As raízes são a parte enigmática do mundo vegetal”

– Emanuele Coccia, A Vida das Plantas, p. 111

A raiz talvez seja a parte mais mal compreendida da planta, ela se esconde, ela é tímida e parece não querer nada com a visibilidade. Isso é perigoso, pois permite que outros falem em seu nome. Platão e Aristóteles, por exemplo, fizeram esta análise: se a raiz da planta é o que a sustenta, então ela deve ser a parte mais importante. Um passo em falso e já começam a se perder no raciocínio: se a cabeça do homem é o que sustenta os pensamento, eles continuam, então ela só pode ser sua raiz, que nos eleva ao mundo das ideias (o que nos faz plantas de ponta cabeça). Dá pra imaginar? Coitados, deixemos estes estranhos pensamentos de lado!

No discurso comum, raiz é símbolo daquilo que é a essência, ou seja, a base, o fundamento que sustenta tudo. Deste modo, nos acostumamos a pensar a raiz como algo estático, sólido, o motor imóvel da vida. Nada mais falso! Continuamos a pensar o movimento a partir do repouso, continuamos a pensar o predicado a partir do sujeito. Em suma, continuamos a fazer metafísica eurocêntrica.

O pensamento baixo quer afundar a cabeça na terra, nada mais tacanho! Imagina que lá está a segurança dos conceitos. Quanto mais rasteja, mais pensa que está em segurança e mais vê quem voa com desconfiança. Diz que suas profundezas e cavernas subterrâneas são sua essência e o torna quem é.

O Geocentrismo é o engodo da falsa imanência: não há uma terra autônoma. A terra é inseparável do Sol. Dirigir-se para a terra, embrenhar-se no seu seio, significa sempre elevar-se para o Sol. Este duplo tropismo é a própria respiração do nosso mundo, o seu dinamismo primário”

– Emanuele Coccia, A Vida das Plantas, p. 126

Afundar para subir, descer para elevar-se, eis o paradoxo da vida vegetal. Mas parece que nós esquecemos como se faz isso. Imaginamos raízes pensantes e ficamos orgulhosos, logo imaginamos que assim seremos capazes de escapar do corpo e viver no mundo das ideias. Mas a planta não, com ela é diferente, ela abraça a escuridão apenas para encontrar a luz. Suas raízes sustentam o que vai para outro lado. Os dois ao mesmo tempo, juntos, retroalimentando-se. Chega de geocentrismo, ele por si só não dá conta da vida. Queremos a profundeza e os astros! Conjunção! Queremos a terra e o céu.

Por isso o geocentrismo demorou tanto para ser desmascarado. Sempre pensamos em termos de fundamentos, mas a terra não é o centro do universo! Ainda assim, parece que a filosofia não conheceu Copérnico (o que faz a revolução de Kant um engodo), pois ainda pensamos de maneira geocêntrica. Sempre à procura da terra, dos fundamentos, do imóvel. Mas as plantas sabem que a vida é um movimento terrestre e um movimento solar. Uma dança. E este, por sua vez, está em movimento da dança galáctica. Elas sempre souberam, mas não têm boca para nos dizer, nós tínhamos que ouvir de outra maneira. A vida vegetal aprendeu a aproveitar este dinamismo do claro e do escuro. Toda vida vegetal ama a escuridão da terra, mas é heliocêntrica por essência.

A planta realiza uma conexão, é disso que estamos falando, seu caule é a ligação entre a terra e o céu. Colocar a Raiz como um dos fundamentos, que se liga do outro lado com o Sol é fazer da vida um dinamismo perpétuo. O caule é afirmação dupla, disjunção inclusa. Ora a sombra, ora a luz; ora a terra, ora o céu. Toda vida vegetal afirma-se na pluralidade. O mundo deixou de ser algo estável e fixo, agora ele é um caldeirão fervilhando vida e energia.

Afinal, de que serviria um fundamento em si mesmo? De que serve a raiz pela raiz? Resposta: para nada. A Raiz é instrumento, ela se agarra como o alpinista que não quer cair, mas que também não quer permanecer onde está. Se a raiz é a nota fundamental, então ela só serve como ponto de partida para a verde melodia que cresce. Em suma, a raiz não é ponto de chegada, é ponto de partida! Ela não é ponto de chegada, nem ponto de partida, ela é conexão. Conexão com a terra, devoção ao céu!

