Vou voltar!
Sei que ainda vou voltar
Para o meu lugar
Foi lá e é ainda lá
Que eu hei de ouvir
Cantar uma Sabiá…”

Na condição de condenados à morte num universo insensível, embarcamos no absurdo. A existência no caos nos arremessa para longe das certezas, das verdades, das constâncias e assim percebemos que nossa razão não dá conta. Para além do suicídio, temos poucas saídas. Já dissemos, nós só admitimos uma: viver a partir do absurdo. Mas não podemos deixar de falar das outras. Há quem prefira correr, fugir, ou melhor, saltar para outro lugar, apostando numa razão inquebrável ou numa fé cega. Entretanto, isso só é possível por ter se tornado, antes de tudo, nostálgico.

À única questão importante “Devemos nos suicidar?”, Camus previa duas respostas. Sim, confessando assim que fomos superados pela vida; ou não, escolhendo a vida no lugar da morte! Não há outra opção, a questão é que esse ‘não’ se abre em muitas espécies de negação. O sacerdote que ensina a preferir o nada a nada querer, o niilismo passivo, a dupla negação do salto, são exemplos. O que fundamenta todos esses ‘não’ menores é a esperança. Este afeto tão próximo do medo que se torna indistinto dele, sua sombra.  “A esperança é o truque daqueles que vivem não pela vida em si, mas por alguma ideia que os ultrapassa e os trai“.

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Marc Perez

Será que o absurdo nos comanda a sair da existência pela esperança ou pelo suicídio?  O que interessa a Camus é descobrir que tipo de não é este que fundamenta a resposta “Não vou me matar”. O que queremos é o não do homem revoltado. Um ‘Não!’ que tem como base um grande ‘Sim!’. Aquele que parte de uma dupla afirmação: da vida e a do mundo. Só chegamos a ele através do absurdo. Dependemos todos desse primeiro passo. Todo ‘não’ em nome de outra coisa acaba por se descolar da existência. Dizemos não ao mundo por sermos muito nostálgicos.

“O pensamento de um homem é, antes de mais nada, sua nostalgia.” A história do pensamento é também a história da ignorância. O homem se mostrou impotente em tantas formas quanto se é possível imaginar. Como é que conseguimos dizer de consciência tranquila “conhecemos o mundo”, “conheço isto e aquilo”? Para Camus não é tão simples assim, nossa ciência consiste em pouco mais do que a certeza de nossa existência. Daí a constatação de que seremos sempre estranhos a nós mesmos.

O “conhece-te a ti mesmo” de Sócrates revela ao mesmo tempo uma ignorância e uma nostalgia. É como se por baixo daquilo que se aparenta pudéssemos encontrar algo que realmente é, o verdadeiro rosto por trás dos atos, a realidade por trás do véu de maia. A ignorância para Camus – e para toda uma tradição filosófica que enfrenta o platonismo – é exatamente essa crença em um mundo subjacente à realidade, de onde toda representação tira seu verdadeiro significado.

Nossa razão demasiado humana se constituiu de maneira a recuperar algo que perdeu. Vivemos sob a sedução do descobrimento. Seja no consultório do psicanalista, seja na análise política, seja nos nossos relacionamentos. Somos viciados em respostas. Queremos a verdade por trás de toda aparência. Nossa razão acostumou-se a pensar em linha reta, mas o mundo é um imenso rochedo de relevo indefinido. O homem é nostálgico, pois sua condição no mundo lhe traz dor. Ele quer voltar para o útero, quer os braços de quem já partiu, quer o momento que já foi.

Vou voltar!
Sei que ainda vou voltar
Vou deitar à sombra
De uma palmeira que já não há
Colher a flor que já não dá
E algum amor
Talvez possa espantar
As noites que eu não queria
E anunciar o dia…”

A nostalgia humana é esse fruto amargo da irracionalidade do mundo. Não o compreendemos, e nessa má compreensão, construímos a nossa impotência. A desproporção entre o homem e o mundo nos empurra à beira de um abismo. Nostálgicos, vamos tentando dar passos para trás, contra a corrente, na esperança de ter a força para vencer. Mas a realidade é que não a temos. A realidade é que a vida é esse momento fugaz onde experimentamos a existência efêmera do mundo. “A realidade é a risada insensata de um homem sadio provocando um deus que não existe

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Marc Perez

O homem nostálgico e esperançoso busca uma cura para si e para o mundo. Mas desconhece que o principal não é se curar, mas conviver com os próprios males. Todo o esforço de um homem em escapar de sua condição torna-o mais e mais escravo dela. É como a areia movediça, que quanto mais reluta a presa mais depressa afunda. A revolta sem consciência do absurdo é apenas uma rebeldia sem causa. É a profissão de besteiras ao vento.

A razão, desde tenra idade, aprendeu a afastar-se da contradição. O conhecimento nem se considera como tal a não ser quando encontra princípios imutáveis. O pensamento se confunde todo quando encontra os paradoxos. E assim inventamos o princípio, totalmente mágico, da unidade: a mãe de todos os ideais. Camus desconfia de toda lógica muito bem fundamentada, ele sabia bem como funcionava o Nazismo.

