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A crítica dos falsos problemas é uma das primeiras tarefas, porque com perguntas ruins, nunca alcançaremos respostas boas. A intuição alcança a duração e já não pode filosofar entendendo o tempo da mesma maneira que o espaço. Se este pode ser medido e dividido, aquele é qualitativo e intensivo, não se divide sem se transformar.

Recolocar os problemas em termos de duração e intuição é a mesma coisa que limpar o terreno para que a filosofia brote novamente com toda a sua potência de criação. Existem problemas que são inexistentes, ou seja, nem vale a pena perder tempo com eles e problemas mal colocados, que precisam ser reformulados.

Por que existe alguma coisa em vez de nada?“. “Por que nunca encontramos a ordem por trás da desordem?“, “Por que os possíveis demoram tanto para passar à realidade?“. Ah, estas são as mais caricatas perguntas filosóficas! Ora, sabemos que tudo existe, mas por quê? Sabemos que a realidade desorganiza nossas vidas, mas qual o motivo? Sonhamos com outros mundos, mas nunca chegamos neles! Não é frustrante? E assim vamos… pulando de galho em galho… de um falso problema para outro. Perdemos a realidade, sem nunca pisar no chão da existência.

O Ser e o Nada

Persiste a convicção de que, antes das coisas, ou pelo menos sob as coisas, há o nada”

– Bergson, A Evolução Criadora

O problema do ser e o nada é um dos mais pueris! Como a criança que brinca de esconder o rosto com as mãos e acha que não está mais aparecendo. O erro aqui é simples. Imaginar que o ser é mais que o não-ser. Estamos acostumados com essa forma de pensar: ser = não-ser + existência. Como se bastasse o não-ser dar um pulo para dentro a realidade e, num passe de mágica, ele existiria.

Bergson mostra que a ordem dos fatores altera o resultado. Diz ele: o não-ser é mais que o ser! Sim, contraintuitivo, mas é isso que diz o filósofo francês. O não-ser implica a existência, tal como ela é, e também a negação do ser, ou seja, alguma coisa que não está lá. O não-ser é a realidade mais os motivos pelos quais essa negação está presente. O problema não está na falta! Não há falta! A falta sempre pressupõe alguma coisa. Ou seja, complicamos o problema: o não ser complica o problema do ser, torce ele, dá voltas desnecessárias. Ficamos com um problema mal formulado.

Exemplo simples: “Estou com fome“, abro a porta da geladeira, “não tem nada“, abro o armário da dispensa, “Não tem nada para comer!“. Fico ressentido, irritado, triste. O nada é uma decepção, o nada é a angústia de uma expectativa frustrada. Quando colocamos problemas filosóficos em termos de tudo ou nada, estamos no campo da ação cotidiana: o nada é a decepção que advém daquilo que esperávamos encontrar. O nada é o espaço subjacente daquilo que esperávamos estar naquele lugar, é uma expectativa que não se conclui. “O quarto está vazio” não quer dizer que seja um espaço preto, esperando ser preenchido por espaço, luz, piso, móveis; pelo contrário, é apenas o quarto que a mãe entra mas não encontra o filho.

Caminhando neste sentido, podemos dizer que o nada não é realmente nada! O nada já pressupõe alguma coisa. O que existe no nada? A raiva de não encontrar aquilo que procuramos, a frustração de não satisfazer uma vontade, a angústia de uma expectativa sem conclusão! Na ideia de nada está contida a ideia de alguma coisa que queremos mais a ideia desta coisa sendo excluída de lá! Nada = expectativa + frustração. Reformulamos o problema em termos de tempo. Se abro o celular esperando uma mensagem de carinho e encontro apenas o celular digo: não há nada aqui para ver. O real se torna menor que o nada, pois este está carregado de mais ideias do que a própria realidade. O nada torna-se, assim, maior que o próprio real. Por que o chamamos de nada então? Ele é uma força, uma expectativa, uma expansão que esbarra em um limite. Só podemos concluir que o problema foi mal formulado.

Ordem e Desordem

A desordem é nossa segunda decepção. Acordamos, vamos até a cozinha para preparar nosso café da manhã e tudo está desorganizado, louça suja, empilhada, as coisas nos lugares errados, o fogão está impossível de usar. Como vamos preparar nosso pão na chapa e café com leite desta maneira, com esta desordem? A desordem = negação da ordem. Pois bem, novamente, dirá Bergson, temos um problema mal formulado. Isso pressupõe que acreditemos em uma organização e que não a encontramos quando olhamos para o mundo.

