Em um governo que aprisiona qualquer um injustamente, o verdadeiro lugar para um homem justo é a prisão” – Henry Thoreau, Desobediência Civil, p. 20

Quando Thoreau escreveu “Desobediência Civil”, ele procurava por homens livres, clamava por pessoas preparadas e corajosas para viverem livremente. Talvez, e esta era sua hipótese, várias delas se julguem livres, mas na verdade são escravas. Seguindo este raciocínio, em um governo injusto, é bem possível que muitas pessoas justas e livres acabem na prisão.

A massa de homens serve ao Estado não na qualidade de homens, mas como máquinas, com seus corpos” – Henry Thoreau, Desobediência Civil, p. 10

– Emiliano Ponzi

O Estado: uma estrutura totalizante, mesmo que mal organizada, que funciona permanentemente com o objetivo inconfundível de manter o poder nas mãos de alguns poucos homens. Este homens, diz Thoreau, não passam de espantalhos, bonecos de lama, e não possuem qualquer valor, são como animais que foram domesticados pelo poder. Como bem disse Foucault: corpos dóceis. Um homem sábio jamais seguirá as ordens de um outro homem caso não concorde com suas razões.

A premissa de Thoreau é na verdade bem simples: um ser humano não pode associar-se a um governo com o qual não concorde sem desonrar-se! Caso contrário, não passa de um escravo, mais um, mesmo que não reconheça ou mesmo que esperneie e o critique pelas costas. Veja que não falamos de inimigos distantes ou escondidos, está tudo na nossa cara, batendo na porta: cooperamos com atitudes que discordamos fundamentalmente! Somos coniventes não em um momento específico, mas a toda hora! Discordamos em nosso íntimo, ainda assim, não fazemos nada, no máximo fingimos que não é com a gente, esperamos que outros cuidem disso por nós, torcemos secretamente. Milhares discordam em tese, talvez em palavras, mas não passam disso, não tomam nenhuma atitude.

O Governo, o Estado, o Poder, chame como quiser, senta em seu trono e aprecia tudo do alto, jactante, orgulhoso de sua força e da servil obediência de seu povo. Sabemos que não deveria ser assim, mas não sabemos nem por onde começar uma mudança… Thoreau sabe, a maior afronta para o governo é desafiar a sua autoridade dizendo: “Não faremos isso! Vocês estão errados e nós, certos!“, eis a desobediência civil.

Leis injustas existem: devemos nos contentar em obedecê-las? Ou nos empenhar em aperfeiçoá-las, obedecendo até obtermos êxito? Ou devemos transgredi-las imediatamente?” – Henry Thoreau, Desobediência Civil, p. 17

Não valorizamos mais a nossa capacidade de raciocinar? Não percebemos, claro como água, o quanto nosso governo pode ser injusto, falho, abusivo e despótico? Claro que percebemos, nos falta coragem! O que faremos? Ora, podemos obedecer, fielmente, crentes de que um dia chegaremos na tão esperada perfeição! “Ora“, dirão os otimistas, “o progresso está aí! Tenha paciência“, e nós respondemos, “Não! Estamos impacientes! Não queremos mais esperar, já nos cansamos!“. De um lado os adequados, do outro, cruzando a linha, os inadequados.

Thoreau nos convida a pensar para além do bem e do mal, para além do que nos foi imposto de cima para baixo. Há uma percepção prática do que é certo e errado, e isso muda as coisas e as relações. O que é revolucionário? A ação, aquela que divide, traça uma linha, entre os poderes constituídos e as várias formas de se mover para além dele. A verdade não é do povo, não é do rei, não é do representante divino. A verdade é a ação sensata, da força que não se submete.

Então, eu digo: Viole a lei. Deixe que sua vida seja uma contrafricção que pare a máquina. O que eu tenho a fazer é cuidar, de todo modo, para não participar das mazelas que condeno” – Henry Thoreau, Desobediência Civil, p. 18

Primeiro passo: saiba nomear aquilo com o que não concorda! Segundo passo: não obedeça, viole a lei! Sim, se algo está errado, se você percebeu onde a sua vida não se encaixa então o primeiro passo já foi dado. Qual o melhor termômetro para isso? Os afetos de impotência derivados de uma vida servil: tristeza, melancolia, esperança, solidão. Thoreau é inequívoco: não siga mais as leis que foram impostas injustamente, não há motivo algum para isso a não ser o medo. O primeiro passo, o desencanto, a desilusão, conduzem ao segundo: a desobediência. Depois da sensação de que as coisas não estão certas, é possível ver que realmente não estão, então é possível fazer alguma coisa, começando por se desfazer de certos laços e relações que mantém aquilo com o que discordamos.

– Emiliano Ponzi

O que vemos aqui é a sensação de que o pano de fundo do mundo cai, e podemos ver o seu funcionamento por trás das cortinas, suas engrenagens rodando loucamente, sem parar, moendo vidas e sonhos. Somos escravos, esta é a única conclusão admissível. Queremos continuar sendo escravos? Esta é a única pergunta razoável. Não, devemos desobedecer, esta é a única atitude coerente.

