Vimos como o absurdo é um sentimento, um estranhamento do homem divorciado do mundo. Uma incompatibilidade entre a razão de unificação – que é nostálgica de uma unidade – e o mundo – ilógico e caótico. Falávamos sobre as três únicas posturas possíveis: o suicídio, a esperança ou a relação direta com o absurdo. Para Camus, é desta última que resulta a única possibilidade de se pensar uma existência alegre. Mas não costuma ser a primeira escolha, outros homens pensaram de outras maneiras. Precisamos falar sobre o suicídio…

É difícil fixar o instante preciso, o percurso sutil em que o espírito apostou na morte, é mais fácil extrair do gesto em si as consequências que ele supõe. Matar-se, em certo sentido, e como no melodrama, é confessar. Confessar que fomos superados pela vida ou que não a entendemos” – Camus, O Mito de Sísifo, p.19

Morrer por vontade própria supõe que se reconheceu o caráter mais ridículo da existência: não há motivo. Todo absurdo começa com nada! Vemos apenas um pequeno buraco até perceber que já estamos dentro dele. Mas a aposta na morte revela algo da vida, algo de que não podemos nunca nos esquecer: o sentido se faz dentro dela, a partir dela, junto dela. Quando somos ultrapassados, quando a ausência completa de sentido bate à porta, quando a inutilidade do sofrimento sopra aos ouvidos, quando a insensata agitação cotidiana nos empurra para lá e para cá, então consideramos o suicídio.

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Marc Perez

Camus diria, todo homem sensato já pensou em se matar. Claro! Mas com Espinosa, aprendemos a dizer, em nada pensa menos o sábio do que na morte. É possível conciliar esses pensamentos? Pensamos que sim. Pensamos que a aposta na vida depende da noção de absurdo para que se torne ainda maior. O suicídio é opção apenas para quem foi atropelado pela vida, para quem não conseguiu acompanhar suas velocidades infinitas! É difícil acreditar numa existência sem sentido, mas é a única opção. Não há o que perder, morreremos mesmo assim. O absurdo nos faz tomar parte numa vida que resiste à morte, que combate todo rebaixamento, que se revolta com toda lógica de morte.

Considerar a morte é um exercício sadio, nos faz sentir vivos! O absurdo nos coloca diante do mundo. O que significa encarar a morte de frente? Será que nós somos capazes de viver como o Samurai, que medita sobre seu último dia antes de cada batalha? Temos a força para encarar nossos demônios de perto, olhar nos olhos do abismo sem fim? Sabemos que há um outro tipo de suicídio. Existem apostas que acabam tornando a vida uma espécie de longa morte. É o que chamamos de Salto.

Não há deus, nem verdade possível, não há salvação. “Viver sob esse céu sufocante nos obriga a ficar ou a sair“. Há uma outra espécie de suicídio, mais refinado, um suicídio filosófico. Decorre de escolhas que levam para fora da vida, mas sem morrer. Vem tanto da boca dos filósofos quanto da boca dos padres. Na verdade, são todos eles, como diria Nietzsche, sacerdotes ascéticos, aqueles que preferem o nada a nada querer.

Existe um fato evidente que parece absolutamente moral: um homem é sempre vítima de suas verdades. Uma vez que as reconhece não é capaz de se desfazer delas. Um homem sem esperança e consciente de sê-lo não pertence mais ao futuro. Isto é normal.  Mas também é normal que se esforce para escapar do universo que criou” – Camus, O Mito de Sísifo, p.46

Estamos aqui falando de uma certa essência religiosa que carrega a filosofia moral. Todo pensador carregando suas leis, praticamente não as suporta. Está sempre no seu limite péssimo. Carrega-as com o peso de mil verdades. Eis o mais consciente do absurdo. O primeiro, o adão decaído. Ele proclama suas verdades pois tem muita vergonha de carregá-las sozinho e assim ele aposta. Corre o mais rápido que pode e salta. É assim que se escapa da vida pela Razão.

Saltamos para outro plano, transcendemos a vida, absurda como é, caótica como é ao custo de nossa própria inocência. O grande iluminista com seus direitos universais do homem é o primeiro a pecar. E sente cada vez mais nojo de seus irmãos corruptos. A moral aposta num conjunto fechado de regras, em uma única conduta possível e faz caber a vida dentro de seu cubículo. Mas não sem cortá-la, não sem mutilá-la, não sem blasfemar, condenar, escarrar, excluir.

Toda aposta numa racionalidade totalizante acaba por se tornar uma lógica perversa, terrorista, diria Camus alguns anos depois. Não podemos sair do nosso plano imanente, da noção de absurdo, que apesar de nos encher de vertigens, é nossa conquista! Encarar o absurdo é uma conquista! Porque crer na razão iluminada pelas verdades do senso comum ou no espírito absoluto com suas resoluções históricas nos leva a morrer em vida. Perdemos a vida porque a enxergamos por uma janelinha muito pequena. Iluminamos o mundo ao preço de o imobilizar.

