O jovem sorri na tela enquanto ela dura” – Deleuze & Guattari, O que é a Filosofia?, p. 193

Como vimos em textos anteriores, Filosofia e Ciência possuem muito em comum na maneira como encaram o Caos. O mesmo vale para a Arte. Se o que define a Filosofia é a criação de Conceitos, e o que define a Ciência é a criação de Funções, então o que seria a Arte? Afinal, o que a Arte cria?

O que se conserva, a coisa ou a obra de arte, é um bloco de sensações, insto é, um composto de perceptos e afectos” – Deleuze & Guattari, O que é a Filosofia?, p. 193

Assim como a Ciência e a Filosofia, a Arte viaja até o seio do Caos para retirar dele alguma coisa. Por isso podemos defini-la claramente: a arte é criação afetos e perceptos. É para isso que ela serve. Toda obra de Arte é simplesmente um ser de sensações que se sustenta por si, que possui consistência própria.

A arte luta com o Caos, mas para torná-lo sensível” – Deleuze & Guattari, O que é a Filosofia?, p. 241

A Arte mergulha no Caos para extrair obras, monumentos, que eternizem o virtual, os acontecimentos, as forças que nos constituem. De alguma maneira, é um pequeno pedaço da eternidade que está contido em toda obra de arte, em toda criação singular. Qualquer artista, seja um escultor, pintor, escritor, dramaturgo, cineasta, procura recortar do mundo uma possibilidade através de sua obra.

A tela em branco assusta o pintor, o intimida, porque nela ele vê o infinito. O mesmo vale para o escritor que se depara com a folha em branco, um livro limita o ilimitado. É o caos, é universo todo que se apresenta neles de uma só vez. Cada palavra, cada pincelada, recorta o caos ao redor, lhe dá um contorno, uma forma, um caminho. O artista extrai afetos do universo ao seu redor. A arte cria um finito que restitui o infinito, nos coloca no seio dele.

O artista é aquele que eterniza sensações, que colhe da existência os afetos necessários para compor sua obra, que transforma em arte este encontro entre seu corpo e o mundo. Então, quando a obra está terminada, ela perdura… ela vira um monumento a determinadas sensações, uma mensagem codificada: eu estive aqui, foi isso que eu senti.

É de toda a arte que seria preciso dizer: o artista é mostrador de afectos, inventor de afectos, criador de afectos, em relação com os perceptos ou visões que nos dá” – Deleuze & Guattari, O que é a Filosofia?, p. 207

Quanto à Arte ser uma prática de experimentação, disso não há dúvidas. Mas não se faz arte de qualquer jeito, é preciso aqui quebrar com qualquer espontaneísmo já tão naturalizado entre os artistas. A Arte exige do artista um trabalho árduo, muito sério, tanto quanto do filósofo ou do cientista. Enfim, dá muito trabalho ser espontâneo.

Eis o trabalho do artista, criar um bloco de sensações que possua consistência. Não se faz isso da noite para o dia e muito menos em um ato de inspiração. É preciso transpiração, cuidado, trabalho, atenção, insistência. Nós assim o definimos: consistência. É preciso que a obra flua em seu meio, que haja uma relação entre suas partes. Uma obra de arte é encorpada, mesmo que pequena ou curta, ela diz algo, passa algo. Ela possui densidade e textura.

O artista possui essa preocupação. Um músico se debruçará sobre os acordes e a melodia até sentir que atingiu um ponto que lhe agrada, que lhe faz sentir algo. Uma nota a mais ou a menos pode fazer toda a diferença nesse sentido! Aumentar o andamento, trocar um instrumento por outro para obter um timbre diferente. Tudo é tarefa do artista! Não basta pegar o instrumento nas mãos, é absolutamente necessário saber de harmonia, escalas, arranjos.

Um artista procura adquirir sempre mais ferramentas para criar sensações, afetos, perceptos. Para aumentar seu campo de atuação, o escritor estuda gramática, aprende outras línguas, seu material estético são as palavras, a sintaxe, a ortografia. Por que ler os clássicos? Ora, para obter sensações novas, sentir novos afetos, encontrar novos mundos, mergulhar em outras realidades, dobrar-se e desdobrar-se. O que se busca são apenas blocos de sensações, isso fica mais claro com a música instrumental, que é pouco figurativa e representativa. Buscamos blocos de sensações onde mergulharmos.

