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Epicuro teve a ‘sorte’ de ter como discípulos dois ricos senhores, Leonteus de Lâmpsado e Idomeneu. A ‘sorte’ se justifica em razão de eles (movidos por grande admiração e amizade pelo mestre) terem comprado em Atenas uma casa circundada por um grande jardim, com que presentearam Epicuro. Pois foi ali, definitivamente, que Epicuro edificou sua escola, ou melhor, sua ‘comunidade de amigos’” – Miguel Spinelli, Os Caminhos de Epicuro

Com 35 anos, Epicuro de Samos abre uma escola em Atenas. Ousado, afinal, o filósofo estava na terra da filosofia, onde as grandes escolas estavam também. De um lado, a Academia de Platão, que já estava morto, mas seus discípulos continuavam seus ensinamentos, do outro o Liceu de Aristóteles, o filósofo mais famoso de toda a Grécia, que estava na corte de Alexandre. E posteriormente, a Stoa, do filósofo estoico Zenão.

Pois bem, este foi o local escolhido pelo mestre do hedonismo para dar seus ensinamentos. Mas ele se coloca na parte mais afastada da cidade. Mesmo que a vida lá fosse absolutamente frugal, diferente das intrigas espalhadas por seus caluniadores.  O Jardim se abria como um oásis no meio do deserto para todos aqueles que se sentiam perdidos, sofrendo dores da alma, angustiados. 

Lá dentro do Jardim Epicuro cultivava, sim, a liberdade, mas não a vida dissoluta (libertinagem, desordem). Lá Epicuro vivia feito um ermitão, cumpria uma regime de vida bem regular, próximo ao de um asceta” – Miguel Spinelli, Os Caminhos de Epicuro

O Jardim de Epicuro não ficava no centro de Atenas, como a Academia ou o Liceu. Muito pelo contrário, Epicuro estava cansado da vida pública (participou dela por pouco tempo), e das infinitas discussões vazias e inúteis que não levavam a nada. Atenas tinha perdido sua autonomia, os cidadãos haviam se tornado meros súditos do Império Helênico.

Ao contrário da tranquilidade que buscava, a cidade lhe trazia apenas perturbações e preocupações. Por isso Epicuro buscou o refúgio em seu Jardim. Lá era desfeita a identidade cidadão-indivíduo, e os sujeitos podiam se relacionar horizontalmente. O Jardim acolhia sem distinções, a qualquer um que quisesse participar, aprender e encontrar a verdadeira felicidade. 

Um campo aberto que possibilitava novas relações. No jardim floresciam novas subjetividades. Longe do tumulto da cidade, Epicuro pedia aos governantes que possibilitassem apenas o mínimo de paz e segurança, e não lhes incomodassem. 

A verdadeira segurança, a segurança da alma, não é oriunda das cidades nem das leis, mas da vida tranquila distanciada da multidão” – Gigandet e Morel, Ler Epicuro e os Epicuristas

Lá era possível evitar a dor e encontrar o prazer, máxima maior do hedonismo epicurista. O Jardim era inclusivo, aberto, auto-gerido, alguns o chamariam de comuna, outros de algum tipo de monastério, sociedade hippie, tanto faz… o que importa é que lá era possível juntar teoria e prática, o conhecimento servia diretamente para modificar as ações. 

A vida que era ensinada no jardim podia ser vivida por qualquer pessoa, não importando se era grego ou estrangeiro, cidadão ou escravo, homem ou mulher, novo ou velho. O objetivo? Desfazer-se de todas as superstições que geram medos inúteis; não temer os deuses nem a morte, porque estes não nos dizem respeito. Ora, qualquer um pode beneficiar-se destes ensinamentos.

No Jardim buscava-se afastar-se de todas as dores e aproximar-se dos prazeres simples, apenas aqueles que não nos tirasse o equilíbrio e a tranquilidade da alma. Era assim que Epicuro vivia, em boa companhia.

Com alegria e gosto eles vivam recolhidos em busca do que mais importava para eles: viver uma vida pacífica, plena, sem excessos e feliz. O excesso desqualifica o gozo” – Miguel Spinelli, Os Caminhos de Epicuro

De substantivo comum, o jardim tornou-se pouco a pouco um nome próprio: Filosofia do Jardim. Como o jardim de Éden? Talvez, mas sem a concepção de pecado, sem deuses ciumentos e punitivos.  Talvez um tipo de paraíso onde a única crença era na obtenção de um prazer tranquilo e equilibrado.

Nada melhor do que um Jardim para se fazer isso, pois ele é a metáfora perfeita dos objetivos do epicurismo: devemos aprender a cultivar nosso jardim, cuidar dele. Tratar nossa vida como se fosse um belo jardim, que necessita de constante atenção e que pode, sim, dar belos frutos.

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Rafael Trindade

Autor Rafael Trindade

Quero fazer da vida o ofício de esculpir a mim mesmo, traçando um mapa de afetos possíveis.

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Vanessa
Vanessa
2 meses atrás

Interessante. Eu não sabia que ele aceitava escravos. Fiquei surpresa.