‘Desordem’ e ‘nada’ designam, portanto, realmente uma presença – a presença que desaponta nosso esforço ou nossa atenção; é nossa decepção que se exprime quando chamamos essa presença de ausência. A partir daí, falar da ausência de qualquer ordem e quaisquer coisas, isto é, da desordem absoluta e do nada absoluto, é pronunciar palavras vazias de sentido”

– Bergson, O pensamento e o Movente

O falso problema é formulado da seguinte maneira: Desordem = Realidade – Ordem. Em termos de negação, como se a realidade não devesse ser o que é, como uma imagem imperfeita de algo. Mas tudo já está organizado! Nós que não enxergamos! Então nós negamos o que está aí e propomos alguma outra coisa no lugar. Bergson recoloca o problema em termos de duração: Desordem = Realidade que se impõe + a capacidade de agir sobre ela.

As duas ilusões que acabo de assinalar são na verdade uma só. Consistem em acreditar que há menos na ideia do vazio que na do cheio, menos no conceito de desordem que no de ordem. Na verdade, há mais conteúdo intelectual nas ideias de desordem e de nada, quando elas representam algo, do que nas de ordem de existência, porque implicam várias ordens existentes e, além disso, uma fantasia mental que se diverte inconscientemente com elas”

– Bergson, A Evolução Criadora

Teísmo e Ateísmo

Talvez a confusão fique menor com outro exemplo. A mesma coisa acontece com o ateísmo. Há uma confusão enorme em torno da ideia de ateísmo. “Mas como você ousa negar Deus?”, “Você não tem Deus no coração?”, perguntam os crentes irritados! Este mal entendido se torna ainda pior quando nós postulamos a morte de Deus. Nós matamos Deus? Para isso é necessário que tenha havido Deus em algum momento. Houve um deus então? Sim e Não.

O problema está mal formulado, e não permite nenhuma resposta satisfatória, é preciso recolocá-lo: Não é que superamos Deus, não somos melhores que o teístas, não estamos um passo além. Nós nem mesmo chegamos em Deus! Eles que estão além de nós, por algum motivo. Eles viram o que a gente não vê. Eles escutam vozes e chamado que nem por sonho nós conseguiríamos afirmar. O ateísmo chulo, fraco, tolo, coloca-se acima dos crentes, em sua pretensa superioridade intelectual, há neste ateísmo a ideia de deus mais a negação dele, e por isso se sentem no direito de ridicularizar as religiões.

O que nós queremos dizer com ateísmo e morte de deus então? Não queremos cair em falsos problemas, seguiremos em outra direção. Nosso ateísmo é puro, por isso poderíamos chamá-lo de imaneísmo. Simplesmente não estamos preocupados com deus, não queremos ascender a ele, isso não faz parte de nossas intenções. Deus e ateísmo são um falso problema! Não há necessidade de postular deus para depois negá-lo, são muitas voltas, muito gasto de energia. Simplesmente vivemos, e, no próprio ato de viver, não chegamos a deus, mas alcançamos a vida imanente, isso basta…

A ideia de Nada, Desordem e (a)Teísmo é complicada demais, são falsos problemas, nunca encontrarão respostas boas. A filosofia de Bergson preocupasse com o campo do ser, da afirmação e efetivação das coisas e da imanência.

A Intuição faz a vida recolocar os problemas em termos de Duração e tempo. Assim, criamos as condições para a vida cria outras soluções. Não queremos ser vestibulandos respondendo maquinalmente exercícios de múltipla! Queremos mais! Em face de um problema dado, com suas múltiplas escolhas, nós, filósofos, podemos dar um passo para trás e colocar as próprias possibilidades de escolha. Ruim é o problema que sempre nos faz escolher o menos pior, queremos mais… por isso os recolocamos! Em vez de escolher entre respostas simplórias, queremos escolher as perguntas. Esse é um trabalho realmente filosófico. Ou seja, não estamos no campo do possível e do real, porque este constitui outro falso problema, mas um tanto mais complicado…

Texto da Série:

Duração

Rafael Trindade

Autor Rafael Trindade

Quero fazer da vida o ofício de esculpir a mim mesmo, traçando um mapa de afetos possíveis.

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Vera Castro
Vera Castro
2 anos atrás

Poxa! Que difícil!
Acho que consigo trazer esta ideia para dentro de mim. Como estou aposentada, às vezes, me cobro – que vou fazer? – Foi assim que inverti a pergunta – o que não vou fazer hoje? – Hoje não vou me matar rsrs, hoje não vou ao supermercado, hoje não vou a uma reunião etc.
A experiência foi divertida, porque eu alonguei a lista. E, agora, a leitura desse texto parece que ecoa este meu pensamento!
Gostei demais! Obrigada.
Bjs Vera