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Inspirado pelos seminários lacanianos, Guattari desenvolve a ideia de ritornelo no âmbito da clínica. Em seu livro “O Inconsciente Maquínico” (1979), ele relata o caso do jovem psicótico R.A. que responde “não sei de nada”, “não sou nada”, “estou morto” às perguntas mais cotidianas. Pensando no castelo de Kafka e também no “prefiro não” do escriturário de Melville, Guattari começa a pensar a repetição como potência capaz de produzir saídas.

Pensando a clínica dessa maneira, ele se aproxima de Deleuze, que desde “Diferença e Repetição” (1968), já se propunha a pensar filosoficamente a repetição em função da diferença. Talvez por isso Deleuze diga no Abecedário que o conceito de Ritornelo talvez seja o mais importante que eles criaram juntos, sendo o maior ponto em comum entre eles dois. No Mil Platôs, eles abordam a questão juntamente à problemática particular do livro, que é a relação entre multiplicidade e estratificação.

A palavra ritornelo vem do italiano ritorno, que remete a uma cançoneta que se repete. Na notação musical, ritornelo é o nome dado ao símbolo que indica a repetição de um determinado trecho da partitura. Em linguagem popular, significa apenas refrão. É uma palavra derivada do campo sonoro, por isso o platô que trata desse tema é o que mais se aproxima da música. No entanto, um conceito não é exatamente uma definição de dicionário. Então, o que é ritornelo para Deleuze e Guatarri?

“Num sentido geral, chamamos de ritornelo todo conjunto de matérias de expressão que traça um território, e que se desenvolve em motivos territoriais, em paisagens territoriais.”

– Deleuze e Guattari, Mil Platôs, 4

Ritornelo é um conceito que trata da constituição dos territórios e sua relação necessária com a desterritorialização. Não deixa de ser outra maneira de abordar a problemática de todo o Mil Platôs, isto é, a relação entre os estratos e a multiplicidade. Também não deixa de ser, mais uma vez, o problema da relação entre repetição e diferença. Neste sentido, o que é um território? É a transformação de um conjunto material em expressão: tal cor passa a dizer algo, tal som passa a dizer algo. 

Eles trazem o exemplo de uma espécie de pássaros chamada Scenopoeetes, que dispõe as folhas caídas das árvores para marcar o lugar de seus ninhos. Antes de determinada organização, as folhas não diziam nada de particular, mas a partir da nova disposição, transformam-se em um traço territorial. Poderíamos sugerir um exemplo ainda mais simples: a urina de um cão em determinado poste não é simplesmente matéria, mas expressão: “estive aqui” ou “cuidado aqui”. De qualquer maneira, qualquer cão que atravesse aquele espaço será afetado por ele – assim se constitui um território.

Em um segundo sentido, um território é a imposição de um limite ao caos. Assim, a territorialização é o processo de formação de códigos que alteram a maneira como os fluxos atravessam determinado espaço. Uma casa é um território onde nos abrigamos do frio e da chuva; um barco é um território onde se altera o atravessar das marés; a música constitui territórios melódicos, harmônicos, motívicos, onde as frequências são selecionadas. Em suma, podemos dizer que um território é a imposição de limites para proteger o interior das forças do caos.

Entretanto, os territórios não são absolutamente rígidos. Ao contrário, o que interessa a Deleuze e Guattari é pensar como um território formado pela repetição pode ser um suporte para a diferença. As perguntas interessantes começam a surgir aqui: como organizar territórios que nos abriguem dos excessos sem fechar-nos para tudo aquilo que quer atravessar? O conceito de ritornelo surge como uma tentativa de resposta para a difícil relação entre os territórios e sua necessidade de desterritorialização.