Temos um apetite pelo absoluto, queremos saltar. Temos um apetite pela unidade, somos nostálgicos. Mas temos a certeza de que isso não basta, isso não dá conta. Sabemos que esse mundo não pode ser reduzido a um princípio racional e razoável. Sabemos que somos totalmente superados por ele. É por isso que encontramos o absurdo e não queremos o esquecer. Viver à beira do abismo: há de se inventar uma bela maneira de se fazer isso.

Buscamos um desejo sem esperança. O fim último é desprezível. Toda escatologia escoa em rios de morte. Toda teleologia não deixa de ser uma teologia. O meio do caminho é que nos interessa. Estamos atentos, temos presença, criamos consistência. Queremos mais! É preciso ignorar esse grandioso apelo à eternidade das ideias, ao futuro de realizações, a um paraíso perdido. É preciso beber do vinho absurdo e reencontrar a pequena evidência de nossa existência. Para assim recuperar a lâmina dos problemas e perceber-se livre em um mundo sem deus.

Vou voltar!
Sei que ainda vou voltar
Não vai ser em vão
Que fiz tantos planos
De me enganar
Como fiz enganos
De me encontrar
Como fiz estradas
De me perder
Fiz de tudo e nada
De te esquecer…”
– Sabiá, Chico Buarque e Tom Jobim

Escrito por Rafael Lauro

Sou formado pelos livros que li, pelas músicas que toquei, pelos filmes que vi, pelas obras que observei, pelos acontecimentos que presenciei e pelos relacionamentos que tive. Sou uma obra aberta.

6 comentários

  1. Li aqui e estou tentando digerir, ruminando o que li… Mas alguns pontos saltaram de imediato: esse dualismo que aprendemos viver teria de ser a primeira desconstrução a se fazer para então começar a viver esse “caminho do meio”, ou ainda, a viver esse absurdo?!

    “Daí a constatação de que seremos sempre estranhos a nós mesmos. O “conhece-te a ti mesmo” de Sócrates revela ao mesmo tempo uma ignorância e uma nostalgia. É como se por baixo daquilo que se aparenta pudéssemos encontrar algo que realmente é, o verdadeiro rosto por trás dos atos, a realidade por trás do véu de maia. A ignorância para Camus – e para toda uma tradição filosófica que enfrenta o platonismo – é exatamente essa crença em um mundo subjacente à realidade, de onde toda representação tira seu verdadeiro significado”.
    Fiquei pensando, o que seria a realidade nesse sentido? Pois considerar também tão somente o que se apresenta como “realidade” não seria um tanto quanto reducionista quando tratamos do ser? (Ou mesmo de qualquer outra coisa).

    Me lembra o aforismo 11 do HDM, onde Nietzsche fala do alcance totalmente limitado de nossa compreensão das coisas, pois tudo que pensamos e sabemos o fazemos através da linguagem, e pior, acreditamos que assim conhecemos as coisas como elas são.

    Talvez eu que não tenha entendido muito bem o exposto, mas o texto ficou muito bacana mesmo, me suscitou outras tantas reflexões mas que não caberiam aqui…

    Abraço!

    Curtido por 1 pessoa

    1. Anita,

      Sua questão é super pertinente, sim.

      Primeira desconstrução? Talvez. O Camus não acredita que consigamos nos libertar dessa nostalgia. É uma característica da nossa razão. Ela quer dar conta, quer entender, quer unificar, quer um princípio para tudo abarcar. A questão, para ele, é o que se faz com isso.

      Considerar somente o que se apresenta é sim um pouco reducionista. E não é o que é pedido aqui. A questão é como pensamos essas forças subjacentes àquilo que se apresenta?

      O aforismo é um ótimo acréscimo.

      Abraços

      Curtido por 1 pessoa

      1. Sim, acho que entendi a questão de que o ponto é como se pensar essas forças. Achei muito sagaz esse trecho: “Mas desconhece que o principal não é se curar, mas conviver com os próprios males. Todo o esforço de um homem em escapar de sua condição torna-o mais e mais escravo dela.”
        O Jung diz que “o importante não é tornar-se bom, mas sim tornar-se pleno”, que talvez seja também uma outra forma desse raciocínio que você traz da visão do Camus. Ou ainda, o que o Nietzsche fala do “torna-te quem tu és”. Que no meu entendimento, seria a única maneira de sair dessa dualidade de nostálgico/esperançoso, mesmo não sendo a intenção do filósofo resolver esse dilema, e mesmo ele pensando que é quase impossível sair desse binômio, fico eu viajando aqui que a construção desse absurdo para se viver seria também a construção desse “novo homem” que aprenderia a lidar e viver no mundo da forma que este se apresenta porém, sem reduzi-lo apenas ao que se consegue entender.
        (Eu sei que eu cometo anacronismo filosófico o tempo todo, mas a forma que tenho de compreensão é misturando todo mundo mesmo…rsss…)

        Abraço, Rafael!

        Curtido por 1 pessoa

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