Territorializar-se para melhor desterritorializar-se; desce para subir; prender-se, para melhor estar solto; muita disciplina, para conseguir ser espontâneo. Estes são os paradoxos da planta. Como não vimos isso antes? Ela ama a terra, porque ama o céu! E abraça cada um do dois através de uma de suas extremidades. Ápice da disjunção inclusa: ela quer os dois e desdobra-se para conquistá-los. Ela precisa de sua virtualidade sombria para melhor afirmar-se numa atualização luminosa, cone telúrico da memória.

A raiz é apenas um dos elementos, uma das partes. Ela ensina: não estar solto demais e nem estar preso demais; nunca descer sem subir; nunca almejar o distante sem fincar raízes. A planta faz da terra a sua casa, mas abre sua janela para todo o universo, ela respira o ar, bebe a água de banha-se ao sol. A raiz é um fazer casa sem esquecer-se do mundo.

É como se as plantas vivessem simultaneamente duas vidas: uma delas aérea, banhada e imersa na luz, feita de visibilidade e de uma intensa interação interespecífica com outras plantas, outros animais – de qualquer porta; a outra ctónica [subterrânea], mineral, latente, ontologicamente noturna, cinzelada na carne de pedra do planeta, em comunhão sinérgica com todas as formas de vida que o povoam. Estas duas vidas não alternam entre si nem se excluem”

– Emanuele Coccia, A Vida das Plantas, p. 114

A Raiz nos mostra algo inegável: habitamos sempre dois mundos (ou mais). Ela está ao mesmo tempo embaixo e acima da terra. Dois meios radicalmente diferentes: a terra e o ar, o solo e o céu, o sólido e o gasoso. Ora, exatamente como nós! Há a parte que podemos ver, que se presentifica, mas ao mesmo tempo em que há a parte que não vemos, nosso passado, nossas experiências, tudo aquilo que nos trouxe até aqui. Nosso passado nos dá raízes, ele nos impede de ser levado por qualquer brisa do presente. Bergsonismo botânico: o passado que permanece no presente, empurrando o atual para frente.

A raiz da planta diminui a distância entre a terra e o sol, faz os dois corpos celestes se abraçarem. Elas fazem o Sol habitar mais perto da terra, e através da folha, faz o sol habitar a terra uma segunda vez: transformando sua energia e sua luz em corpos vivos. Sua força não se esconde, seu enigma afinal não é indecifrável: a raiz é a declaração de amor da planta para o universo.

Sendo assim, podemos concluir: a raiz não é o que se esconde, ela não tem medo de se mostrar, a questão é outra. Ela quer descer! Sua força a move para baixo! Com a mesma força que o caule se eleva, a raiz duplica a gravidade e rasga o solo. Ela faz jus ao amor de Zaratustra: “Amo aquele que quer declinar”. Ela faz jus ao pedido de Zaratustra: “permanecei fiéis à terra”. Lição de sabedoria vegetal: Se queres se elevar, atinge as profundezas, quem abraça o solo, voa mais alto.

Texto da Série:

Metafísica da Mistura

Rafael Trindade

Autor Rafael Trindade

Quero fazer da vida o ofício de esculpir a mim mesmo, traçando um mapa de afetos possíveis.

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Carmen Lúcia
Carmen Lúcia
3 meses atrás

Cada vez mais assombrada com a beleza dos teus textos; da mais alta folha, à mais funda raiz. Obrigada!

Vera Lúcia de Castro
Vera Lúcia de Castro
1 mês atrás

Ahh! Eu acho que somos árvore, em alguma medida!
Amei ler esse texto. Obrigada, Rafael.
Vou deixar um poema aqui, para dialogar com ele.
Exílio do chão

Nossos pés são raízes
De árvores antigas
Que se desgarraram do chão.
Guardam ainda o desejo de volta ao pó.
Com garras com gana de agarrar- se
Para não se perder no mundo.
Presos ao solo rico de nutrientes vitais,
Meus pés querem a terra
Numa relação simbiótica
De prisão voluntária
E de contentamento.
(Vera Castro)

Beijos 🙂