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Este é o conselho mais importante de Foucault em sua introdução para uma vida não fascista. Não se apaixonem pelo poder é a mesma coisa que dizer “não sejam militantes tristes”, é a mesma coisa que dizer “não procurem uma unificação”, e etc. São todas as lições anteriores condensadas em apenas uma. É a decantação do Anti-Édipo. É o conselho mais direto porque realiza uma passagem definitiva do poder para a potência. Não se apaixonar pelo poder é tomar distância de todo desejo de soberania, toda disciplina, autoridade, fama.

Todos estão submetidos ao poder, claro, é como a servidão, da qual todos, em maior ou menor grau, fazem parte. Os mais ricos e os mais pobres (em diferentes graus). Mas é possível um pensamento e uma prática que não estejam baseados na dominação do outro? Uma arte de viver que não domine nem seja tão dominada assim? Achamos que sim, mas para isso é necessário uma transição entre poder e potência. Porque até agora todas as nossas relações se basearam em parasitismo e predatismo. Não queremos mais isso… essa pode ser a intenção de várias pessoas, mas não a nossa.

Como o poder funciona? (Esta pergunta é muito mais importante do que “o que é o poder?”) resposta: fechando fluxos, conduzindo forças. O fascismo age limitando e direcionando, sempre, é uma maneira de viver e de agir que controla, distribui, organiza, vigia, examina, disciplina. Temos assim, uma subjetividade servil por natureza. Submissão completa do corpo, que oferece suas compensações, mas ao mesmo tempo ilude. Como isso se dá? Atuando para subjugar o outro, das mais variadas formas possíveis: economicamente, juridicamente, cognitivamente. E sempre nas mais variadas modalidades também: através de palavras, dinheiro, tecnologia, direitos, convenções sociais, punições por desacatar um costume ou lei. Onde isso acontece? Hoje podemos dizer que em praticamente qualquer lugar: na escola, claro, na economia, no exército com certeza, nos hospitais, e diversas outras instituições.

Podemos chamar de poder o que ontem chamávamos de Deus (porque este era pintado como um legislador furioso):

  • Onipresente – O poder apropria-se totalmente ou tende a ser uma apropriação cada vez mais exaustiva de todo o corpo! Minúcias e detalhes. De seus menores gestos, seu tempo, enfim, seu comportamento. O poder estende seus tentáculos por cada parte do corpo. Distribui, controla, organiza, adestra, vigia, examina e, quando tudo o mais dá errado, pune.
  • Onisciente – O poder é contínuo, sabe de tudo, mede tudo, avalia tudo, notifica tudo. No poder, sempre se está sob o olhar de alguém, alguma prova, algum registro. “Preencha este formulário, por favor”. Tudo pode ser descoberto, tudo pode ser visto. Nossa privacidade é uma ilusão, nossa visibilidade, uma armadilha. O espaço onde o poder funciona é sempre celular, estratificado. Os fluxos não podem se mover livremente, eles já estão canalizados, premeditados.
  • Onipotente – Cada elemento terá o seu lugar determinado, cada um estará inserido totalmente no poder e será por ele submetido. Aquele que é adestrado, torna-se dócil, assim pode ser espoliado, explorado mais e melhor. Quanto mais submissão e produção, melhor. Tornar o homem um ser servil por natureza, tornar a servidão a sua essência, para que ele a deseje, a busque, tenha prazer com ela.

Como resultado claro nós temos um corpo que se torna passivo e maleável, infeliz, e, para resumir em uma palavra: fascista.

– Banksy

Eis que o Fascismo nosso de cada dia é o fruto podre de homens e mulheres apaixonados pelo poder! Ele age continuamente através de um desnível, que pode ser dinheiro, privilégios, posição social, conhecimento, armamento, tradições. Ele seduz e, se não consegue, ameaça. Assustador, não é? Foucault pinta uma realidade cinza, nós sabemos, mas encara a realidade sem fechá-la para alternativas e sem deixar-se desanimar. Não podemos nos desesperar e criar utopias, o caminho é outro, como agir dentro disso? Onde o fascismo e o poder, não chegam? Simples, naqueles que não se apaixonam por ele!

Queremos nos tornar imperceptíveis, para escapar do poder, para encontrar outros caminhos. Ainda é possível pensar em um agir político que não esteja baseado na dominação do outro? Sim, mas primeiro nós não podemos cair nas paranoias totalizantes, em segundo lugar precisamos fazer proliferar o desejo a ação e o pensamento. Encontrar outros modos de produção de subjetividade. Outros modos de pensar a relação consigo mesmo, mas também para com o outro.

Há um certo cansaço no ar que não é uma boa noite de sono que vai curar, nem mesmo a retomada da economia. Há um esgotamento do nosso próprio modo de vida. Estamos tristes, mas não podemos lutar assim! O que queremos é abrir este espaço para o novo, e Foucault nos convida a isso. Pensar a política para fora das formas constituídas, para além do poder e do sedentarismo.

Nossa intenção? Não moralizar o corpo alheio, pegar carona em uma linha de fuga, para ficarmos o mais distantes possíveis da dominação instituída! Ela já habita o nosso corpo! Sabemos, ela está no meio de nós, corre em nossas veias, mas isso não significa que estamos condenados. O pensador do poder deve ceder espaço para o pensador da liberdade, o poder dá lugar à potência, a moral dá lugar à ética. Uma vida não fascista pensa uma existência comunitária que nos liga novamente àquilo que nem sabíamos que podíamos.

A resposta é a mesma para a pergunta: O que pode o corpo? Ela está na experimentação, que permita novas maneiras de pensar, desejar e agir. Deixar velhos costumes para trás e encontrar práticas de liberdade. Apenas desta maneira um corpo pode descobrir o que pode, apenas assim a vida escapa das seduções do poder! O mesmo vale para o corpo político: o que ele pode? Ora, uma das respostas possíveis estava pichada nos muros da Sorbonne: “a imaginação no poder”. No lugar do que “deve-ser” nós nos perguntamos, “o que podemos fazer?”.

Temos de produzir alguma coisa que ainda não existe e que não sabemos o que será”

– Foucault

Texto da Série:

Vida Não-Fascista

Rafael Trindade

Autor Rafael Trindade

Quero fazer da vida o ofício de esculpir a mim mesmo, traçando um mapa de afetos possíveis.

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Silvana
Silvana
3 anos atrás

Absolutamente oportuno o tema, obrigada!
Ah, Foucault sempre tão desafiador porque nele a solução não vem de um guru, de fora, de lideranças, mas de nós mesmos. Aliás, nem promessa de solução existe!!

Marcelo
Marcelo(@dedaluz)
3 anos atrás

Realmente, a impotência nos entristeceria ante à um poder fascista e despótico assim o faria. No entanto, sabemos que mesmo utópica uma revolução, é possível hoje que algumas transgressões sejam feitas na reafirmação da liberdade irrenunciavelmente conquistada a ir tomando corpo e descontaminando o poder por moderação das mesmas paixões que enfraquecem a natureza humana que se entusiasmam com o poder.

Maria Ines Sosres
Maria Ines Sosres
3 anos atrás

Adorei o texto !! Perfeito para os cuidados de mim.