“O que se faz por amor sempre acontece além do bem e do mal”

– Nietzsche, Além do Bem e do Mal, §153 

O que é o amor? Na filosofia, uma boa pergunta traz sempre mais de uma resposta. Sendo assim, a nossa pretensão é menos exaustiva do que criativa. Muitas definições foram dadas, mas muito mais serão ainda inventadas.  Não queremos resolver o enigma do amor, queremos falar dele. Pensar o amor é a tentativa de vivê-lo de novas maneiras. Isto de falar de amor ainda vai nos levar além, como gostaria Leminski.

Contudo, não somos isentos. Temos simpatia por algumas ideias, elas ressoam bem conosco. Estamos interessados em determinadas ideias sobre o amor, e essas o trazem como devir e não como dever. Para nós, recusar os deveres é o primeiro passo para tornar as coisas mais leves. Carregar um valor é uma péssima maneira de apropriar-se dele. É melhor usá-lo como uma arma, ou melhor, como um brinquedo – Camelo-Leão-Criança, poderíamos pensar o amor com Zaratustra.

Entre dever e devir, nossa pergunta inicial se desenvolve em várias outras: primeiro, o que é dever-amor? Depois, o que é devir-amor? Afinal, por que o amor se constituiu como um dever? Ou, qual é o traço característico de um amor leve? Ou ainda, como torná-lo um devir? Não queremos desviar dos problemas nem nos livrar das perguntas, mas queremos que sejam o mais interessantes que podem ser. Viver, trata-se de buscar bons problemas; filosofar, trata-se de fazer boas perguntas. 

O amor se torna um dever sempre que é subordinado a um modelo. Seja familiar, religioso ou biológico, há sempre um campo normativo que enrijece as relações, submetendo-as a um dever-ser. Qualquer ideia de “amor verdadeiro” nada mais é do que uma prática de resiliência fundamentada em ideais. A paixão infinita com seu brilho celeste nos atordoa ao ponto do constrangimento. O amor imutável e sua recorrente necessidade de provas pesa sobre nossos ombros. Aceitar, aceitar, aceitar, nunca questionar, nunca mudar.

Ainda que mais duras ou mais flexíveis, sempre haverão forças sociais a ditar o que é o amor verdadeiro e como as pessoas deveriam viver. Então, não é a questão utópica de pensar a liberdade absoluta, mas uma prática de questionamento. Nesse sentido, é muito bom que tenhamos achado nomes para essas forças produtoras: heteronormatividade, cisnormatividade, machismo… e muitos outros. São camadas de uma mesma prática de constrangimento operada sobre tudo aquilo que se diferencia do normal. No caso, o homem cis branco heterossexual e seu par fusional, a mulher submissa, “bela, recatada e do lar”. 

O homem que ninguém é, mas todos deveriam ser, aí está uma forma vazia que nos aprisiona a todos.  A destituição do homem de seu lugar de poder é fundamental se quisermos reinventar o amor. Devir-mulher é contestar o macho escroto que há em todos nós. A primeira força para revitalizar o amor é feminina. O homem se constituiu pela propensão perversa em fruir de um objeto passivo, dominá-lo a despeito de seu desejo, nada mais do que submetê-lo à sua violência. O homem é aquele que goza sozinho, então a criação de um afeto de alegria-mútua passa necessariamente pela destituição do homem de seu lugar de poder. 

Nosso amor estava decidido antes mesmo de nascermos? Desculpe, não podemos aceitar. Ainda crianças nos dizem o que amar e o que odiar como se nos depositassem na base de uma escada rolante, subindo em direção à realização da vida perfeita: paixão pelo marido, amor pelo patrão, obediência ao pai, tesão pelo carro, desejo pela grana. Em sua irredutível singularidade, nossos corpos desafiam esse dispositivo, eles gritam: não queremos chegar a lugar algum! Cada momento já é uma chegada, onde descobrimos um interesse, onde encontramos um caminho, onde integramos uma relação. 

Para recuperar algum amor-próprio, precisamos emancipar o amor do plano ideal ao qual ele foi alçado, porque lá em cima ele só serve para julgar aquele que de fato existe. O óbvio precisa ser dito: ninguém é culpado por amar, nem por deixar de amar. A ternura que sentimos por outra pessoa é uma delicada exuberância, é resultado de uma abundância, de um atravessamento que não cessa de nos espantar. Não estamos sempre prontos para amar, assim como podemos ser sempre surpreendidos pelo amor.

Não há por que se envergonhar, o devir assusta. Quando amamos alguém, é compreensível que a mudança nos assombre. Mas pensando bem não foi justamente alguma mudança, algum movimento, que nos trouxe a pessoa amada? É claro que a passagem de algo bom para algum ruim nos incomoda – é inevitável – mas não faz sentido culpar a mudança. É tão ingênuo como culpar a gravidade por nos fazer tropeçar! No limite, é preciso tentar acompanhar a mudança, porque de um jeito ou de outro ela ocorre. O dia em que nos apaixonamos guarda uma semelhança com o dia em que partimos : o devir.

