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Subamos!
Subamos acima
Subamos além, subamos
Acima do além, subamos!
Com a posse física dos braços
Inelutavelmente galgaremos
O grande mar de estrelas
Através de milênios de luz.

Os AcrobatasVinícius de Morais

O exercício espiritual da Visão do Alto faz parte da Disciplina do Desejo. Se no exercício da Impermanência das Coisas nos colocávamos na perspectiva dos objetos, ou seja, de seu fluir eterno de modificações, aqui, no exercício da Visão do Alto nos colocamos na perspectiva do todo.

Sendo assim, podemos dizer que o movimento agora é o contrário, sair da impermanência e entrar na eternidade. Deixar a perspectiva efêmera das coisas em si, em seu fluir contínuo e ininterrupto, e adquirir a perspectiva do Uno, do Todo, do Logos, de Deus.

O Exercício faz um movimento de ascensão: começa pelas nossas sensações e pensamentos, tudo bem próximo; mas então saímos de nosso eu limitado e encontramos os outros; depois o olhar se eleva para o nosso bairro, nossa cidade, nosso país como um todo; mas não paramos aí, a partir de então continuamos nos elevando, cada vez mais, agora para o continente, até observar o nosso planeta redondo e azul; ainda não é hora de parar, continuemos, vamos mais longe agora para observar o nosso sistema solar, com seus planetas, luas e asteroides; continuamos subindo e vemos as milhares de milhares de estrelas que compõem a nossa enorme galáxia até finalmente vermos o universo como um todo, na sua mais absoluta vastidão.

Quão minúscula é a porção do tempo ilimitado e infinito que foi destinada a cada um de nós! Com efeito, com suma celeridade se desvanecerá na eternidade. Que porção irrisória da substância do universo! Que porção insignificante da alma do universo! Para qual minúsculo torrão de terra te moves penosamente? Em meio a essa reflexão, firma-te na ideia de que nada tem grande importância, exceto se agires como orienta a natureza e suportares o que a natureza comum te traz” – Marco Aurélio, Meditações, cap. XII, § 32

Qual o objetivo deste exercício? Adquirir tranquilidade ao elevar-se, ao adquirir uma nova perspectiva, uma visão do alto. Poderíamos talvez dizer que o objetivo aqui é ver pelos olhos de Deus, e assim, deste modo, aprender a desejar como ele, a adquirir a paz e certezas que ele tem.

Desde a Disciplina do Assentimento já podíamos dizer: tudo se encontra na maneira como olhamos o mundo, na perspectiva que temos dele. Ou seja, um ponto de vista diferente nos dá uma proporção diferente das coisas. O ponto de vista do todo nos dá um ponto de vista universal, e isto acalma.

Como a natureza dispôs o universo? Qual a sua ordem e determinação universal e necessária? O que a natureza deseja de nós? Esta meditação intensa da unidade viva do cosmos, que faz parte da física, é capaz de alterar a maneira como valorizamos as coisas e nossas atitudes. Se nos elevamos, somos outros, olhamos de outro lugar, saímos do nosso pequeno eu.

Contemple, do alto, os rebanhos humanos que não têm fim, rituais sem fim, incessantes viagens, na tempestade e na calmaria, veja os diversos seres nascendo, convivendo, morrendo. Imagina também a vida que outros viveram no passado, a que se viverá depois de ti, e a que se vive agora nos países bárbaros; quantos sequer sabem o teu nome; quantos logo o esquecerão, quantos ora te louvam, e em breve te censurarão. A fama nada vale, nem a glória, nem o que sobra disso tudo” – Marco Aurélio, Meditações, IX-30

O que realmente importa quando pensamos isso? Honras, riquezas e fama? Definitivamente não. O que muda quando adquirimos uma visão do alto? As coisas que antes pareciam de extrema importância se mostram pequenas e desimportantes. A opinião dos outros ainda importa? Não. Uma briga tola por motivos mais tolos ainda importa? Não, ela é menor em face do todo. Olhando o mundo de cima, o que deveríamos realmente fazer? Não nos afastamos para não existirmos ou para uma resignação contemplativa. A Visão do Alto quer adquirir a exata proporção para saber a coisa certa a se fazer.

É por isso que os estoicos disseram que sua filosofia exige coragem (força do coração). Coragem exige ser Magnânimo (magno + animus), ter uma alma grande, que abrace todo o universo de uma só vez, não uma alma pequena, egoísta. Quais desejos cabem nesta alma maior? O que uma alma que se eleva começa a valorizar e a desprezar? O que fica cada vez maior e cada vez menor? Esta alma que se engrandece começa a agir diferente, se dedica com ainda mais afinco à Razão e à Comunidade, as duas características que nos fazem humanos.

O exercício de Visão do Alto é um exercício para vermos com mais clareza. É um exercício de pensamento: ao nos elevarmos, ao vermos as coisas de uma perspectiva maior, o que concluímos que devemos fazer? Quantas coisas deixam de nos afetar quando pensamos assim e quantas respostas novas aparecem para nós? Certas coisas se tornam pequenas demais para nos importunar quando estamos neste estado, e começam a se desvanecer enquanto o exercício ocorre. Da perspectiva de uma alma elevada, muitas coisas se tornam menores e podem ser suportadas com mais facilidade; mas muitas outras coisas adquirem uma importância com valor de eternidade, e estas queremos abraçar com toda a nossa existência.

É isso que Espinosa chamava de pensar os pensamentos de Deus, de amar sua criação como ele ama. Ver o mundo pela perspectiva da eternidade, aprendendo a amá-lo como ele é. Nos permitir ser inundado por esse sentimento oceânico nos ensina a desejar de uma maneira nova e virtuosa. É mais um passo em direção à sabedoria.

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Rafael Trindade

Autor Rafael Trindade

Quero fazer da vida o ofício de esculpir a mim mesmo, traçando um mapa de afetos possíveis.

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Ignacio Bulhões
Ignacio Bulhões
1 mês atrás

Prezado comentador de Marco Aurélio. Se me permite, vc foi rápido demais a Deus. Vc apenas chega ao que todo mundo conhece. Ou pensa que conhece. De fato, talvez neste caso, a teologia deve, atendendo aos milhões que tem seu nome na boca, considerar que se não na mente conceitual, num coração onde todos parecem se encontrar. É como estar acima de Bolsonaro e a alternativa. Posso errar, o deus ou a razão dos estoicos é muito mais inflexível onde falamos em narrativas da vacina, de Deus, da democracia, da economis. As primeiras cotações de Marco Aurélio são de uma… Ler mais >