Skip to main content

Carrinho

Close Cart

Até que nem tanto esotérico assim
Se eu sou algo incompreensível, meu Deus é mais
Mistério sempre há de pintar por aí…

Gilberto Gil

A premeditação dos Males Futuros é considerado um dos exercícios estoicos mais importantes e com certeza um dos mais famosos. Mas o que seria premeditar as adversidades futuras? Simples, considerar que as ações que realizamos estão em nosso poder, mas não o resultado delas.

Premeditar os males futuros é dizer: “As coisas não necessariamente vão sair como eu espero. Aliás, tudo pode dar errado! A vida não caminha do jeito que nós queremos, mas como ela quer”. É considerar que o destino não necessariamente quer a mesma coisa que a gente.

Precisamos considerar, com este exercício, que cada ação encontrará adversidades constantes pelo caminho. Vamos encontrá-las, isto é fato. E portanto devemos estar preparados, sempre na medida do possível. Nos preparar para permanecermos calmos quando encontrá-las, porque sabemos que virão. 

Primeiro exemplo: O quanto podemos nos preparar? Ora, é sempre possível se precaver até certo ponto, não é?. Exemplo: vamos viajar, olhamos se o pneu está cheio e se tem água no carburador? Checamos o caminho e se tem bateria no celular para olhar o GPS? Avisamos alguém sobre o nosso destino? Enfim, estamos precavidos? Prudência é pró-videre, é a capacidade de ver antes problemas que chegarão depois.

Mas mesmo tomando cuidado, as coisas podem dar errado, aqui entramos no campo da disciplina do desejo, viajar era nosso objetivo, mas talvez não o que o universo tinha reservado para nós. Mesmo nos precavendo, as coisas sempre podem dar errado de maneiras inesperadas.

Segundo exemplo: Estamos no meio de uma pandemia? Sim. Como podemos nos precaver? Ora, lavando as mãos, usando máscaras, não aglomerando, ficando em casa, etc. Mas mesmo assim, podemos nos contaminar, não é mesmo? Uma coisa é o que está em nosso poder, outra coisa é o que não está em nosso poder. 

Meditar sobre os males futuros nos ensina a estar mais preparados para o que pode dar errado e, ao mesmo tempo, aceitar com mais serenidade se/quando elas acontecerem… porque fazem parte da vida. É uma lição de humildade, somos tão pequenos frente ao mundo, porque ele haveria de seguir o curso que nós desejamos? Ele segue seu próprio curso e somos nós quem deve aprender a acompanhá-lo.

E vejam só como este exercício é o exato contrário da positividade tóxica de nossos tempos! A premeditação dos males futuros parte do princípio de que todo medo se torna menor se devidamente analisado. Os estoicos não “pensavam positivo”, eles se exercitavam para criar resiliência e não ilusões. 

Trata-se de um pessimismo saudável. Pensamos os piores cenários! E pensamos que realmente podem acontecer! Oras, afinal, nada os impede! E se podemos fazer algo para nos prevenir, façamos! Se não podemos, aceitemos! A mesma coragem para enfrentar o acontecimento é usada para aceitá-lo com serenidade.

Os estoicos dão dois exemplos disso:

  • O Capitão do Navio nomeia a tripulação, define o caminho, examina a direção dos ventos, determina a posição das velas. Mas, no fim das contas, não tem poder sobre o vento e o mar, ele simplesmente não sabe se o barco vai afundar ou não. Ele age sobre o que está sob seu controle, mas não tem controle sobre o resultado de suas ações.
  • O Arqueiro escolhe o arco e a flecha, se concentra e mira o melhor possível. Mas, não escolhe a distância do alvo e o vento e, no fim das contas, não pode dizer com certeza se a flecha vai acertar o alvo ou não.

Terceiro exemplo: o técnico de futebol treina o time da melhor maneira, estuda seu oponente, vê as táticas que ele usa no jogo, pede para o zagueiro marcar aquele atacante que é artilheiro. Ele se prepara o melhor possível para ganhar. Mas o tempo todo ele precisa saber que poder perder. Simplesmente porque perder é uma opção. E se perder pode acontecer, então é preciso se preparar para isso também.

Para os estoicos, a ação refletida é muito mais importante que o resultado imprevisível. Ou seja, reflete-se para fazer o melhor e se dá valor a isso. O resultado pode vir ou não vir, mas isso não tem tanta importância, contanto que façamos aquilo que consideramos o correto e dentro de nossas capacidades. Ou seja, não é a fortuna que dirá se a ação é valorosa ou não.

É isso que eles chamavam de “Realizar o empreendimento com devidas reservas e restrições” (Marco Aurélio). Premeditamos os males futuros porque sabemos que qualquer empreendimento pode ser frustrado pelo destino. Por isso são comuns os dizeres: “Se o destino permitir”, “Se nada me impedir”, “Se (os) deus(es) quiser(em)”.

Aqui podemos ver como o estoicismo influenciou os primeiros cristãos, porque esta ideia tornou-se uma expressão que nós conhecemos: “o homem põe e deus dispõe”. Isso quer dizer, segundo a sabedoria popular, que nós realizamos as ações, fazemos planos, mas o resultado final está nas mãos de uma força maior.

Os estoicos orientam-se pela razão, eles avaliam o melhor possível, mas agem sempre em um mundo que não lhes garante nada. E ainda assim ele age, isso não o impede, ele sabe o que é o certo a se fazer, mesmo que o resultado não esteja garantido. Em suma, mesmo confiando na razão, ele está condenado a agir na incerteza.

A fortuna é sempre o outro lado da moeda. Como um jogador de xadrez, podemos apenas avaliar a nossa jogada, mas não podemos escolher as peças que o oponente moverá. Não está em nosso poder ganhar, mas está em nosso poder fazer o nosso melhor.

Para concluir, podemos usar uma frase de Gramsci: “Pessimismo na razão, otimismo na ação”. Ou seja, otimismo da ação, porque queremos que dê certo e agimos com esta intenção; mas pessimismo da inteligência, que nos adverte sempre da possibilidade de frustração da expectativa.

Mais textos sobre
Marco Aurélio – Meditações

Rafael Trindade

Autor Rafael Trindade

Quero fazer da vida o ofício de esculpir a mim mesmo, traçando um mapa de afetos possíveis.

Mais textos de Rafael Trindade
guest
0 Comentários
Inline Feedbacks
View all comments