Não o ignoramos, todas as Igrejas estão contra nós. Um coração tão tenso foge do eterno, e todas as Igrejas, divinas ou políticas, pretendem o eterno.” Camus, O Mito de Sísifo, p.103

Uma filosofia da existência não tolera a eternidade. Por mais nostálgico que o homem seja, a partir do momento em que se torna absurdo – recusando o salto, recusando o suicídio, escolhendo a vida e sua liberdade – a eternidade fecha-se para ele. Ele não se filia às ideias, às verdades, às doutrinas porque elas são muito gerais, pouco singulares. O homem absurdo pode tocar as suas certezas com a mão. Ele sobrevive ao custo de renunciar ao propósito assumindo a falta de sentido e entregando-se a uma existência sem futuro.

 A eternidade é um abrigo para o homem cotidiano, inconsciente, adormecido. Ele considera o paraíso e tolera sua vida medíocre. Ele pensa na reencarnação e se alegra com o prenúncio da melhora. Ele imagina o reencontro com os entes queridos e esquece um pouco a dor de tê-los perdido. Sob a luz eterna, ele quase não nota as sombras estendidas neste mundo, ao preço perder todo o contraste. Este homem é o oposto do herói absurdo, aquele que vê no tempo o seu campo de atuação, onde esgota o campo do possível.

Sem divino, sem reino, sem eterno, o homem absurdo crava firmemente os pés no chão e assim tem alguma honesta de se alegrar. A felicidade é uma conquista árdua para quem vive sem apelos. Estar aqui e agora sob a condição da finitude não é fácil. Ainda assim, é a única opção razoável. Fazer desta vida algo que valha a pena depende disso. Recuperar a lâmina dos problemas, a cor escarlate das questões é assim que se abandona a passividade cinza do niilismo.

Existe alguma noção de eternidade que interessa? Certamente não a que estamos acostumados. Mas existem outras maneiras de se pensar, como o eterno retorno do mesmo, por exemplo. Toda a existência presa numa roda em que tudo se repete infinitamente e da mesma maneira. Mas será essa “eternidade” o mesmo componente ao qual vinhamos nos contrapondo até aqui? Acreditamos que não. Nietzsche não se preocupava em viver para sempre. Ele queria que cada instante fosse imenso, o que é muito diferente. A eternidade neste caso é um fardo, ela coloca a vida nas mãos. Faz o homem fraco implodir. Pois bem, essa noção de eternidade interessa.

A eternidade em Espinosa, outro exemplo que interessa. Uma eternidade enquanto participação. Se a finitude é uma condição dos homens, ela não o é da natureza. Ser e tomar parte na substância é participar da eternidade dela. Quanto mais de acordo consigo e com o mundo, mais eterno. Não é a este tipo de eternidade que o homem absurdo deve se opor. A eternidade enquanto uma consideração que nos torna mais capazes de agir não é o inimigo aqui.

Quando pensamos na eternidade cristã, no espírito absoluto hegeliano – que leva a uma noção muito profética de revolução – aí então encontramos o problema. Essa eternidade que tem seus alicerces na nostalgia, na nosso desejo de outro mundo, na nossa vontade de unificação, que não quer necessariamente a vida eterna, mas que implora por um único sentido. Essa eternidade, não interessa. Ela nos afasta do mundo, ela nos faz saltar para outro plano. Cuidado, a transcendência está a um pulo de distancia.

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Marc Perez

Nada de outra vida! O herói absurdo recupera sua presença com um grito. Ele não está disposto a perder essa vida. Ele pode ser um príncipe sem reino, mas tem sobre os outros a vantagem de saber que as realezas são ilusórias. Lançando mão da eternidade, o homem pode ser tornar ainda mais – ele pode se tornar criador, e aí ele encontra seu maior deleite.

O homem, consciente de sua condição, vive com o absurdo: respira com ele. Ele busca a diversidade. Criar é viver duas vezes, diria Camus. Ele multiplica, faz viver. Sua paixão é sentir de muitas maneiras. Ele risca a superfície do mundo com a sua existência, descreve um universo inesgotável em sensações, expressa uma vida singular. A arte é sua maneira de enfrentar a verdade, como gostaria Nietzsche. Sua vida mesmo, esta coleção de instantes, é uma criação sem amanhã.

Escrito por Rafael Lauro

Sou formado pelos livros que li, pelas músicas que toquei, pelos filmes que vi, pelas obras que observei, pelos acontecimentos que presenciei e pelos relacionamentos que tive. Sou uma obra aberta.

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