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Hormé, em grego, significa tendência. Tendência é a capacidade que todos nós temos de expressar desejo ou aversão. Ou seja, trata-se de uma energia ativa, um impulso, um esforço, para aproximar-se daquilo que convém à nossa natureza e afastar-se daquilo que não convém.

Não podemos esquecer que a Física e Lógica estoicas estão fundadas no Ato, na ação. Sendo assim, o mesmo acontece com a Ética, ela começa pela tendência, pela capacidade que um ser tem de se inclinar ou se afastar dos objetos à sua volta.

Para termos uma outra perspectiva, na biologia, o termo hormé foi usado para formar a palavra hormônio, ou seja, substâncias em nós que guiam nosso comportamento, nossa fisiologia e nosso humor.

A tendência é isto, este movimento. Mas para quê? Ora, a tendência primordial de todos os seres é seu instinto de conservação. Cada ser vivo, desta maneira, realizará um ato de afastar-se daquilo que o destruiria e aproximar-se daquilo que o conserva. Evitar o desequilíbrio fatal e buscar o equilíbrio vital. Para alguns será, por exemplo, ficar na água e afastar-se do solo, para outros será, por exemplo, afastar-se do mar e ficar na terra.

Toda tendência é ao mesmo tempo racional e natural. Cada corpo tem uma maneira de ser afetado e afetar que diz de sua natureza mais íntima, que diz se algo de exterior, se uma relação, será conforme sua natureza, sua tendência, ou não. A natureza de cada ser é em ato e indica como ele é afetado pelo mundo, qual é, portanto, seu habitat natural, onde ele pode florescer da melhor maneira. 

Podemos começar com exemplos da biologia, apesar deles seres limitados (pois tratam da espécie e não do indivíduo). Mas é só pensar em uma tartaruga que acaba de nascer, ela busca a água, onde sua tendência poderá se expressar plenamente. Ou em um pássaro que aprende a bater as asas para em seguida voar. Ou seja, todo ser vivo busca o que lhe convém e evita o que lhe impede de gozar do que convém

Certo, então a finalidade do impulso é a autoconservação. Sendo assim, a felicidade e o prazer são apenas o resultado natural de seguirmos nesta direção. Por isso, dizem os Estoicos, o bebê busca o seio antes de gostar de leite, para conservar-se. Esta concepção vai contra as ideias do epicurismo, não é uma questão de prazer, dizem os estoicos, é uma questão de tendência.

A Razão sempre vem antes para os estoicos. Os epicuristas podem dizer que é útil porque é boa, mas os estoicos insistirão que é boa porque é útil. De onde vem essa ideia? Da Física estoica, baseada nos elementos que se interpenetram e possuem relações de simpatia e antipatia.

E qual é a nossa tendência para os estoicos? Há uma natureza íntima para o ser humano em geral: o pensamento racional. Nós temos essa capacidade que outros seres não têm. Mas calma, isso não é definidor, pelo contrário, o pensamento estoico é diametralmente oposto às categorizações aristotélicas.

Todo ser é único, todo ser é em ato, todo ser tem uma capacidade singular de afetar e ser afetado. Sendo assim, para fazer uso de um anacronismo, todo ser tem sua vocação. Essa inclinação precisa ser desenvolvida ao máximo e a razão pode ajudar exatamente nisso! Nós não temos um telos, uma  finalidade, pois os estoicos ficam apenas com a causa eficiente, mas temos uma capacidade de afetar e ser afetados que se desenvolve.

Sendo assim, o caminho é mais importante que o destino. E a tendência de cada ser indica inúmeros caminhos possíveis e interessantes. A razão simplesmente ajuda neste processo. O impulso pela autoconservação se alimenta da tendência com a ajuda da razão. 

Viver conforme a sua natureza é isso, é viver conforme a natureza como um todo, não a despeito dela. Essa natureza singular procura uma constância na natureza que é maior que ela, viver de forma harmoniosa é fazer sua natureza se compor com a natureza toda. Sendo assim, apropriar-se de si é apropriar-se do mundo!

Os estoicos ensinam que é necessária uma reconciliação entre a parte e o todo, estamos separados de nós e do mundo ao mesmo tempo. Essa harmonia definirá, para os estoicos, o bem e o mal, as paixões e as virtudes. Tudo que permite seguirmos nossa tendência de autoconservação é bom, e tudo que impede de nos conservarmos é mal.

A razão modela a tendência mostrando o que é conveniente nas inclinações, dá sentido. Com que fim? Encontrar uma harmonia perfeita entre a conduta e o acontecimento. Tudo que for contra isso, será então, a partir de agora, definido como uma paixão.

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Rafael Trindade

Autor Rafael Trindade

Quero fazer da vida o ofício de esculpir a mim mesmo, traçando um mapa de afetos possíveis.

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Vanessa Aquino
Vanessa Aquino
10 meses atrás

Fiquei pensando nesta tendência como uma demanda primária de nossa natureza. Pois aceitando ou não, querendo ou não, somos parte dela e reconhecer-se parte dela é aprender a se conservar.
Mas me veio à questão, e o que é a tendência à destruição então? A tendência à escravidão, auto destruição. Um verme talvez, que nos controla por dentro, como a toxoplasmose que secretamente nos impele à ações até suicidas (https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC5810447/), que encolhe nossas potências. Certa de que a resposta está em algum de seus outros textos, resta continuar lendo esses textos que vocês criam com leveza e brilho.

Pedro Elias
Pedro Elias
Reply to  Vanessa Aquino
5 meses atrás

Oi Vanessa.
Eu pensei, lendo seu comentário, no início do último parágrafo: “A razão modela a tendência mostrando o que é conveniente nas inclinações”. Essas inclinações destrutivas podem parecer persuasivas, mas como você falou, reconhecê-las é aprender a se conservar.
E, se quisermos lembrar bakunin, toda destruição é, em última análise, uma forma de criação. Cabe a nós, pelo exercício da razão. Filtrá-la. Abraço.