Pensar é, antes de mais nada, querer criar um mundo” Camus, O Mito de Sísifo, p.114

Falávamos em três personagens absurdos. Três maneiras pelas quais o homem se tornou herói. Sem apelar ao eterno, à nostalgia ou ao suicídio, o conquistador, o amante e o ator eram exemplos possíveis de uma vida impregnada de absurdo. Quando cada ato sabe que deve encerrar-se em si mesmo e negar o futuro, Camus enxerga a possibilidade de uma superior liberdade: aquela de colocar o homem frente ao mundo sem ilusões, aquela que retira as camadas que o separam do mundo, as telas que o protegem da falta de sentido. É quando entra em cena um último personagem, o criador.

O criador é o mais absurdo dos personagens. Sua vida é fazer jus ao absurdo. Criar para si uma existência digna das forças que o rasgam por dentro. Saber separá-las didaticamente, descobrindo pouco a pouco o que resiste ao toque, o que permanece de pé, o que não se desfaz no caos. Distribuindo letras no papel, golpes na pedra, sons ao vento, cores à tela, pensamentos às palavras, o homem toma nas mãos a responsabilidade pelo sentido de sua existência, torna-se um criador na medida em que transforma toda falta de sentido em uma nova possibilidade. Sua tarefa é transformar o ilógico em não-pensado.

A arte é o supremo presente de um mundo sem sentido. Se tudo estivesse claro, ela não existiria, ou melhor, seria apenas representativa, mas nunca criativa. Para se tornar um criador, é preciso saber: a arte é uma expressão do absurdo e não um refúgio dele. A fuga é um mau uso da arte. Schopenhauer, entre outros, não resistiu, foi vencido pela vida e apostou nessa arte menor, no belo como descolamento, como transcendência de uma vida que naufraga. Daí a necessidade de coragem. Apostar na vida é seguir afirmando apesar de todas as chances.

O erro está em procurar um sentido em uma obra de arte, é ridículo. Uma obra absurda não dá respostas. O criador é o seu próprio sentido, ele ilustra e questiona todo o sentido, isto sim. Ao ver a grandeza de uma obra, nos damos conta de como ela nos questiona, de como ela nos coloca em face de algo que não sabemos bem o que é, de como ela nos empurra para um lugar desconhecido. O criador faz de suas forças um jogo, altera as suas velocidades, coloca-as em outras perspectivas. Um quadro é um instante irredutível, um contra-senso. Uma sinfonia é de uma grandeza miúda. Toda filosofia tem uma estabilidade questionável.

Criar é também dar uma forma ao destino” Camus, p.131

O criador é aquele que se torna um destino. Ele mantém sua consciência sem descanso e conhece sua luta num corpo-a-corpo diário. Encarnar o absurdo tem o preço de estar presente a todo instante. Não há nada que o homem absurdo deteste mais do que a ausência. O desligamento, a ilusão, a superstição, a esperança são para ele pequenas mortes. Sua liberdade é estar em face da vida com a maior frequência possível, sentir tudo de todas as maneiras.

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Marc Perez

Viver sem negar o absurdo é, ao fim de cada dia, responder “não” à pergunta: “devo me matar?”. O criador coloca-se em guerra com a morte em todos os instantes. Sua obra é uma batalha. Sua vida uma campanha. Mesmo sabendo-se vencido de antemão, morto no final de um punhado de anos. Mas é deste embate que ele retira sua força. A potência do homem absurdo está na sua própria condição, que o obriga a jamais se render. Permanecer em luta é uma bela maneira de se tornar um criador.

Ser um criador depende de um domínio de si. Encontrar força na irracionalidade do mundo e apreciar o colapso da razão nele. O absurdo se torna uma paixão, o criador é um dos poucos que consegue dar conta disso. Ele se provoca, se põe à prova, como o mar que se atira aos rochedos. Cada gesto importa, cada pequena passagem importa, cada  singularidade importa, pois fazer arte é simplesmente uma maneira de exaltar a diversidade.

Mas tudo isso para quê? Todo este esforço estéril, essa rebeldia sem causa, esse grito sem direção, essa potência infértil. A morte é uma realidade esmagadora. A finitude é um pedregulho incontestável. Para quê esta “Criação sem amanhã”? O criador responde, para nada. E é este “para nada” que marca o passo, é a pedra angular de sua arquitetura.

Deste ponto de vista, criar é transvalorar. É a força criativa de transformar toda a ausência de sentido e propósito numa maneira de viver. Quando o amanhã esta vetado, nos vemos obrigados a dar sentido para cada momento. Não é uma tarefa para todos, tampouco para ninguém. Uma grande obra de arte (ou uma vida) talvez tenha menos importância em si mesma do que na capacidade que exige de um homem.

Criar é criar para si mesmo um mundo, sem perder nem fugir dele; é operar essa estranha dobra dentro da realidade, tornando-a mais realidade; é fazer passar mais existência para a existência, preenchendo de possibilidades o infinito. O criador é aquele que percebe que o absurdo da vida o autoriza a mergulhar nela com todos os excessos.

Trabalhar e criar “para nada”, esculpir na argila, saber que sua criação não tem futuro, ver essa obra ser destruída em um dia, estando consciente de que, no fundo, isto não tem mais importância do que construir para os séculos, eis a difícil sabedoria que autoriza o pensamento absurdo. Desenvolver ambas as tarefas ao mesmo tempo, negar por um lado e exaltar pelo outro é o caminho que se abre diante do criador absurdo. Ele deve dar suas cores ao vazio” Camus, p.130

Escrito por Rafael Lauro

Sou formado pelos livros que li, pelas músicas que toquei, pelos filmes que vi, pelas obras que observei, pelos acontecimentos que presenciei e pelos relacionamentos que tive. Sou uma obra aberta.

2 comentários

  1. Legado tudo que nos fazemos tem consequências deixa marcas no mundo que continuarão depois de nossa morte..muito lutaram para que eu tivesse conforto hoje…do mesmo modo que lutamos para que os vierem depois de nos vivam em mundo digno….O artista morre mas sua obra continua..

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