O mínimo que um governo pode ter é a aprovação de seus governados, mas nem disso ele é capaz. Isso deveria ser óbvio, afinal, não estamos no mesmo plano. Nosso governo é uma cidadela à parte que se permite todo o tipo de abusos e injustiças em nome de um povo que vive na miséria e o odeia. Nosso governo se coloca acima dos indivíduos, e se utiliza de todos os recursos para manter-se onde está, enquanto o povo o abomina! E nós os elevamos! Nós os sustentamos! Nós somos seus fiéis súditos!

O melhor governo é o que absolutamente não governa” – Henry Thoreau, Desobediência Civil, p. 7

Para bom entendedor, meia palavra bastaria, mas este não é nosso caso. Não nos confundam! Talvez sejam necessárias muitas palavras para entender o que Thoreau quer dizer com “um governo não governar“. Encontraremos em seu escrito e em sua maneira de viver a resposta. Thoreau é como o homem louco do aforismo de Nietzsche, porque saiu à rua com uma lanterna gritando “procuro por um homem livre“. Onde estão os seres humanos capazes de viver sem que alguém lhes deem continuamente ordens? Existem ainda indivíduos mais seres humanos do que súditos?

A autoridade nos dá nojo! Vomitaríamos se já não nos tivéssemos acostumados a tanta imundície. Diariamente o governo impõe que sejamos contra nós mesmos. Cotidianamente, somos levados a ferir nossos princípios, viver uns contra os outros! A saída de Thoreau é simples: parem de servir, mas ao mesmo tempo tem implicações complexas, procurem outros caminhos! É urgente que se faça isso o mais rápido possível. Não nascemos para sermos escravos. O mundo não espera por nós, cabe a nós fazer o mesmo.

Tenho outros afazeres aos quais me dedicar. Não vim a este mundo predominantemente para fazer dele um bom lugar, mas para viver nele, seja bom ou ruim. Um homem não tem obrigação de fazer tudo, mas alguma coisa; e o fato de não poder fazer tudo não o obriga a fazer alguma coisa errada” – Henry Thoreau, Desobediência Civil, p. 18

Aprendemos a não pisar no calo dos outros, mas isso é pouco. Queremos aprender a juntar forças! Nada de “cada um no seu canto fazendo a sua parte“, isso não é o bastante, nós queremos “caminhar unidos, braços dados“. Sendo assim, quanto mais desobediência, melhor! Se em um primeiro momento a desobediência civil parece uma alternativa solitária, é fácil ver como ela está por toda a parte, apenas esperando que novos encontros sejam possíveis. Não para tomarmos as rédeas em direção ao progresso e à perfeição, mas simplesmente para viver melhor aqui e agora.

Não sou responsável pelo bom funcionamento da máquina da sociedade. Não sou filho de maquinista” – Henry Thoreau, Desobediência Civil, p. 25

Tudo começa com uma leve sensação de incômodo, “algo está errado, não me sinto bem aqui…”. Talvez o primeiro passo seja sempre para trás, uma vontade de ter uma visão mais ampla, para entender se este pressentimento confirma-se através de um olhar mais distante. Do “algo está errado, não me sinto bem aqui” abrem-e mil possibilidades de novas condutas, mas antes é necessário um recuo, para confirmar este palpite. A desobediência é a liberdade do Não, que permite a liberdade do Sim.

Um guerra silenciosa se anuncia, sem armas e sem derramamento de sangue. Uma tática de boicote, um movimento de êxodo, uma atitude de desmonte. Mas que fique claro, cruzamos os braços somente para as relações de poder. Aqueles que se recusam a servir escutam o sussurro daqueles que querem criar alternativas. Não nos faltará imaginação neste processo. Sem queda de braço entre nós e o governo, pois não haverá uma luta para ver quem é mais forte. Procuramos um mar para navegar, não uma parede contra a qual colidir.

Não nasci para ser coagido. Respirarei à minha própria maneira. Vamos ver quem é mais forte” – Henry Thoreau, Desobediência Civil, p. 25

– Emiliano Ponzi

Escrito por Rafael Trindade

"Artesão de mim, habito a superfície da pele" Atendimento Psicológico São Paulo - SP Contato: (11) 99113-3664

5 comentários

  1. Bom dia!

    Obrigado Rafael pelo post, ótimo gostei muito, realmente é isso aí…O interessante que não é preciso recorrer a grandes pensadores, escritores, grandes homens… Esse desejo de se SENTIR LIVRE, está dentro de cada um de nós. Sou feliz por me sentir livre de instituições governamentais, religiões, dogmas, crença e crendices, como disse Scarlett Marton, não vou junto com os ANIMAIS no REBANHO na mesma direção, isso não que dizer que as pessoas tenham que desobedecer as leis, etc. A questão é ser diferente do rebanho.

    Att:

    Curtido por 1 pessoa

  2. Penso que uma autentica transformação tenha mais a ver com aquilo que valorizamos mais. O Estado se impõe porque lhe atribuimos um valor maior do que ele realmente deveria ter. Colocamos o individuo em função da coletividade ou da institucionalidade. Mas deveria ser o inverso, não acha? Todas as instituições, leis e coletividades deveriam se curvar (como servas) em prol do indivíduo. A mudança deve iniciar dentro de cada indivíduo, como ser responsável e não meramente como ator coadjuvante nessa engrenagem monstruosamente ensimesmada.
    Ótimo post. Parabéns mais uma vez!

    Curtido por 1 pessoa

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