O ritornelo tem uma primeira dimensão que nos concerne a todos: uma espécie de pequena ética. Como fazemos para organizar nossos abrigos, quando sabemos a hora de sair e de voltar, quem ou o que deixamos entrar? O pequeno ritornelo ético é a tentativa de dar conta dos movimentos de criação, manutenção e abandono dos territórios. Para dar conta desse conceito, eles propõem um movimento ternário, que aparece no começo do Platô por meio da analogia de uma criança:

“I. Uma criança no escuro, tomada de medo, tranquiliza-se cantarolando. Ela anda, ela para, ao sabor de sua canção. Perdida, ela se abriga como pode, ou se orienta bem ou mal com sua cançãozinha. Este é como o esboço de um centro estável e calmo, estabilizador e calmante, no seio do caos.”

– Deleuze e Guattari, Mil Platôs, 4

O escuro desfaz nossas referências de orientação, a criança inventa uma canção, encontra outra forma de se proteger, uma cançoneta, uma nova calma, um território que a abriga do medo. Esse meio sonoro que ela cria e repete inúmeras vezes é um começo vacilante, mas pouco a pouco torna-se a base para novos passos. No seio do caos, no meio das coisas, no encontro, estabelecem-se repetições, associações e referências que serão utilizadas para um novo movimento.

A criança cantando encontra um ritmo que lhe favorece criando um meio como resistência ao caos, assim começa o seu agenciamento territorial. Um território é um ritmo que se torna expressivo, uma marcação que altera as relações.  Temos o primeiro movimento: uma grande atividade de seleção, de marcação, de distanciamento que regula o que atravessa e como isso passa. É a constituição de alguma regularidade que marca esse primeiro movimento.

Em um segundo momento, vemos as crianças numa canção de roda, criando um espaço lúdico que permite novas medidas para as relações. Uma disposição circular acompanhada de uma expressão sonora muda a maneira como todas se comportam: suspende determinadas regras, coloca outras, altera toda a dinâmica relacional. Os ritmos que marcavam o território agora permitem o surgimento de funções definindo um interior protegido de um exterior ameaçador. O que antes marcava o território agora é também a distinção entre um dentro e um fora. No pátio da instituição disciplinar, as crianças inventam suas próprias regras por meio de um ritornelo.

É graças ao território que nasce uma nova relação com o fora, é o limite que permite o traçado das tangentes. Ou seja, é graças a este segundo movimento que surge a possibilidade de sair. Delimitar o lado de dentro é também definir um fora a ser explorado. O território está necessariamente relacionado com a desterritorialização – não estaríamos no Mil Platôs se não chegássemos a este ponto. O agenciamento territorial germina coisas novas, é isso que realmente se chama ritornelo. Um território é um abrigo, mas é também o que permite a saída e o retorno.

“III. Agora, enfim, nós entreabrimos o círculo, nós o abrimos, deixamos alguém entrar, ou então nós mesmos vamos para fora, nos lançamos. […] Lançamo-nos, arriscamos uma improvisação. Mas improvisar é ir de encontro ao Mundo ou confundir-se com ele. Saímos de casa no fio de uma cançãozinha”

– Deleuze e Guattari, Mil Platôs, 4

A cançãozinha que a criança cantava para proteger-se do escuro, agora usa para sair de casa, é seu mote protetor, seu abrigo temporário, as rodinhas de sua bicicleta.  No primeiro movimento, estávamos pensando em um infra-agenciamento, os meios, que davam suporte ao território; no segundo movimento, um intra-agenciamento, aquilo que definia um dentro e um fora; no terceiro, os interagenciamentos, a desterritorizalização que atravessa todo território e o cruza com os demais.  

Em suma, é a constituição de um território que nos incita a explorar a vizinhança. O ritornelo é a liberdade das margens, dos limites que permitem a exploração, dos contornos que suscitam a experimentação. O ritornelo é o processo de formação dos nossos lastros afetivos. Assim como o músico de jazz encontra na repetição do tema uma razão para improvisar, nós queremos encontrar em nossas repetições cotidianas o suporte para a diferenciação e o gosto pela criação.

Texto da Série:

Mil Platôs

Rafael Lauro

Autor Rafael Lauro

Música e Filosofia são as linhas que tecem a minha vida...

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