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De todas as acusações feitas a Hume, a de ceticismo talvez seja a menos ofensiva. O filósofo não apenas escreve sobre o tema como sua própria filosofia pode ser considerada cética. Hume é, sem dúvida, um dos maiores céticos entre os filósofos modernos. As primeiras linhas do Tratado da Natureza Humana já alertam que a ciência não deve pretender mais do que o entendimento é capaz de alcançar. Então, em que sentido o ceticismo pode ser usado como acusação?

Aliás, é bom lembrar que no século XVI, o ceticismo era uma arma nas mãos dos católicos da contrarreforma, interessados em desacreditar a razão em função da recuperação da fé. O protestantismo nascia com a prerrogativa da interpretação direta e racional dos textos sagrados, tirando a igreja e os padres do lugar de mediadores da palavra divina. Assim, a filosofia cética antiga é redescoberta à luz dessa necessidade de pensadores contra uma nova razão emergente. 

Dois séculos depois, o Reino Unido é majoritariamente protestante e o ceticismo é visto imediatamente como algo perigoso, antirreligioso, descrente, praticamente sinônimo de ateísmo. É nesse contexto que Hume é acusado de cético. Mas mesmo nos países de maioria católica a moda do ceticismo passou logo, pois um pensamento questionador nunca se mantém crítico a apenas um dos lados por muito tempo. 

A história deixou claro que o ceticismo é louvado quando direcionado como um canhão aos inimigos. Se ele demole as certezas do meu inimigo, então é meu amigo, se ele se volta contra as minhas certezas, então é meu inimigo. Sabemos que o ceticismo, desde os gregos, nunca teve lado, nunca privilegiou um discurso específico. O propósito geral do pensamento cético pirrônico era a suspensão do juízo e mesmo as outras vertentes mais moderadas do ceticismo partiam do pressuposto de que a verdade é inalcançável.

Hume está a dois mil anos de distância do ceticismo antigo grego, mas tem muitas semelhanças com essa filosofia no direcionamento geral do seu pensamento. Ele combate tanto a metafísica especulativa-dogmática quanto as práticas religiosas-supersticiosas. Assim como gostaria Sexto Empírico, Hume propõe o ceticismo como uma regulação do entendimento: a razão é falha, mas desde que tensionada por si mesma, adquire valor. 

Para dar conta dos falsos problemas da metafísica, Hume pretende encontrar os limites daquilo que podemos conhecer. O ceticismo é o instrumento que permite fazer uma espécie de limpeza de terreno, uma distinção entre o que é passível de conhecimento e o que deve ser abandonado. Nesse sentido, a filosofia de Hume trabalha com modéstia e recusa qualquer forma de salto injustificado no campo do conhecimento.

Hume se debruça sobre a metafísica escolástica para mostrar que os seus pressupostos não têm qualquer embasamento na experiência e portanto precisam ser recusados. Substância, existência, alma… são apenas palavras que não designam nada de específico na experiência e que, justamente por isso, permitem um uso largo, muito geral e obscuro. É preciso perguntar sempre qual é a impressão da qual derivam as ideais, isto é, recuperar a relação entre pensamento e experiência para encontrar os limites do entendimento.

Aqui está o empirismo de Hume, enquanto face negativa ou crítica de seu ceticismo. Negativa no sentido de impor limitações àquilo que se é possível conhecer; e também no sentido crítico em que se apresenta frente aos mais diversos discursos filosóficos. No entanto, podemos dizer que esse empirismo não é a direção mais geral de sua filosofia, ele é apenas uma face do ceticismo, esse sim mais central no pensamento de Hume. 

Se o empirismo fosse a própria positividade da teoria do conhecimento, isto é, se fosse possível responder todas as dúvidas recorrendo à experiência, então não haveria ceticismo. O ceticismo é a direção geral de sua filosofia, o empirismo é o método de análise que permite exercer esse ceticismo. É justamente por ser um método que o empirismo não se torna contraditório com o ceticismo. A experiência não fundamenta grandes certezas, ao contrário, nos fornece material para elaborar dúvidas e propor bons problemas.

Sendo assim, o ceticismo de Hume apresenta uma outra face, positiva ou propositiva, que chamamos de naturalismo. Se resume bem na tentativa de realizar uma ciência da natureza humana, isto é, de inventariar o que forma a mente, encontrar os princípios de organização desse material nas ideias e explicitar os problemas dessas associações. É assim que, por exemplo, Hume consegue propor soluções para problemas como o da inferência causal, elaborando hipóteses sobre como funciona a natureza humana.

Além disso, quando Hume trata das paixões e da moral, ele precisa assumir um determinismo e uma concepção de natureza para a qual não temos certeza, apenas indícios. Ainda assim, o ceticismo se apresenta como uma saúde do pensamento que nunca se torna dogmático, permanecendo sempre em investigação. O ceticismo é o que resguarda o pensamento da ignorância afirmada como conhecimento e também como forma política de dominação. A indignação de Hume ao ser chamado de cético se resume na pergunta: a que ponto chegamos quando a prática de questionar certezas se torna uma acusação?

Texto da Série:

Três Acusações

Rafael Lauro

Autor Rafael Lauro

Um dos criadores do site Razão Inadequada e do podcast Imposturas Filosóficas, onde se produz conteúdo gratuito e independente sobre filosofia desde 2012. É natural de São Paulo e mora na capital. Estudou música na Faculdade Santa Marcelina e filosofia na Universidade de São Paulo. Atualmente, dedica-se à escrita de textos e aulas didáticas sobre filósofos diversos - como Espinosa, Nietzsche, Foucault, Epicuro, Hume, Montaigne, entre outros - e também à escrita de seu primeiro livro autoral sobre a Anarquia Relacional, uma perspectiva filosófica sobre os amores múltiplos e coexistentes.

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Maria Costa
Maria Costa
2 anos atrás

Parabéns pelo seu trabalho! Agradecemos!