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Filosofar é aprender a morrer”, talvez esta seja um dos maiores ensinamentos da filosofia. Grandes filósofos como Sócrates, Platão, Sêneca, Montaigne e Heidegger disseram isso em seu livros. Ora, os estoicos também meditavam sobre a morte, mas o que isso quer dizer?

Primeiramente, a filosofia nos ensina que vamos morrer. Primeiro ela ensina isso como um fato físico, somos finitos; e depois como uma preparação mental, o que fazer com esta constatação? Certo, então a morte é necessária do ponto de vista de que nosso corpo é mortal e perecível, além de ser superado por inúmeras outras causas que podem nos destruir, mas como devemos reagir a isso?

Não desprezes a morte; regozija-te com ela porquanto está também entre aquelas coisas que atendem ao desejo da natureza. De fato, a dissolução é como ser jovem, como tornar-se velho e crescer, tornar-se maduro, ter dentes, barba, cabelo grisalho, e engendrar, engravidar, conceber, e todas as demais atividades naturais trazidas pelas estações de tua vida. Isso, por conseguinte, é o que se coaduna com uma pessoa, ponderada, ou seja, com referência à morte, não ser negligente, nem impulsivo, nem desdenhoso, mas por ela aguardar como uma das atividades da natureza. Como agora aguardas o momento em que o bebê saía do útero de tua esposa, prepara-te para a hora na qual tua pequena alma vai abandonar esse invólucro” – Marco Aurélio, IX, 3

Primeira lição: Não ser negligente, nem impulsivo, nem desdenhoso. A morte é um desejo da natureza, faz parte de seu ciclo. Ela precisa e vai ocorrer. Ela é tão necessária quanto qualquer outra coisa natural, como nascer, respirar, comer e se reproduzir. Fingimos que a morte não existe, ou que existe apenas para os outros. Mas a filosofia nos faz atentar para este fato tão real quanto necessário: todos nós, em algum momento, vamos morrer, pode ser hoje, ano que vem ou nas décadas seguintes, mas certamente chegará o dia.

Em suma, a morte não se opõe à nossa razão, pelo contrário, a razão nos mostra a sua necessidade indefectível. Sendo assim, a morte se opõe apenas ao corpo, pois o faz perecer. E aqui está o cerne do problema, é apenas o corpo que treme diante da morte.

Na vida em que teu corpo não se deixa abater, é vergonhoso que nela tua alma se deixe abater antecipando-se a ele” – Marco Aurélio, Meditações, cap VI, §29

Se o corpo se mantém vivo até não poder mais, se o coração bate até não conseguir, por que a mente treme antecipadamente diante da morte e foge diante de sua ideia? Ora, aqui lembramos Epiteto: “Não é a morte que nos perturba, mas aquilo que pensamos dela”.

O corpo fica vivo até não poder mais, mas a pobre mente se deixa abalar. Por quê? Se a morte é necessária, ela não é um mal, ela é indiferente. Sim, claro, é preferível estar vivo, mas estar vivo não é necessariamente bom, é possível estar vivo e ser tolo e infeliz. A mente se engana e toma a vida como um valor, mas para os estoicos o único bem é a virtude. Se a vida for dedicada à virtude, então ela será boa e preferível à morte.

Vemos então que lentamente a pergunta muda: não nos perguntamos mais sobre a morte, mas sobre o modo como vivemos. O tolo não sabe viver e encara a morte como um mal, porque gostaria de viver mais para se realizar, ser rico é tudo que o tolo busca sem nunca encontrar a felicidade. Já o Sábio aprendeu a viver e encara a morte com serenidade, concebendo-a como necessária. Conclusão: Se vivermos de verdade, virtuosamente, sabiamente, não teremos medo de morrer!

Não há nada em que o homem livre pense menos que na morte, e sua sabedoria não consiste na meditação da morte, mas da vida” – Espinosa, Ética IV, prop 67

– Pieter Claesz

Viver bem ensina a morrer bem! E para viver bem precisamos da filosofia! Este foi o último ensinamento de Sócrates. Ele aceita tomar a cicuta, mesmo que injustamente, porque a vida não examinada não valia a pena ser vivida. Esta era a única maneira possível de viver: filosofando. 

O que isso quer dizer? Sócrates foi morto por fidelidade ao Logos! Sócrates foi morto por manter-se fiel a si mesmo. “Não posso viver sem filosofar, não posso viver de outra maneira, não posso viver sem manifestar plenamente quem sou”. Para Sócrates, era necessário viver fiel à Razão, ao Logos, à Natureza, a si mesmo. Se isso não fosse possível, tudo bem, ele havia tentado e conseguido isso pelo máximo de tempo possível.

Saber que vamos morrer nos leva a examinar nossa vida. O que é essa vida que vivemos? Gostamos dela? Ela faz sentido para nós? Para Sócrates fazia, e deste modo ele podia partir em paz. “Posso morrer bem porque não me desviei de mim mesmo, estive desperto quando vivo”, ele diria. 

Aprender a morrer é desaprender a ser escravo” – Montaigne

Montaigne diz isso pensando em Sócrates e na sua filosofia. Meditar sobre nossa morte nos faz refletir sobre nossa vida. A morte é natural, mas apenas o sábio aprendeu a encará-la desta maneira. E por isso ele nos incita a nos livrarmos daquilo que nos faz viver contra nossa natureza. 

Ao meditarmos sobre a morte, sobre o fim, sobre a finitude, aprendemos a viver a vida com mais plenitude. A meditação sobre a morte é, na realidade, uma meditação sobre a vida. Ou melhor, sobre a necessidade da vida e as possibilidades de viver bem enquanto estamos vivos.

Nós vamos morrer, não pode ser de outra maneira. Aliás, segundo a filosofia estoica, o universo inteiro nasce e morre. Se o próprio universo precisa morrer, quem somos nós para discordar de tal ordenação? A preocupação passa a ser então com a indiferença da morte e a necessidade da virtude. O tolo quer a eternidade, o sábio quer a vida autêntica. Um morre gritando de medo, o outro morre serenamente.

Veja a série:

Marco Aurério – Meditações

Rafael Trindade

Autor Rafael Trindade

Quero fazer da vida o ofício de esculpir a mim mesmo, traçando um mapa de afetos possíveis.

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