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Admitir que nos interessamos nos outros é o primeiro e, talvez, o mais essencial exercício para desplatonizar o amor. Muitos séculos de romantismo barato rebaixaram o amor na tentativa de elevá-lo aos céus. Idealizar, eis a velha receita para acabar com o mundo. O mito do amor puro, abnegado, caridoso, voluntário só nos fez ter medo de realizar amores e desconfiar do amor que sentimos uns pelos outros. 

O interesse é a afirmação que encontramos na base das relações. Quando foi que isso se tornou suspeito? Ora, se pensarmos a palavra sem preconceitos veremos que interesse significa apenas o espaço entre “eu” e “esse”. Não há porque negar, todos buscamos essa intersecção. Queremos o contato, desejamos a pele, almejamos a troca. Para além de qualquer redução genital, penetramos e somos penetrados pelos outros – e assim é que é bom.

Temos que desconfiar da concepção anti-séptica de amor. As misturas são menos perigosas do que as fazem parecer. Promíscuo por acaso é insulto? Será que somos tão distintos assim? Nossos corpos estão permeados uns nos outros e qualquer razão sanitária nunca será suficiente para afastá-los totalmente. Já aprendemos com as plantas uma metafísica da mistura. É tão inútil pensar que os corpos são absolutamente individuais quanto pensar que as ideias estão a salvo do contato com o outro – o outro também está em nós!

Quando falamos em interesse, pensam logo – e de forma pejorativa – em egoísmo. No entanto, se desconfiarmos por um momento, veremos que pensar em si não significa desconsiderar o outro. Isto é, um interesse não é necessariamente individual e unilateral. Uma relação que desconsidera completamente o outro não pode ser amor. Quem pensa apenas em si mesmo acaba se relacionando com os outros por predação, relações abusivas, ou por parasitismo, relações de dependência. Alguém que realmente pense em si sabe que a melhor forma de ganhar é pensar também no outro. O amor só existe como alegria-mútua. 

O desinteresse só pode ser fruto de um desafeto. Nos parece que a exigência de um amor desinteressado é um disfarce. Na realidade, o que se pede é a garantia de eternidade: “Não deixe de me amar, isente o teu amor de quaisquer circunstâncias”. É preciso estar atento: a vontade de que o amor continue o mesmo independente das mudanças mostra o quanto temos medo do devir e isto pode sufocar a relação. Exigir um amor eterno é arrancar a vida das mãos do outro.

É claro que é difícil se relacionar, é óbvio que não queremos que tudo mude o tempo todo. Não queremos o término, nem o abandono. Temos medo, certamente. Mas o caminho para a duração não é a aposta na imobilidade. Querer que a relação sobreviva à qualquer custo acaba levando-a à morte cerebral, sustentada por respiradores artificiais. No amor, o fim precisa ser considerado como um recomeço, mesmo que seja com as mesmas pessoas!

Encarar o amor como um porto ao qual se atraca para não mais sofrer, para não mais mudar, para nunca mais navegar, nos parece tão sem graça. Queremos explorar a vida a dois – ou mais. O amor não é um ponto final, é a abertura de um parêntese, uma digressão intensiva no meio de um texto cotidiano e queremos preenchê-lo de assuntos variados. 

Temos que considerar a atualidade dos nossos interesses. Estamos indo para algum lugar interessante? Não podemos aceitar o pedido de indiferença, pois somos os maiores interessados em nossos próprios caminhos. A intensidade da relação acaba dependendo, cedo ou tarde, de que os interesses sejam colocados. Evitar algo que nos parece essencial em nome de outra pessoa só leva à frustração e acaba trazendo um peso recorrente e crescente para a relação.

O que são esses interesses? São valores, princípios, afirmações que norteiam o desejo. Desejamos viver e, quanto mais vivências temos, mais nos conhecemos e mais cultivamos nossos interesses. É difícil como seguir uma rota que sempre muda, mas calma!, cada vez que a percorremos nos conhecemos um pouco melhor. Nem sempre sabemos exatamente o que queremos, ainda assim, amigos, se há um esforço que compensa é essa exploração. 