Devir é fundamental, pois é revolucionário por excelência. A metamorfose como princípio faz todos modelos fugirem. Não há norma eterna, lei fixa, código rígido, o que há são relações se modificando segundo suas próprias medidas – quando não são aprisionadas dentro dos modelos, é claro. Em vez de nos enquadrar e aprisionar os outros, queremos a capacidade de acompanhar com o máximo possível de alegria os movimentos necessários, o perpétuo vir-a-ser que faz da vida aquilo que ela é.

Sempre e nunca são palavras muito pesadas, o amor começa no meio. O amor não é um território, é um fluxo que o atravessa e o modifica. É triste pensar as relações como conquista, como luta territorial. O desejo de conquistar não está muito distante do desejo de colonizar. Um princípio para viver o amor como um devir é deixar de amar os territórios para nos ligar-se aos seus movimentos. Habitar não é interromper, mas envolver-se com os fluxos, não trata de colocar armadilhas para aprisionar o amor, mas de estar atento aos encontros e presente nos afetos. 

Falando em limites, outro bom princípio: não separar a amizade do amor. Mais uma vez, não são territórios distintos. Limites não são leis infalíveis, ao contrário, são medidas que estipulamos para nos relacionar bem. A amizade não é uma zona fria onde traçamos fronteiras intransponíveis. Ao contrário, a amizade já é um amor, só não se sabe até que ponto – é uma questão de devir. O amor está para além de deveres e direitos, ele contesta os limites mais rígidos propondo uma nova vida. Acolher este afeto, ainda que com alguma dificuldade, é o nosso objetivo.

Qualquer devir nos apresenta a novos verbos, e não é uma questão apenas linguística. A afeição que sentimos pelo outro é um vetor de transformação, no sentido em que nos mostra possibilidades novas de sentir, de pensar, de fazer, de ser. Devir-amor é diferenciar-se junto com o outro. É um passeio acompanhado, é devir-nuvem. Queremos voar juntos, rir acompanhados, sonhar acordados, nadar pelados, dormir agarrados – mas sempre preservando-nos da fusão completa. 

Devir é o desafio de sentir-se mais próprio sendo outro. É um delicado equilíbrio, porque há sempre o risco de fundir-se e perder-se na dependência. Princípio básico da anarquia relacional: envolver-se sem prender, tanto a si mesmo como aos outros. Tornar-se outro, mas sempre acompanhado de si – eis a fórmula difícil, porém necessária, para transformar o dever-amar em devir-amor.

Texto da Série:

Anarquia Relacional

Rafael Lauro

Autor Rafael Lauro

Música e Filosofia são as linhas que tecem a minha vida...

Mais textos de Rafael Lauro
guest
14 Comentários
Inline Feedbacks
View all comments
Manoel Fernando
Manoel Fernando
3 meses atrás

Texto maravilhoso!!

Maria do Rocio - Maria- Estrela Lunar Amarela-face
Maria do Rocio - Maria- Estrela Lunar Amarela-face
3 meses atrás

Adorei título: ANARQUIA RELACIONAL, da série!

Leila abreu
Leila abreu
3 meses atrás

O texto é claro objetivo é maravilhoso.

Anderson
Anderson
3 meses atrás

Arrasou!

Bianca Carvalho
Bianca Carvalho
3 meses atrás

Lindo texto!

Bianca Carvalho
Bianca Carvalho
3 meses atrás

Voltei pra comentar de novo, porque é um tema que se faz bastante presente pra mim. Encontrei nas minhas anotações um trecho de “A náusea” (Sartre, p.61), que virou quase um manifesto pra mim, e que se relaciona com seu texto: “Alguma coisa começa para terminar: a aventura não se deixa prolongar; só tem sentido através de sua morte. Para essa morte, que será talvez a minha, sou arrastado inexoravelmente. Cada instante só surge para trazer os que lhe seguem. Apego-me a cada instante com todo o meu coração: sei que é único; insubstituível — e no entanto não faria… Ler mais >

Nathalia Silva de Freitas
Nathalia Silva de Freitas
Reply to  Bianca Carvalho
2 meses atrás

Tuas anotações me lembraram a discussão sobre TAZ, Zona Autônoma Temporal. O que dá seu caráter, é, entre outras coisas, sua transitoriedade, temporalidade. O que não tira a beleza da existência desse momento, aliás justamente sua temporalidade a permite como zona de experimentação. Acho que esse tipo de encontro entre as pessoas, que chamamos de amor, pode ser caracterizado dessa forma também, como uma espécie de TAZ. (Mas eu posso estar viajando legal também, me desculpe. Eu também não leio Sartre, então imagino que a ideia de “alguma coisa começa para terminar” possa ter um sentido na obra dele bem… Ler mais >

Luiranna
Luiranna
3 meses atrás

♥️ Maravilhoso!

Nathalia Silva de Freitas
Nathalia Silva de Freitas
2 meses atrás

Muito, muito bom! Inspirador e inquietante ao mesmo tempo. ”O desejo de conquistar não está muito distante do desejo de colonizar. Um princípio para viver o amor como um devir é deixar de amar os territórios para nos ligar-se aos seus movimentos.” Acho que a ideia é justamente não usar o outro, mas sim caminhar com ele. O amor é também peripatético!

Ellyson Freitas
Ellyson Freitas
2 meses atrás

Li o mais devagar que pude. Mas acabou. Deixar passar esse texto já é, provavelmente, um ‘exercicio’ para devir-amar.