Pintamos, esculpimos, compomos, escrevemos com sensações. Pintamos, esculpimos, compomos, escrevemos sensações” – Deleuze & Guattari, O que é a Filosofia?, p. 196

E após o trabalho duro, exigente, que a arte exige do artista, nasce uma obra. Ela está viva, ela carrega parte do infinito consigo. A obra é capaz de manter-se em pé sozinha, andar com suas próprias pernas, ela não é mais daquele que a criou, pertence ao mundo, porta a eternidade em si.

O artista cria blocos de perceptos e de afectos, mas a única lei da criação é que o composto deve ficar de pé sozinho. O mais difícil é que o artista o faça manter-se de pé sozinho” – Deleuze & Guattari, O que é a Filosofia?, p. 194

Para isso, o que primeiramente a Arte precisa é de um plano de composição, ou seja, traçar um plano através dos quais os afectos possam ser retirados. Um plano de composição onde tudo se torne saturado, onde algo se passe, onde um fluxo nos atravesse. Sem um plano de composição, nada poderá ocorrer, é preciso encontrá-lo, criá-lo e depois habitá-lo.

Isso nos remete diretamente ao Plano de Imanência, no qual se cria conceitos para expressar estados vividos e o Plano de Referência, da Ciência, que cria Funções para estados das coisas. A Arte também precisa de um plano, mas que gere sensações; este plano pode aproximar-se de um momento histórico, um lugar social, mas não se confunde com ele. A arte não se confunde com a história.

– Simon Kenny

Dentro do plano de composição encontramos o Personagem Estético, é ele quem habita o plano de composição. Seja o rosto na gravura, seja o personagem principal de um livro, seja a amante de uma poesia. Às vezes o Personagem Estético é heterônimo do autor, para que o mesmo possa dizer alguma coisa, mas outras vezes, é necessário que o próprio personagem estético viva algo que o autor não pode, não consegue ou não tem coragem.

O que vale para a Filosofia, ao trabalhar com Personagens Conceituais e para a Ciência, que necessita de personagens referenciais, também vale para a Arte. Alguns destes personagens, inclusive, muito se aproximam da Filosofia, ao trazer consigo certos conceitos filosóficos e habitar ao mesmo tempo o plano de Imanência. Que melhor personagem híbrido que Zaratustra, ao mesmo tempo poético e filosófico? Tão criador de conceitos quanto de afectos.

Dentro deste plano, habitado por personagens conceituais, o artista pode extrair afectos. É assim que uma obra nos faz entrar em devir. Toda obra de arte é um convite para deixarmos de ser nós mesmos, mesmo que por um instante. Este convite é feito de forma tímida: “olhe, aqui está a minha obra”. Mas, caso a obra possua a consistência de que falamos, então o mergulho será profundo, e ao retornarmos já não seremos mais os mesmos.

Nunca se sai de uma experiência dessas da mesma maneira! Este é o objetivo da arte, onde os afectos nos fazem diferir de nós mesmos. Então alguma coisa muda, algo noa superfície, no fundo, no entorno. O âmago do ser sobe para a borda e tudo se transforma. Fechar a um livro depois de se chegar à ultima página é como retornar para casa depois de uma grande aventura (veja aqui). Mesmo que nada tenha mudado, ele já é outro.

A leitura gera intensidades, a música era intensidades, a pintura gera intensidades, é essa a sua função. Um artista sempre acrescenta variedades ao mundo ele é o atleta da sensibilidade. Ele não comemora nem celebra o que passou, apenas transmite as sensações persistentes que encarnaram o acontecimento.

A obra de arte encarna o infinito, as forças se atualizam nela, dão-lhe um corpo. Mas este corpo mergulha e desaparece no que o revela: sensações. Por isso a arte não começa pelo corpo, ele é ainda muito frágil, ele não suporta o caos. A arte precisa começar pela casa, mas fazê-la vibrar sobre um fundo de forças apenas vislumbradas. Agenciamento, para que se passe alguma coisa.