Um interesse não é exatamente a formulação pontual de uma vontade, mas as linhas intensas que identificamos no plano desejante, e que nos encaminham à alegria. Perceber um valor como tendência nos dá a capacidade de criticar, refrear e encontrar medidas para ele, ao invés de cultuá-lo. Para escapar das armadilhas da identidade, precisamos perceber que o interesse é apenas uma direção que nos favorece em termos de alegria. 

Ter um norte não significa saber exatamente para onde ir, um ponto cardeal é uma referência para não se perder. Nortear-se por interesses não é intransigência, é o resultado de um processo de exploração de seus mares íntimos. Nesse sentido, um direcionamento não é um campo predeterminado e individual. Ao contrário, é tão aberto e tão expansivo quanto coletivo. Precisamos reinventar o egoísmo sem ego para andar por caminhos alheios sentindo que pisamos em solo próprio.

Quando definimos um grupo de interesses somos capazes de graduar a intensidade sem perdê-la na imobilidade. Cartografar o desejo não é senão uma tentativa de localizar-se naquilo que é pura desterritorialização. Em vez de paralisar tudo em fronteiras tão arbitrárias e bem delimitadas, usamos os interesses como bússola. Nossos mapas exprimem o mais organicamente possível o relevo que cobrem. Em outras palavras, os interesses são indicativos nos quais confiamos ao explorar territórios desconhecidos.

Cabe muito cuidado com as declarações do tipo: “sou isto”.  Por mais precisão que um nome possa ter, ele nunca dará conta da realidade, pois ela se move por detrás das palavras. De onde brota o desejo de estancar a multiplicidade? Paranoia classificatória não nos torna mais aptos a compreender, ao contrário, nos torna mais julgadores. Nunca seremos capazes de fazer uma lista exaustiva de interesses, porque quanto mais alegria, mais amor e assim a lista cresce – e como queremos que ela cresça! Não é portanto uma questão nominal enciclopédica, mas uma questão indicativa. 

Naquilo que nos atrai buscamos os índices intensivos. O que nos atrai? Já fizemos essa pergunta? Provavelmente sim, mas será que a resposta foi dada por nós mesmos? Para não pensar que estamos desafinados em meio ao coro dos contentes, parece fundamental repetir essa pergunta o tempo todo. Não buscar o que nos dizem ser bom, mas investigar o que nos interessa para ver se é realmente bom. Desprender-se de toda normatividade em busca de alguma autenticidade. Lá onde está nosso fascínio, estará também alguma intensidade, resta saber se somos capazes de nos relacionar com ela.

O interesse é uma razão de composição, uma forma de medir o envolvimento. Um interesse é simplesmente algo que estimamos no mundo e em nós mesmos, um valor. Ter clareza sobre esses valores nos permite encontrar a melhor distância em uma relação. Ainda que muitas vezes sintamos a necessidade de nos lançar em direção ao outro, a dedicação afetiva merece cuidado, tanto conosco quanto com o outro. O desenvolvimento de relações íntegras, onde os desejos estejam bem arranjados, depende do autoconhecimento como cuidado.

Quando amamos alguém estamos mais do que interessados, estamos envolvidos. Queremos saber não só os segundos, mas os terceiros, quartos e quintos interesses. Acompanhamos de perto o que interessa ao outro, pois é aí que o contraponto se torna possível. É no campo do interesse comum que o amor floresce, mas é também esse campo que se amplia com o desabrochar da relação.

Texto da Série:

Anarquia Relacional

Rafael Lauro

Autor Rafael Lauro

Música e Filosofia são as linhas que tecem a minha vida...

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Vanessa Aquino
Vanessa Aquino
6 meses atrás

Obrigada por essa pérola!

Ellyson
Ellyson
5 meses atrás

Obrigado, muito boa a série!

Annelise Magalhaes
Annelise Magalhaes
4 meses atrás

Muito bom! Amando essa série!