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Em 1656, Luis XIV inaugura o Hospital Geral em Paris. E por toda a Europa começa a ocorrer o que Foucault chamou de A Grande Internação: uma enorme massa de indivíduos das mais diferentes categorias passa a ser considerada um inconveniente para a cidade e é jogada em grandes depósitos de pessoas. 

Neste processo, vemos o louco sumir da paisagem, ele também é internado, junto com uma massa homogênea anônima. Mas na verdade, a internação é um gesto heterogêneo e complexo. Junto com o louco estão profanadores, libertinos, devassos, prostitutas, mendigos, desempregados.

É todo um conjunto de pessoas que é considerada “desajustada”. Mas desde já é possível notar uma coisa importante: não há médicos no corpo de funcionários, o hospital geral é um lugar muito mais jurídico do que médico. Ele é uma linha que divide o normal e o anormal, o “certo” e o “errado”. Em suma, a internação é política, econômica, moral, social, religiosa; tudo, menos médica.

Isso quer dizer que o critério que dá coerência às internações é o negativo. É internado todo aquele que não é normal, que apresenta algum desequilíbrio, alguma diferença que o impede de se encaixar em um modelo.

Qual seria o a priori da história para tal acontecimento? Foucault encontra tanto um gesto político, quanto um gesto teórico.

A Balsa da Medusa, Jean Louis Théodore Géricault, 1819 (Detalhe)

Na primeira metade do século XVII, Descartes funda o racionalismo, aproximando a loucura do sonho e do erro. Ele se pergunta: “Como podemos ter certeza das coisas?” (inaugurando a dúvida metódica que o levaria a dizer: penso logo existo”). Afinal, podemos estar sendo enganados por um gênio maligno, estarmos sonhando, podemos ser loucos e não sabermos. Mas Descartes responde: “Mas eu sei que estou pensando, eu sei que duvido, eu sei que através do meu pensamento racional eu não sou louco”. 

Descartes bane a loucura com a luz da razão, expulsa o erro com o pensamento racional. Resultado: a loucura perde sua positividade e começa a ser submetida pelo discurso da razão. Se o fundamento da minha existência é o pensar, penso logo existo, então quem se distancia do pensamento racional, de certa maneira, é menos, existe menos. É aqui o ponto em que a razão começa a dominar a loucura.

Político

O segundo acontecimento é o fim dos Leprosários e o abandono das suas estruturas arquitetônicas. A Grande Internação reativa a antiga prática dos leprosários: isolamento. Se na idade média os leprosos precisavam ser excluídos para não contaminarem os sãos, agora o pensamento é exatamente o mesmo, mas com outros tipos de “contaminadores”: pobres, vagabundos, presidiários, cabeças alienadas assumirão o papel abandonado pelo lazarento.

Assim, a partir de 1650 a loucura esteve ligada aos internamentos, este era seu lugar natural. Ela deixa de ser uma ligação com outra coisa, outro pensamento, outro mundo, para fazer de nós algo menor: alienados, desarrazoados, insanos, mentecaptos. 

A partir do século XVII, aproximadamente, constitui-se a sociedade industrial e a existência de tais pessoas não foi mais tolerada. Em resposta às exigências da sociedade industrial, criaram-se, quase simultaneamente, na França e na Inglaterra, grandes estabelecimentos para interná-los”

– Foucault, Ditos e Escritos, p. 261

Conclusão: O internamento foi um recurso retirado da soberania (calabouços) e da igreja (leprosários) para isolar as irregularidades encontradas pela sociedade burguesa-industrial em ascensão. A separação é moral e não médica! A loucura é um problema porque ela é improdutiva!

O interessante é notar como Foucault faz este movimento da percepção da loucura ligando-a a todo um contexto intelectual e político. A loucura não é algo separado da realidade, a percepção de sua realidade é diretamente afetada pelo momento histórico no qual ela se encontra. E, infelizmente, naquele momento, ela era vista como um inconveniente que deveria sumir da visão da sociedade.

Texto da Série:

Foucault – História da Loucura

Curso Online baseado nesta série

Rafael Trindade

Autor Rafael Trindade

Quero fazer da vida o ofício de esculpir a mim mesmo, traçando um mapa de afetos possíveis.

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Liah
Liah
2 anos atrás

Me lembrou uma frase que carrego comigo todos os dias: “Se minhas loucuras tivessem explicações não seriam loucuras”. Amo os textos e os podcasts de vocês. É tão bom poder ouvir e ler sobre filosofia de uma forma mais descontraída, porém sem perder o conteúdo. Obrigada!

Suzana
Suzana
2 anos atrás

Muito bom, Rafael!💚