Por isso não é fácil, por isso não é espontaneísmo, por isso exige prudência. O que o artista precisa antes de poder criar sensações é traçar um plano de composição e criar personagens estéticos. Está tudo amarrado! Tudo se faz junto! Não é brincadeira! Ou melhor, é a mais séria das brincadeiras! Caso contrário nos perdemos naquilo que a arte mais teme: os clichês. Por que? Ora, os clichês são a morte da Arte porque não se cria, se copia, não se inova, se reapresenta. A arte teme os clichês tanto quanto a Ciência teme as superstições e a Filosofia teme as discussões.

Por que? Simplesmente porque a Arte quer criar novos mundos, chamar por novos povos, explorar novos lugares, inventar novas sensações! De que serve a arte senão para criar sensações e nos transformar no processo? A Arte é revolucionária! Heterotópica, ela pede pelo que há de existir! Fora com todos os clichês, fora com o mesmo, fora com a repetição. A arte é criação de mundos possíveis de serem habitados por novas sensações.

A arte quer criar um finito que restitua o infinito: traça um plano de composição que carrega por sua vez monumentos ou sensações compostas, sob a ação de figuras estéticas” – Deleuze & Guattari, O que é a Filosofia?, p. 233

Texto da série: o que é a Filosofia?

– Simon Kenny

Escrito por Rafael Trindade

"Artesão de mim, habito a superfície da pele" Atendimento Psicológico São Paulo - SP Contato: (11) 99113-3664

9 comentários

  1. Este texto é de tirar o fôlego. O meu medo era que ele terminasse! Ele vai num crescente lirismo e cuidado enternecedores, que nem sei o que dizer!
    Lembro-me de ter lido algo tão intenso, no que se refere à definição, de Arte em – Retrato Oval – de Edgar Allan Poe.
    Há tempos que leio os textos aqui do blog, e sempre fico aguardando o próximo. Daí eu me pego preguiçosa por não querer ler os Filósofos diretamente para ampliar o que leio aqui. Mas hoje descobri o porquê desta minha “preguiça”, temo que os textos filosóficos originais, aqui tratados, não sejam de tanta delícia como é ler por aqui.
    Obrigada por tão belo texto!

    Curtido por 2 pessoas

  2. Rafael, sou muito grata pelos seus textos. A cada dia me encanto mais com o universo da Filosofia e sinto que sua escrita clara e interessante foi e está sendo um super canal para essa descoberta. Abraço.

    Curtido por 2 pessoas

  3. O outro texto que publicou sobre a arte, no qual aprendi sobre o conceito da arte, criar perceptos foi a melhor definição que já vi sobre arte, fiquei tão encabulado que quando fui fazer um trabalho na faculdade dei um jeito metê-lo no meio. Aliás estes textos só revigoram a minha alma de artista, mesmo eu não sendo talentoso e nem muito criativo, mas se algum dia eu conseguir transmitir para o mundo as minhas sensações já seria fantástico.

    Curtir

    1. *O outro texto que publicou sobre a arte, no qual aprendi sobre o conceito da arte, “criar perceptos” foi a melhor definição que já vi sobre arte, fiquei tão encabulado que quando fui fazer um trabalho na faculdade dei um jeito metê-lo no meio. Aliás estes textos só revigoram a minha alma de artista, mesmo eu não sendo talentoso e nem muito criativo, mas se algum dia eu conseguir transmitir para o mundo as minhas sensações já seria fantástico.