O homem absurdo quando não suporta conviver com os próprios males aposta em outra vida, esta é sua maneira de se render. Ele pensa, “poderia não ser assim”, “poderia não ser agora” e nisso é muito criativo. Vimos como ele aposta pela razão. Vejamos como ele aposta pela fé.

O absurdo torna-se Deus (no sentido mais amplo da palavra) e essa impotência para compreender, o ser que ilumina tudo […] O salto faz do absurdo o critério de outro mundo, enquanto não passa de um resíduo da experiência deste mundo ” – Camus, O Mito de Sísifo, p.47

O sentimento absurdo é tão forte que o divinizamos, o mundo passa a ser tão belo quanto mais incompreensível. E então passamos a nos alegrar com a ignorância, louvar a pobreza, cantar a compaixão, adorar a humildade e ter muita pena do próximo. O irracional torna-se uma lei que tudo justifica. O “tudo é permitido” de Ivan Karamázov ganha um contorno de muito mal gosto.

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Marc Perez

Apostando na fé, não resta mais nada de nós mesmos! Somos um instrumento de algo que nos supera infinitamente. Todo o tipo de pensamento místico e superstições são um fruto dessa aposta. Um jeito de adormecer nosso encontro com o mundo, um analgésico que mantém vivo, mesmo que com uma vontade de morte muito grande. Seja um Deus louvado por sua grandeza, nos julgando de fora e agindo enquanto nós padecemos; seja um mundo impossível de compreensão com sua energia cósmica oculta; seja o que for: não deixa de ser um salto para fora da existência!

O salto, uma dupla negação, pela razão ou pela fé, uma entrega absoluta ao racional ou uma rendição cega ao irracional. O salto é um jeito medíocre de aspirar ao eterno. E como funciona! E como é praticado! É a negação do suicídio de fato, mas não se diferencia dele tanto assim, pois não deixa de ser uma aposta na morte, só que em vida… era exatamente o que Camus não queria!

Sabemos que devemos viver com o absurdo. É a única opção. Devemos viver neste instante que precede o salto. O contrário do suicida é o condenado à morte. É isso que somos… condenados à morte. Agora perguntamos, se assim é, o quê fazer? Qualquer coisa que não passe pela negação do nosso estado de fato: criaturas sem futuro.

O homem absurdo não realiza esse nivelamento [do sacrifício pelo racional ou irracional]. Ele reconhece a luta, não despreza em absoluto a razão, e admite o irracional. Recobre assim com o olhar todos os dados da experiência e está pouco disposto a saltar. Ele sabe que, nessa consciência atenta, já não há lugar para a esperança” – Camus, Mito de Sísifo, p.51

Texto da série: O Homem Absurdo

Escrito por Rafael Lauro

Sou formado pelos livros que li, pelas músicas que toquei, pelos filmes que vi, pelas obras que observei, pelos acontecimentos que presenciei e pelos relacionamentos que tive. Sou uma obra aberta.

8 comentários

  1. Oi! Gostei muito do texto, mas, se me permite, achei também um tanto quanto fatalista e pessimista até. “O homem absurdo quando não suporta conviver com os próprios males aposta em outra vida, esta é sua maneira de se render. Ele pensa, “poderia não ser assim”, “poderia não ser agora” e nisso é muito criativo. Vimos como ele aposta pela razão. Vejamos como ele aposta pela fé.”
    A própria vida vai nos dando uma leitura de que nada precisa ser assim extremado: ou isso ou aquilo. Na filosofia temos uma tendência a desconsiderar aspectos mais amplos do ser. O texto me fez pensar bastante, e, francamente, não vejo problemas em “apostar em outra vida”, acho até que esse “apostar” criativamente noutra vida é uma forma de fazer da vida uma obra de arte, sendo forjado aí junto dela, da própria vida, um artista de si mesmo, como tão lindamente sugeriu Nietzsche.
    Aproveitando, assisti semana passada um filme que eu sempre torci o nariz e não tinha visto ainda: Don Juan de Marco. Recomendo fortemente. Abraços, Anita

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    1. São 10 textos que vão saindo, Anita. As saídas interessantes ainda irão se apresentar…. “Apostar em outra vida” significa aqui viver a transcendência… o que, para Nietzsche, jamais seria interessante.

      DonJuan é um dos exemplos queridos de Camus….

      Curtido por 1 pessoa

      1. Acabei de baixar o livro para acompanhar melhor os próximos textos. Confesso que não conheço quase nada do Camus. Só retificando: quando eu usei o termo d texto “apostar em outra vida”, falava num sentido de criar vida a partir da própria vida, ou seja, a partir do que a vida traz e da forma como se apresenta. Adorei saber que Don Juan é um dos queridos de Camus. Me encantei com o filme. Mais um motivo para aprofundar no pensamento de Camus – coisa que venho já ensaiando há um tempo…
        Grata!

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