justificar a vida e seus sofrimentos. Com o modo de vida socrático/racional espera-se a verdade vir de fora para justificar esta vida. Já com o conhecimento trágico, a vida já está justificada em si mesma, ela não possui um sentido externo e portanto carrega consigo seus próprios valores.

Schopenhauer, Wagner são os maiores representantes do Conhecimento Desesperado nos tempos de Nietzsche. Os dois possuem valores de existências doentes incapazes de lidar com a realidade. Herdeiros de Sócrates, ambos procuraram conservar a vida em seu estado mínimo, frágil, em uma palavra: doente. Tornaram Apolo escravo do ressentimento e da má-consciência, domaram Dionísio, encontraram saídas reativas para o sofrimento do mundo. Uma vontade de se esconder, de fugir, de contrair-se.

O dizer Sim à vida, mesmo em seus problemas mais duros e estranhos; a vontade de vida, alegrando-se da própria inesgotabilidade no sacrifício de seus mais elevados tipos – a isso chamei dionisíaco, isto entendi como a ponte para a psicologia do poeta trágico” – Nietzsche, Ecce Homo, O nascimento da tragédia, §1-3

Nietzsche se recusa a fazer parte deste grupo de pessimistas! Por isso procura ansiosamente por outros caminhos. A aceitação da tragédia necessita de saúde, força para enfrentá-la, coragem para encará-la, tudo isso sabendo antecipadamente do resultado final. Será que vale a pena?

Na tragédia, pode-se viver sem a necessidade de explicações transcendentes para a vida, mas ao mesmo tempo não se tem as mentiras reconfortantes dos padres e teólogos. Nietzsche não quer caminhos fáceis, por isso se considera um pré-socrático, simplesmente porque nada de bom aconteceu depois do advento da racionalidade socrática e sua dialética. Nela, o conhecimento virou-se contra o instinto. Mas vemos bem agora como esta interpretação não passa do sintoma de um homem doente, sim, doente da própria vida!

Por postular um mundo superior ao nosso, esta realidade se tornou menos importante. A visão trágica da existência perece quando um mundo outro é imputado como verdadeiro, um mundo cujo acesso se submete à razão e se aparta dos sentidos. A verdade artística é perspectiva, móvel, efêmera, falsa. Diferente da verdade metafísica que arroga encontrar o que há de fixo no caos. Nietzsche sabe o que Sócrates não conheceu por medo: o mundo é um mar de forças. Queremos encontrar esta potência de vida que os gregos tinham. O impulso trágico move-se dentro da eternidade temporal, este mundo, e seu prazer completo em existir aqui e agora.

É preciso calçar luvas para ler Sócrates e escutar seus conselhos de vida e de morte. Dizemos isso porque é claro para nós o quanto o filósofo antigo estava doente da própria vida, cansado da existência e aceitou tomar a cicuta somente para curar-se. É perigoso perder-se em seu otimismo da razão e sua voracidade pela verdade a qualquer custo. O saber trágico foi enganado pela dialética e pelo mundo das ideias. Mas Nietzsche opõem Apolo e Dionísio contra Sócrates, para encontrar caminhos ético-estéticos para a existência, sem apelar para outras realidades.

Jacques-Louis David – A morte de Sócrates

Escrito por Rafael Trindade

"Artesão de mim, habito a superfície da pele" Atendimento Psicológico São Paulo - SP Contato: (11) 99113-3664

5 comentários

  1. Estou lendo Sócrates e já li quase tudo de Nietzsche. Porém, compreender é outra coisa. Creio atualmente que existe Ser no devir. E o mal é uma realidade não criada.

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