      Curtir

  4. Amei esse texto que fala sobre a arte.podemos nos espressar através da mesma já que ela transmite sensações.

    Curtir

  5. deleuze ja dizia “a arte é criação de afetos e perceptos”

    ou seja não depende de um orgão governamental /ou não, para definir a arte.
    toda forma de arte pode ser percebida por qualquer individuo.
    obviamente que sua forma de percepção pode ser alterada de acordo com suas experiencias, porem nada ira mudar o fato de que o objeto percebido artisticamente é considerado como arte
    logo podemos dizer que a percepção de arte parte do individuo e que o individuo ira se afetar pela obra independente de ser reconhecida pelo sistema (instituto) ou não

    parte do artista criar a obra que nos tras a percepção de suas afeições
    afeicoes estas que reprensenta as sensações absorvidas pelo mesmo
    e esta sensações são proveniente de tudo aquilo que lhe foi entregue durante sua passagem pela terra
    ou seja suas experiencias enquanto ser humano
    então podemos dizer que a arte acima de tudo e uma forma de eternalizar nossas experiancia como individuos na terra sendo ela aceita ou não pela sociade (levando em conta os parametros democraticos)

    ” A obra é capaz de manter-se em pé sozinha, andar com suas próprias pernas, ela não é mais daquele que a criou, pertence ao mundo, porta a eternidade em si.”

    apartir do momento em que se é externalizado as sensações do atista essa obra se torna unica incomparavel e tambem viva pois tras nela perceptos do individuo que a criou e cria afectos diferentes em quem as obeserva
    ou seja toda arte e “feita” por quem a produz mas também depende de quem as observa para se tornar “valida” (independe dos meios institucionais)

    “Fechar a um livro depois de se chegar à ultima página é como retornar para casa depois de uma grande aventura”

    isso só nos mostra que na percepção de deleuze a arte acima de tudo tem como papel de transformação do individuo através da catarse ou percepção autentica da obra

    “A arte teme os clichês tanto quanto a Ciência teme as superstições e a Filosofia teme as discussões.”

    “Arte quer criar novos mundos, chamar por novos povos, explorar novos lugares, inventar novas sensações!”

    “A arte é criação de mundos possíveis de serem habitados por novas sensações.”

    Curtir

  6. “O estabelecimento do valor passa por uma esfera que não é propriamente a esfera da valorização da arte, mas uma esfera de valorização econômica”, definiu o secretário do Ministério da Cultura, Afonso Luz.

    ou seja pode se entender que a valorização e/ou institucionalização da arte provem da industria que tem como sumo obejitivo alcançar grandes ganhos monetarios
    logos toda forma de regimentar e/ou institucionalizar a arte tem como objetivo o ganho material/monetario

    a institucionalização acaba rendendo-se ao capitalismo
    sendo assim mais um meio de introduzir a arte nas conjunturas capitalistas
    esquecendo-se/menospresando/ignorando assim de toda a importancia que a arte acareta para o ser humano como individuo e constructo historico

    a institucionalização da arte leva o individuo a perceber a arte de uma forma mecanica aonde se torna nescesario a aprovação de um “orgão estatal/nacional” pra que o objeto seja definido como arte
    aprovanção essa que se da apenas mediante a comprovações que o obejeto trás todos e quaisquer parametros nescesario para o dominio e difusão da industria cultural

    concluo assim meu pensamento afirmando que toda forma de institucionalização da arte provem de um rendimento a industria cultural
    trasformando a criatividade do individuo em produto
    e criando parametros institucionais/capitalista para criação da arte
    fazendo assim com que toda forma de se expresar artiscamnete só seja valida quando aceita por um orgão institucionalizado
    o que coloca o individuo em uma possição de subordinação ao capital
    que implica em deixar de lado toda forma de arte não aceita pela “sociedade capitalista” e manter aquilo que de ante mão pode prover lucro

    Curtir

  7. “O que é Universalização:
    S.F. Universalizar, generalizar, tornar único.”

    “O que é Generalização:
    S.F. Simplificação, disseminação, difusão, vulgarização.
    Afirmação geral que não se aplica a todos os casos que se pretende abranger.”

    se a generalisação é afirmar algo geral que não se aplica a todos os casos
    e a universalização tem como uma das intepretaçãoes “GENERALIZAR”(tornar-se único)
    logo toda forma de generalizar tem uma particula universal e toda forma de univerlizar tende a partir de um presuposto generalista

    tendo em vista esse pensamento podemos disser que a filosofia trava constantemente uma gurra interna ja que seu principio é trazer conceitos universais e dispensar toda e qualquer forma de generalização

    Curtir

Comente aqui!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s